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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 21 de março de 2003
Ronald Polanco e Juarez Leitão

Deputados defendem economia voltada para a valorização dos produtos florestais

Leonildo Rosas

Durante dois mandatos seguidos, o deputado Ronald Polanco (PT) ficou praticamente sozinho dentro da Assembléia Legislativa discutindo os temas voltados para o meio ambiente, basicamente defendendo projetos voltados para a economia florestal.

O isolamento de Polanco começou a ter fim nas eleições de 2002, quando o ex-seringueiro Juarez Leitão se candidatou e ficou na primeira-suplência do Partido dos Trabalhadores.

Com a ida do titular Raimundo Angelim para compor a equipe de secretários do governador Jorge Viana, Juarez Leitão assumiu o mandato de deputado estadual.

Juntos, Polanco e Juarez pretendem compor a bancada dos povos da floresta defendendo projetos que realmente levem na prática o conceito de florestania para as populações tradicionais do Acre.

Hoje, Dia Internacional da Floresta, os parlamentares avaliam os avanços obtidos nos últimos anos e o que pretendem desenvolver nesta legislatura.

Os senhores têm os seus mandatos voltados para os povos da floresta. Como você acham que podem contribuir ainda mais no segundo mandato do governador Jorge Viana?

Polanco – O nosso é o primeiro governo na Amazônia a levantar a bandeira de um modelo de desenvolvimento baseado na floresta. Isso está ajudando a mudar a filosofia de outros governos. Inclusive, o governo do Amazonas acabou de lançar o programa Zona Franca Verde. O governo federal está com vários programas voltados para reconhecer as peculiaridades da região. O próprio presidente Lula está vindo fazer encontro na Amazônia para levantar a questão do desenvolvimento local integrado. Por isso, no mundo globalizado, temos que fortalecer a integração da nossa região com o resto do país e o mundo. Podemos montar uma indústria florestal pautada em recursos naturais renováveis. Esse é o grande mote para melhorar as condições de vida do nosso povo.

Juarez – Eu saí da floresta com 20 anos de idade. Então, sou uma testemunha do que se pode viver na floresta. O ciclo da borracha foi o responsável pela formação do Acre. Pela sua origem, o nosso Estado tem uma vocação florestal. Foi na borracha, agora é com a madeira e com a biodiversidade. Defendemos o aproveitamento das nossas riquezas porque tem muita gente ganhando dinheiro com produtos levados da nossa floresta. Quando falamos de desenvolvimento sustentável, não estamos nos referindo apenas à questão econômica. É preciso ter políticas públicas, na área de saúde e educação. A verdadeira valorização dos povos da floresta está ligada aos fatores econômico, social e cultural.

Vocês acreditam que nos primeiros quatro anos de governo Jorge Viana as condições dos povos da floresta melhoraram?

Juarez – Não só acredito, como tenho certeza. Não podemos negar, no entanto, que ainda somos muito discriminados. Felizmente, depois da implantação da Lei Chico Mendes, que é uma proposta do deputado Polanco, muita coisa mudou para melhor. É claro que precisamos melhorar muito mais. Tempos dificuldade de assistência técnica e de acesso às tecnologias modernas. Muita gente fez pesquisa na Amazônia, inclusive universidades brasileiras e do exterior, sem aplicar em benefício das populações tradicionais. Mas não podemos negar que a coragem do governo de se colocar como o Governo da Floresta ajudou a mudar as coisas. Acredito que até a minha vinda para o Parlamento é porque a vida melhorou.

O senhor, deputado Polanco, disse que vai pautar seu mandato em prol do desenvolvimento florestal, inclusive criando uma escola de mateiro. O que seria essa escola de mateiro?

