
Moradores revoltados interditam rua esburacada no bairro Palheiral
Máquinas da prefeitura derrubam barricada, mas comunidade refaz a manifestação e volta a cobrar melhorias
Josafá Batista
Criadas durante a administração de Mauri Sérgio (PMDB), as manifestações de rua, com queima de pneus e interdições de vias públicas, voltaram - com alguns percalços. A última registrada (precisamente na rua Tião Natureza, bairro Palheiral, nas primeiras horas de domingo) foi duramente reprimida. As máquinas da Empresa Municipal de Urbanismo (Emurb), acusam os moradores, foram chamadas para destruir a barricada, o que obedeceram prontamente.
O confronto que derivaria da ação das máquinas com a irritabilidade dos moradores do Palheiral só não aconteceu porque, ainda segundo a versão dos manifestantes, a “limpeza” dos entulhos depositados na rua aconteceu à noite, quando quase todos já se tinham encaminhado às suas casas. Na manhã seguinte, não deu outra. Pneus, troncos de árvores, caixas de papelão e madeira, fios de cobre e até fogões e geladeiras velhos tomaram o espaço da débil e caótica pavimentação.
Moradora do Palheiral há 40 anos, a aposentada Valdelúcia Santos do Nascimento, 61, disse nunca ter visto o local em tão lamentável estado de abandono. “A prefeitura diz que a obra está no orçamento de 2002, depois no de 2003 e assim vai levando. Vai enrolando a gente. O pior é que a gente vem pagando essa porcaria desse IPTU, meu filho, e até hoje ninguém viu as máquinas da prefeitura agindo. Agora, quando é para acabar com um protesto, aí eles sabem agir e bem rápido”, reclamou ela.
Não ao IPTU
O detalhe, percebido por Valdelúcia, de que as mesmas máquinas que deveriam ser utilizadas para pavimentar as ruas acabaram como instrumentos de repressão da vontade popular, não passou despercebido pelos outros manifestantes. O clima é de revolta geral, mais pela afronta do que propriamente pelo abandono. E isso não é tudo: por conta desse mesmo item, a maioria dos moradores promete não pagar mais o IPTU.
O imposto, cujo déficit de arrecadação chega hoje a estratosféricos R$ 10 milhões anuais, é a segunda maior fonte de renda da prefeitura de Rio Branco, oscilando de R$ 2,5 a 3 milhões anuais. É do dinheiro do IPTU, que, em condições normais, saem verbas para obras emergenciais. Como a do Palheiral, a exemplo de dezenas de outros bairros.
Comunidade exige providências
“A prefeitura deveria respeitar as pessoas que pagam seus impostos em dia e parar de asfaltar as ruas do centro da cidade, que, aliás, já estão asfaltadas. Nós que moramos nos bairros é que patrocinamos essa sem-vergonhice. Nunca mais fizeram alguma coisa pelo Palheiral, desde a época da prefeitura do Jorge Viana. Foi ele que pavimentou tudo aqui. Os outros, nada” - Francisca Almeida Moura, 53, professora
“Já teve todo tipo de acidente aqui. Outro dia a ambulância tentou entrar, não conseguiu e atolou. Outra vez um caminhão tentou passar e não conseguiu também. É fogo. E olha que todo mundo paga imposto aqui, mas vamos deixar de pagar enquanto a prefeitura não tomar uma providência. Isso não se faz, não. Aquela das máquinas foi a gota d’água, você não acha?” - Zuleide Estácio de Araújo, 49, dona de casa
“O prefeito vive dizendo que tem não sei quantos quilômetros asfaltados, que tá tudo muito bom e tudo muito bem. Pois quando a gente faz uma manifestação para exigir esse asfalto na nossa rua, ele vai e manda as máquinas dele acabarem com tudo? Não entendo. Ou o prefeito tem medo da verdade ou acha que nós não fazemos parte da cidade. É uma pilantragem” - José Neto Freire, 60, encanador
“Dá vergonha trazer os amigos até a minha casa, porque a rua parece mais um chiqueiro. É uma falta de respeito muito grande com a gente. Tem muitas crianças que já caíram nesse charco, carros que já atolaram. Essa besteira que a prefeitura fez deve ficar como exemplo da falta de respeito que ela tem pela gente. Deveriam é trabalhar, tomar uma providência para isso aqui” – Leônidas de Souza Silva, 23, estudante