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Rio Branco - Acre, quinta-feira, 20 de março de 2003
Fofocar ou pôr em dia os assuntos?

Raimundo Ferreira de Souza *

Atravessando séculos, a fofoca vem quebrando barreiras, desmontando e montando esquemas, denunciando e criando escândalos e, finalmente, infernizando a vida de muita gente de poder e fama. Alguns teóricos da “fofocologia” já afirmaram que a fofoca, futrica, babado, mexerico etc. faz parte da natureza humana. Embora muitos batam o pé e digam que não gostam, no íntimo mesmo todos arregalam os olhos e abrem bem os ouvidos quando percebem que há um cheiro de fuxico no ar.

Para alguns seres humanos, os chamados “línguas de trapo”, a fofoca é algo incontrolável. Na prática, ela funciona como mero comentário, que pode ser visto como um mórbido prazer de relatar o que está acontecendo na vida do outro (claro, e de quem mais?). Em certas tribos africanas, onde os meios de comunicação inexistem, a fofoca é considerada praticamente um serviço de utilidade pública, ou seja, a informação boca-a-boca é o meio disponível para circulação das informações de qualquer natureza.

Mas, deixando a hipocrisia de lado, no fundo, quem não se interessa em saber, nem que seja por curiosidade, sobre um forte babado, especialmente se for algo de deslize de alguém que apresenta um falso moralismo?

Agora, aqui entre nós e a torcida do Flamengo, dizem (dizem, vejam bem!) que as mulheres são mais fofoqueiras que os homens, especialmente se o assunto se tratar de outra mulher. Particularmente não tenho dados comprobatórios, mas, não querendo correr risco junto às damas, o que posso afirmar é que elas falam muito mais que os homens e nesse particular paira a dúvida: será que, nos encontros sociais, seus repertórios versam somente sobre beleza, figurinos, decorações, culinária, namorados, maridos perfeitos ou será que, de fato, a maioria das prosas gira em torno das futricas?

O maior problema da fofoca é que ela se camufla muito rapidamente, quer dizer, muda de conteúdo à medida que vai sendo repassada de agente para agente. Partindo desse princípio, mesmo na forma de uma boa mentira, ela nunca é confiável.

Existe uma técnica de grupo, denominada cochicho - bastante utilizada inclusive na área da educação -, que consiste no relato de uma pequena história de indivíduo para indivíduo, sem que o próximo saiba o que foi contado. Essa técnica retrata exatamente como as conversas se distorcem na interpretação e passagem de uma par de orelhas para outro. A fofoca configura-se como o mais autêntico exemplo prático das variadas versões que um mesmo fato possa sofrer.

Para ilustrar, vamos a uma futrica histórica. Descrevem os compêndios mexeriqueiros que a estada, por quase dez anos (1652 a 1661), do padre Vieira no Estado do Maranhão, pela Companhia de Jesus, foi uma espécie de exílio motivado por causa de uma briga que ele tivera com a Corte Portuguesa. Essa situação causou grande indignação e o religioso tentou se vingar pregando mentira para os fiéis. Só que, além intelectual, ele era um exímio orador e procurava encaixar as mentiras na pregação em forma de parábolas.

Uma dessas lendárias mentiras contadas em sermões para os fiéis relata que o Diabo tinha saído do inferno e explodido por sobre a Europa, partindo-se em vários pedaços que se espalharam por todos os lados. A cabeça, com chifre e tudo, caiu na Espanha (daí a preferência dos espanhóis por miolos quentes), os pés caprinos foram parar na França (o que justificaria a habilidade e o gosto dos franceses pela dança), enquanto o ventre satânico foi parar na Alemanha (o que explica a gula desse povo comendo chucrutes, porcos cozidos e assados).

“E a língua do demo”, indaga o pároco aos fiéis, “onde foi parar?”. Ninguém soube responder. Ele próprio explica: “Certamente em Portugal”. E com tantas palavras ruins que carregava, impregnou naquele povo o mau-hábito do falatório, alarido, intriga e fuxico.

* rafeso@zipmail.com.br

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