Polanco – Se o governo fez uma opção de ter um modelo de economia pautado na base florestal, devemos aproveitar o que temos de mais concreto no Estado, que é o saber tradicional dos indígenas, ribeirinhos e seringueiros. Temos que encontrar uma forma de organizar esse conhecimento. Hoje, as universidades florestais, os cursos de mestrado, doutorado e os especialistas da área precisam do saber tradicional, mas não têm um ponto de referência para encontrá-lo. Por isso tivemos a idéia de montar essa escola. Nós também estamos discutindo como vamos criar os subsídios para a sua implantação. Além da escola, tenho defendido que o Imposto sobre Valor Agregado (IVA) não seja cobrado sobre produtos de origem sustentável, a fim de eles competirem de igual para igual no mercado. Aprovamos a lei de criação do fundo de ciência e tecnologia e estamos discutindo a criação de arranjos produtivos voltados exclusivamente para a exploração florestal. Enfim, é preciso investimos para microempresários com créditos apropriados, infra-estrutura para escoar a produção, apoio tecnológico e assistência técnica.

Muito se falou em conceito de florestania nos últimos anos. Vocês acreditam que a população, principalmente a tradicional, sabe o que a palavra significa?

Juarez – Ela pode não saber no conceito. Mas a florestania para ela nada mais do é do que a melhoria das condições de suas vidas. Se você perguntar o que o seringueiro, o ribeirinho ou o índio querem, eles vão dizer que querem escola para colocar seus filhos, condições para escoar a produção e agregação de valor aos seus produtos. Florestania é isso.

Polanco – Hoje, o movimento mais organizado na sociedade é o rural porque eles sabem e têm noção do que querem. Tem um ditado popular que diz ‘nós vai e sabe para onde vai. Tem gente que diz nós vamos e não pra onde vai’. Então, florestania é a junção de ter o povo da floresta sendo atendido com os bens materiais da sociedade moderna com a cidadania de ter direito a votar, educação, saúde e tudo o que as pessoas que moram nas cidades têm. O movimento social se organizou em torno de uma bandeira que o governo chamou de florestania.

O senhor, deputado Polanco, que está no terceiro mandato, acha que contribuiu em quê para fortalecer os movimentos populares?

Polanco – Um dos grandes avanços foi a discussão para implantar as indústrias da castanha, da borracha e moveleira no Estado. Muitas vezes fomos criticados por acreditar que uma cooperativa de seringueiros pudesse gerenciar uma fábrica de borracha. Hoje tem a de Sena Madureira, em parceria com o setor privado. Atualmente, existe maturidade para conduzirmos o processo produtivo. Tenho discutido com a bancada federal a proposta de criação de uma política tributária específica para o extrativismo. O Prodex foi uma iniciativa do meu gabinete. Antes, não existia nenhum crédito para os extrativistas. Não resta dúvida que conseguimos muitos avanços. É tanto que o meu slogan da campanha foi ‘A floresta nos sustenta’. Ele pegou bem, não havendo rejeição nem entre os setores tidos como conservadores.

Mas o Acre continua exportando apenas matéria-prima, a industrialização ainda não existe...

Polanco – Está certo. As carretas vêm do Sul do país e voltam até Cuiabá vazias porque não temos produção suficiente para que elas venham e voltem carregadas. Temos que encontrar mecanismos para industrializar nossos produtos para que a troca com o resto do país não seja tão desigual. Eles nos mandam produtos industrializados, nós temos que mandar também produtos industrializados com as riquezas da floresta, para que os povos dessa floresta ganhem com o resultado da industrialização.

Esse conceito de florestania que se vê hoje teve início há muitos anos com Wilson Pinheiro, Chico Mendes e muito outros. Vocês acham que eles estão bem representados hoje?

Juarez – Falar sobre esses companheiros emociona. Mas eu não sei se o Chico Mendes fosse vivo se o processo teria avançado tanto. Pessoas como ele são insubstituíveis. Mas temos tentando representar tudo o que foi iniciado por ele. O Chico Mendes discutia a criação de reserva extrativista, da sustentabilidade e do uso da floresta com sabedoria, coisas que estão sendo vistas na prática.

Polanco – Até hoje, tudo o que vou fazer tem sido discutido em Xapuri com o movimento. A mesma coisa faço em Brasiléia. A lógica que o Chico nos deixou de dividir com todos as decisões, eu continuo aplicando. Jamais alguém substituirá o Chico. Ele ficou para a história porque teve a ousadia de falar para o Brasil e o mundo que a ecologia tinha que entrar nos modelos de desenvolvimento. Ele foi lá na ONU e fez isso. Chico teve a capacidade de reunir os excluídos em torno de um ideal. Ele teve a capacidade de chamar a Marina, o Binho, eu e tanto outros que estávamos na universidade para encampar essa luta. Temos que continuar essa luta, fazendo alianças amplas para criar um modelo de desenvolvimento onde todos ganhem.

