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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 21 de março de 2003

Óleo e guerra

O cenário de uma guerra curta pareceu improvável ontem cedo, após o fiasco do primeiro ataque, e o petróleo subiu. De tarde, um maciço ataque a Bagdá aumentou a probabilidade desse cenário e o petróleo voltou a cair. Os indicadores continuarão voláteis por enquanto, ao sabor das informações sobre duração e extensão do conflito. O Brasil está melhor do que jamais esteve em outras crises no Oriente Médio.

Guerra é uma drástica ruptura com a normalidade. Por isso, é muito difícil fazer apostas firmes sobre o que acontecerá. O imprevisto ocorre exatamente por ser um acontecimento limite, extremo. O melhor é ver os dados da realidade, mais do que as projeções. A boa notícia é que o petróleo já caiu 25% em oito dias.

— Estou aqui desde 80, já vi vários conflitos e o Brasil nunca esteve em posição mais confortável do ponto de vista do suprimento. Nunca foi tão pouco dependente do petróleo do Oriente Médio — diz o gerente-geral de comércio exterior da Petrobras, Edgar Manta.

A Petrobras divulgou ontem uma nota nesta linha mostrando o avanço extraordinário ocorrido no Brasil neste período, o qual nos faz acompanhar os acontecimentos com uma inédita sensação de conforto em relação ao suprimento.

— Nós estamos às vésperas de uma grande virada no suprimento de petróleo: a auto-suficiência vai acontecer em dois ou três anos. Quando se comparam os dados de hoje com os da última Guerra do golfo, fica claro que o Brasil desenvolveu nesta década uma poderosa indústria petrolífera — comemora o diretor da Petrobras Rogério Manso.

De fato. Em 1990, o Brasil importava, por dia, 494 mil barris do Golfo Pérsico e 77 mil barris de outros países. Do que importava, 86,5% vinham da área conflituosa, e 13,5% de outras regiões. No ano passado, o Brasil importou 93 mil barris/dia do Golfo e 245 mil barris de fora do Golfo. Só 27,5% vieram da área do conflito.

O Brasil ainda importa do Iraque. Algo como 30 mil barris/dia. Mas não importa diretamente, e sim através de empresas que fazem a intermediação com o país de Saddam Hussein. Paramos de comprar diretamente há quatro anos, quando a estatal de petróleo passou a exigir uma sobretaxa por fora para fornecer o produto, informa a Petrobras.

Todo mundo importa do Iraque, inclusive os Estados Unidos. Sempre desta forma. Através de empresas intermediárias, ou através do programa Oil for Food, das Nações Unidas, em que os dólares sequer vão para o governo iraquiano. Vão diretamente para uma conta da ONU que se transforma em compra de alimentos e remédios para a população iraquiana.

Para se ter uma idéia da ironia, uma análise da Agência Internacional de Energia diz que os EUA importaram 449 mil barris/dia do Iraque nos onze primeiros meses do ano passado. Em dezembro, o Iraque forneceu 910 mil barris “às Américas”, diz o relatório, sem especificar quanto foi para os Estados Unidos. Em janeiro, o suprimento foi para 1,2 milhão/dia. “Em alguma medida, o aumento do petróleo iraquiano exportado para as Américas ajudou a cobrir as perdas com a greve de petróleo e com a instabilidade da Venezuela”. Ou seja, os Estados Unidos aumentaram o consumo de petróleo iraquiano para se cobrir durante a crise da Venezuela enquanto preparavam o ataque ao Iraque.

O mundo teve tempo desta vez. Edgar Manta lembra que, na Guerra do Golfo, em 1991, os acontecimentos se precipitaram após a invasão do Kuwait, mas esta guerra vem sendo anunciada há seis meses e, por isso, os países consumidores puderam fazer estoques.

— As reservas estratégicas dos Estados Unidos estão em 600 milhões de barris e a reserva da IEA, a Agência de Energia Internacional, cobre o consumo dos 25 países membros por 120 dias — diz o gerente de comércio internacional da Petrobras.

O mundo estaria preparado para ficar sem o petróleo do Iraque, que tem oscilado entre 2 milhões e 2,5 milhões de barris/dia, mas não está preparado para perder também os 2 milhões de barris/dia produzidos pelo Kuwait, na opinião de um funcionário da Petrobras.

As próximas horas e dias serão de tenso acompanhamento dos acontecimentos na região mais explosiva do planeta. Há uma chance de hoje ser um dia mais tranqüilo. Afinal, lembra um diplomata brasileiro, na Guerra do Golfo, os EUA não atacavam às sextas-feiras, dia santo dos muçulmanos.


ATÉ ÀS 5 DA TARDE de ontem, a Missão do Brasil na ONU já tinha recebido 5.662 mensagens contra a guerra.

paneco@oglobo.com.br
Miriam Leitão com Débora Thomé
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