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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 20 de março de 2003

Doente e seminu, bebê passa a noite preso na delegacia do Comando Antifurto

Criança de sete meses e a mãe dividiram o chão frio com um casal aidético depois que foram recusados pela penal

J. Guimarães
Altino Machado

O bebê J.P.C.S., de apenas 7 meses de vida, passou a noite de terça-feira no corredor da delegacia do Comando Antifurto (CAF) nos braços da mãe Núbia César dos Santos, 33, e do casal de aidéticos João José de Lima, 38, e Maria de Fátima da Silva Ramos, 47. A mãe do bebê e o casal amigo dela foram presos pela Polícia Militar acusados de roubo de relógios numa loja no centro da cidade.

Um pedaço de papelão, forrado com plástico, foi cedido pelos presos e serviu como colchão para que a criança e a mãe pudessem dormir no corredor cuja temperatura mínima chega a 18 graus durante as madrugadas chuvosas como a de quarta-feira. O bebê enfrentou esse ambiente vestido apenas com uma camiseta de algodão.

Segundo Núbia Santos, a criança sofre de tuberculose. A frieza no corredor do CAF pode ter contribuído para agravar a doença da criança, que teria enfrentado a noite com febre, tosse e vômito, de acordo com relato de presos.

“Pensei que essa criança fosse morrer aí no corredor. Ela passou a noite tossindo e desmaiou várias vezes nos braços da mãe, que tentava aquecer o filho com o calor do próprio corpo. O sofrimento de mãe e filho era tanto que decidi dormir na lajota fria e dei o meu pedaço de papelão”, contou um dos presos da cela 3, que pediu para não ser identificado.

A reportagem do Página 20 constatou ontem, às 6 horas, quando visitou a delegacia, que a criança amanheceu com muita tosse e vômito e aparentava estar com muita febre. J.P.C.S. chorava muito e Núbia tentava consolá-lo com uma chupeta surrada. A criança estava suja e fedia a vômito e fezes.

“Agüenta, meu filhinho, agüenta mais um pouquinho que você vai ficar bem”, implorava Núbia à criança, enquanto os amigos aidéticos tentavam confortá-la com gestos e palavras de carinho.

Quatro vidas unidas pelo drama

Núbia Santos, a mãe de J.P.C.S., nasceu em Boca do Acre (AM). Veio para Rio Branco ainda criança. Filha de uma família pobre, trabalhou como doméstica até o casamento.

Quando J.P.C.S. estava com quatro meses, o marido a abandonou e ela teve que se virar sozinha no mundo na tentativa de sustentar o bebê.

No primeiro mês que passou abandonada, foi despejada do quarto onde morava, no bairro da Base. Analfabeta e desempregada, Núbia passou a viver de favores até conhecer o casal aidético João José de Lima e Maria de Fátima da Silva Ramos.

Eles decidiram acolher Núbia e o filho dela num pequeno quarto onde moram, na rua Beira Rio, no bairro Cidade Nova. A partir daí, os três, sempre em companhia do bebê, passaram a pedir esmolas e a praticar pequenos furtos no comércio.

João Lima já cumpriu pena de mais de um ano de prisão, em Sena Madureira, em 1999, por ter furtado dois tubos de linha e três agulhas de tricô.

Quando isso aconteceu, João Lima era casado com outra mulher, Francisca, também aidética, com quem viveu cerca de seis anos. Ambos eram artesãos.

Francisca, que morreu no ano passado, dividiu com ele a pena por causa do furto da linha e da agulha que seriam usadas na produção de artesanato.

Quando a mulher de João Lima enfrentou a fase terminal da doença, a justiça liberou o casal. Depois que ela morreu, ele passou a mendigar pelas ruas de Rio Branco até conhecer Maria de Fátima, sua atual mulher, também aidética.

Fátima era uma mulher bonita, casada e morava no bairro Ivete Vargas. Foi contaminada com HIV pelo ex-marido, que já morreu. Esteve internada e passou a conviver com o preconceito da sociedade.

Doente e sem poder arranjar trabalho, o casal passou a viver de pequenos furtos no centro da cidade. “Sinto vergonha ao confessar para vocês que vivo de pequenos furtos. Mas as pessoas não dão trabalho para quem é soropositivo. O preconceito é insuportável. Eu e minha mulher precisamos comer, pagar aluguel e dar uma força para Núbia e a criança dela.”

Sem comida e assistência médica

A desempregada Núbia Santos, mãe de J.P.C.S., e o casal aidético João Lima e Maria Ramos foram presos em flagrante, às 12h30 de terça-feira, por uma equipe da Polícia Militar, quando tentavam vender cinco relógios de pulso roubados de uma loja no centro da cidade.

Depois de autuados em flagrante, foram conduzidos ao complexo penitenciário estadual Francisco D’Oliveira Conde. Núbia chegou ao presídio carregando o filho nos braços porque alegava não ter com quem deixá-lo.

Devido ao estado de saúde da criança e à fase avançada da doença do casal, a direção da penitenciária não os recebeu. Eles então foram conduzidos de volta à delegacia do CAF.

O diretor do presídio Marcos da Silva argumentou que não recebeu os presos aidéticos porque as enfermarias estão lotadas. A mãe e a criança foram recusadas porque no pavilhão Delta, onde deveriam permanecer, existem dois recém-nascidos. “Eles correriam risco de ser infectados pela doença da criança”, afirmou Silva.

Segundo o diretor do presídio, o bebê deveria ser internado num hospital público. “Os aidéticos estão em fase avançada da doença e também precisam de atenção médica”, sugeriu.

Quando foram devolvidos à delegacia, os policiais não souberam o que fazer com os presos. Optaram por colocá-los no corredor que dá acesso às celas, onde permaneciam até o final da tarde de ontem, sem comida e sem assistência médica.

Os presos foram alimentados ontem, às 9h30, pela reportagem do Página 20.

Delegado socorre bebê e presos

A reportagem do Página 20 procurou ontem à tarde o diretor-geral de polícia, Walter Prado, para saber quais providências seriam tomadas em relação ao caso.

Prado disse ter conhecimento da prisão, mas desconhecia que eles foram recusados pela direção do presídio, que passavam fome e que a criança necessitava de assistência médica.

O diretor pediu que a reportagem aguardasse uma solução. No final da tarde, Prado anunciou que a criança fora internada no Hospital Infantil para receber atendimento médico. Os presos não passaram fome. O próprio delegado comprou comida para eles no almoço.

O casal e a mãe do bebê permanecem presos. Mas o delegado Ary Régis comunicou ontem ao juiz Clóvis Augusto sobre a situação de saúde do casal e da criança, que, segundo a mãe, não tem parentes com quem possa ser deixada.

No final da edição, às 19h15, o delegado Walter Prado telefonou para a reportagem do Página 20 para avisar que seis marmitas haviam sido compradas para alimentar os presos. “No Acre hoje ninguém é mantido preso ilegalmente”, disse.

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