Até que ponto a nomeação da senadora Marina Silva como ministra do Meio Ambiente pode contribuir para a ampliação do debate?

Juarez – Tive a oportunidade de acompanhar, de perto, cinco anos da Marina no Senado. Ela lá, eu no Conselho Nacional dos Seringueiros. Fizemos muitas coisas juntos. Ela chega no Ministério tanto com poder político quanto com conhecimento de causa para que possamos avançar. Nosso grande problema é que o Brasil está quebrado. Isso nos deixa triste porque as vezes existe a vontade de fazer, mas não há condições apropriadas para a concretização dos planos. Mas se forem utilizados os mecanismos que já criamos ao longo dos anos, a Marina vai fazer um grande trabalho.

Polanco – A Marina é uma representante que está dando respeitabilidade ao setor ambiental no interior do governo. Todos os setores da sociedade reconheceram que foi uma grande indicação o seu nome para o ministério. O nosso ganho é que temos a oportunidade de colocarmos nossos produtos no mercado do Sul do país. Lamentamos que essa oportunidade ainda não tenha sido enxergada por todos os governo da Amazônia. A nomeação da Marina é a demarcação de um campo em nível nacional e internacional, onde as questões ambientais e ecológicas passarão a ser componentes do desenvolvimento que se pode implementar daqui pra frente. Ela é uma personalidade que representa muito para nós e para o mundo.

Até bem pouco tempo, chamar alguém de seringueiro no Estado era tido como algo pejorativo. Hoje, os seringueiros têm orgulho do que são?

Juarez – Eu tenho. Não vou dizer que isso é algo generalizado. Se comparado com o tratamento dado no passado, quando os sulistas chegaram aqui, devastaram a floresta para plantar boi e expulsaram os seringueiros da floresta para a periferia das cidades, quem não se orgulha com os avanços obtidos nos atual governo deveria ser orgulhar.

Polanco – Somos um povo da floresta. Lembro que nasci dentro de um seringal dentro da Bolívia. Quando chegamos em Brasiléia, além de ter vindo de outro país e do mato, sofremos muito, apesar de o meu pai ser brasileiro. Existia uma rejeição muito grande à gente. Ainda hoje a sociedade é muita conservadora e não reconhece o saber tradicional dos povos da floresta. Mas, se essa sociedade quer ser moderna, deve aproveitar esse saber. Devemos ser cosmopolitas e equilibrados.

Deputados, no início da década de 70 até o final da de 80 ocorreram muitos conflitos entre seringueiros e fazendeiros. Hoje não se vê mais isso. O que mudou, os extrativistas ou os fazendeiros?

Polanco – O que mudou no Acre foi a política. Houve um avanço político muito grande a partir do momento que companheiros como Jorge Viana, Marina Silva, Carioca e Antônio Alves peitaram a candidatura de Rubem Branquinho em 1990. Ali esse projeto em curso começou a ser conhecido no Acre. Nós começamos a mostrar que é possível haver uma convivência pacífica de todos os setores. Que é importante tanto a exploração da pecuária, da agricultura, do extrativismo, do comércio e da existência de uma indústria florestal uma dinâmica à economia capaz de gerar empregos, fixar o homem no campo e não gere problemas para a cidade.

Juarez – Os dois mudaram. No princípio, nós não éramos bem compreendidos. A razão por que mataram o Chico era exatamente porque ele lutava por isso que a gente está implantando hoje: pelo seringueiro ter direito à sua colocação, depois de morar no local vários anos. O movimento social nunca quis tomar nada de ninguém. Nós só queríamos o reconhecimento dos nossos direitos. Acontece que houve um determinado período da nossa história que o Estado ficou a serviço dos fazendeiros. Quando entrei no movimento eu achava que os empresários eram nosso inimigos. Hoje acredito que podemos caminhar juntos.

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