
Mercado em potencial
Artesão comemora o seu dia destacando o atual papel dos produtos acreanos desenvolvidos a partir de sementes da floresta no mercado do Brasil e do mundo
Tatyana Campos e Rose Farias
O ofício de artesão comemora o seu dia hoje, 19 de março. A profissão é uma das mais antigas e, segundo estudiosos, nasceu no período neolítico (6.000 a.C.), quando os homens aprenderam a polir a pedra, transformar a cerâmica em barro e fibras animais em tecelagens. O ofício foi aprimorado e sobreviveu aos tempos, chegando à era moderna com a característica que lhe atribui valor cultural desde os primórdios: a produção manual de pequenas peças de arte.
No Acre o dia não terá grandes comemorações, mas os pequenos empresários do ramo adiantam que mesmo com as dificuldades, o atual papel de mercado do produto artesanal no Brasil e do mundo vem nos últimos tempos adquirindo um lugar de destaque. Isso é motivo de comemoração para eles.
Trabalhando com matéria prima extraída da floresta, como as sementes de açaí, jarina, sibipiruna, patuá, entre outras, um dos artesãos mais conhecidos no Estado, João Natureza, diz que além de fabricar as peças com sementes, no momento atual tem trabalho com o beneficiamento, onde costuma exportar para as principais capitais brasileiras toneladas de sementes.
“É bom acrescentar que essas sementes são ‘mortas’. O açaí, por exemplo, pego no lixão que fica na beira do rio Acre, e acreditem acabamos até gerando um novo mercado, o dos catadores de sementes”, explica.
O artesão relata sua história, desde quando começou a interessar pelo ofício. A época segundo ele sinalizava o movimento hippie, por volta de 1975. Paulistano, conta que sempre gostou de usar peças artesanais e um dia resolveu comprar, além das peças prontas, material para aprender em casa. Começou com arame e alicate de unha e com o tempo foi aperfeiçoando seus conhecimentos.
“Nessa época era difícil trabalhar por que estávamos na ditadura militar. Nós trabalhávamos nas praças e a polícia nos perseguia, mandava a gente ‘ir andando’, dizia que ali não era lugar pra trabalhar”, lembra o artesão.
Paixão por produtos naturais
Em 1994, após viajar por todo o Brasil, América Latina e parte da América Central, João Natureza, que estava “a procura de um lugar para habitar”, decidiu deixar o Rio de Janeiro e “abrir o pano” para vender seu artesanato na Praça Plácido de Castro, na capital acreana.
“Quando eu cheguei aqui e vi a riqueza em produtos naturais que o Estado oferecia descobri que iria ficar no Acre. Eu trabalhava com arame, moeda e strass. Aqui conheci as sementes, as matérias-primas da natureza. Sempre fabriquei as peças, não gostava muito de bijuterias. O artesanato é uma coisa de raiz, tem que ter amor à arte”, comenta o artesão.
João recorda que procurou se estruturar no Acre. Comprou um pequeno terreno, construiu uma casa e uma oficina aos fundos. Hoje ele emprega 23 rapazes que trabalham no beneficiamento de sementes, cinco mulheres que auxiliam na fabricação e três atendentes, nas duas lojas que o artesão montou, após mais de 25 anos de trabalho.
“Posso dizer que, além dos índios, eu sou o responsável pela fama que o artesanato acreano tem lá fora. Quando comecei a trabalhar com sementes, passei a lançar meu produto no mercado. Claro que tinha pouca aceitação, mas eu insisti na história”, lembra João.
Um produto de grande aceitação
Hoje o cliente acreano, segundo João, não tem mais preconceito de usar o artesanato. Ele aponta como um dos motivos o fato de os acessórios feitos com sementes terem virado moda.
“A aceitação por parte do público local é maior que em tempos passados. Antes muitos diziam que era coisa de índio, de seringueiro. Hoje os produtos estão mais valorizado”, diz João.
Artesanato com empreendedorismo
A maior dificuldade encontrada por João para estabelecer o seu negócio é a falta de estrutura financeira. “Sem dinheiro fica difícil pagar os funcionários, investir na oficina e ter retorno”, diz.
João saiu da informalidade do artesanato hippie para o mercado financeiro. Hoje ele é um artesão empreendedor, que gera diretamente 31 empregos e divulga o artesanato acreano em todo o Brasil.
“Pode não parecer mas, sou um dos investidores no Estado. A gente tira a matéria prima daqui, beneficia, trabalha, vende lá fora e traz o dinheiro pra cá. Isso é importante”.
Na opinião de João Natureza falta apoio para o escoamento do produto artesanal no Estado.
“Não basta oferecer cursos. É necessário ajudar a escoar a produção, levar a mercadoria para fora do Acre. Eu saio daqui com um saco de sementes nas costas e abro um comércio em outro lugar, tem artesão que não sabe fazer isso porque não tem apoio”, comenta.
Potencial de mercado diferenciado
Para o artesão e design de jóias César Farias, dono da marca Jóias da Amazônia, os produtos artesanais desenvolvidos com matérias-primas da floresta como as sementes são de grande aceitação, um potencial de mercado.
Farias participou de feiras internacionais - uma em Córdoba, na Argentina, e outra em Saragoza, Espanha -, além de eventos importantes no Brasil, como a Feira da Providência, a UD (Utilidades Domésticas) e uma das últimas, a Amazontech 2002, e diz que os produtos fazem o diferencial.
Preocupado com o desenvolvimento sustentável, César Farias acredita na importância das sementes não apenas como uma questão de mercado, mas como um instrumento que alia rentabilidade com a construção da cidadania e preservação do meio ambiente.
“Vamos citar um exemplo da semente do açaí. Tenho encomendas de toneladas de sementes furadas e polidas, para São Paulo e outras capitais do país. Essas sementes são catadas no Mercado Novo, naquele lixão que infelizmente é despejado no rio Acre. A gente vai lá pega toda essa matéria prima, que seria lixo, para transformar em jóia”, diz César.
César Farias traça um perfil do mercado artesanal no Acre salientando que houve uma mudança positiva sob o aspecto da qualidade e aceitação de mercado.
“De uns dois anos para cá, melhorou muito. O artesão não gostava nem de ser chamado por esse nome e passou a usar design, porque artesão era sinônimo de desocupado. O Sebrae e o governo do Estado tem contribuído com essa mudança, com a quebra desse preconceito. E por outro lado existe uma forte aceitação dos produtos, onde o cliente ver o trabalho como obra de arte”, define.
Com o apoio da Agência de Negócios do Acre e Sebrae-Acre, o empreendimento Jóias da Amazônia, vive um momento importante dentro do novo mercado. A marca está trabalhando para inaugurar ainda este mês, no Shopping Danielle, mais uma loja Jóias da Amazônia.
“Temos que comemorar, mesmo que o trabalho requeira um grande esforço, mas acredito que é assim que iremos conseguir construir um trabalho com a cara do Acre”, finaliza.
Agência leva arte à internet
Em homenagem ao Dia do Artesão, a Agência Sebrae de Notícias disponibiliza fotos e informações no link www.artesanatobrasil.com.br. O espaço da instituição está apresentando aos seus visitantes, desde o dia 17, fotos de uma série de peças do artesanato brasileiro com endereços e telefones para aquisição.
As fotografias que vão ilustrar o site trazem imagens do artesanato do Distrito Federal e de 12 Estados - Acre, Maranhão, Rio de Janeiro, Alagoas, Mato Grosso, Rio Grande do Norte, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Pará, Paraná, Tocantins e Espírito Santo. Em cada nova visita, o internauta verá uma peça diferente.
Panorama do artesanato no Brasil movimenta R$ 28 bi
Segundo pesquisa do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, o artesanato é um setor cuja cadeia produtiva, desde a coleta da matéria-prima até o produto final, movimenta anualmente R$ 28 bilhões, quase 2,8% do PIB, a soma das riquezas produzidas no país. Esse valor corresponde à metade do que faturam os supermercados do Brasil. Encosta também na produção atribuída à indústria automobilística.
“O artesanato conseguiu ampliar o seu mercado, hoje as pessoas valorizam mais esse tipo de trabalho”, diz Patrícia Salamoni, uma das responsáveis pelo Programa Sebrae de Artesanato.
De acordo com levantamento realizado pelo ministério, existem no país 8,5 milhões de pessoas envolvidas com a cadeia produtiva do artesanato, como forma de subsistência e contribuição cultural para a sociedade. Cada um deles recebe, em média, de dois a três salários mínimos por mês.
Nos 26 Estados e no Distrito Federal, é possível encontrar uma produção artesanal diferente, feita a partir das matérias-primas que cada região oferece e de acordo com os costumes locais. Essa diversidade é, segundo Salamoni, um grande diferencial que o artesanato oferece aos consumidores.
Artesanato vira produto de luxo
Para incentivar a produção desse setor, uma das saídas encontradas foi a exportação. No ano passado, o artesanato brasileiro participou de várias exposições internacionais, como em uma exposição montada pelo Sebrae Nacional em Milão.
A repercussão desses eventos colaborou para que os produtos brasileiros alcançassem novos mercados. Hoje, eles podem ser encontrados em lojas tradicionais dos Estados Unidos como Bloomingdale e Saks, em Nova Iorque, e também em redes de lojas francesas, italianas e portuguesas.
Segundo Salamoni, o artesanato entrou na lista de compras da ‘elite’ e está sendo utilizado para decoração de interiores de muitas pousadas e hotéis. Segundo dado fornecido pela Organização Mundial de Turismo, o potencial criador de emprego do setor é grande. Enquanto a indústria automobilística brasileira precisa de R$ 170 mil para gerar um emprego, com apenas R$ 50 garante-se matéria-prima e trabalho para um artesão.