© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, sexta-feira, 21 de março de 2003

Erros recorrentes

O tratado sobre a repetição dos erros políticos nunca foi escrito e, se o tivesse sido, teria pouca valia. Parece haver na vida pública brasileira uma atração fatal pela repetição de atitudes de conseqüências conhecidas. Por conta dela o senador ACM enfrenta novamente o Conselho de Ética e o governo Lula apanhou muito ontem no Congresso por causa de uma cachorrinha.

Um governo que ainda está na primeira infância deve prestar atenção aos comportamentos compulsivos que costumam corroer lenta e progressivamente sua própria mística. O país não ficará mais pobre nem mais rico por conta dos três litros de gasolina gastos com o transporte da cadela Michele numa Kombi oficial entre o Palácio da Alvorada e a Granja do Torto. O Código de Conduta do servidor não foi ferido, atestou o presidente do comitê, Piquet Carneiro. Mas o dano simbólico do episódio já ocorreu, para desgosto de um presidente preocupado em ser e parecer austero no uso das coisas públicas. Além do amor do ministro Magri pelos cachorros, no governo Collor, tivemos o carinho extremado do presidente Figueiredo por seus cavalos, cujo cheiro confessou preferir ao do povo. Para eles, mandou construir baias com dinheiro público na Granja do Torto. Na história dos presidentes, o uso de recursos públicos para a satisfação de caprichos pessoais sempre teve custo, e no entanto continuam acontecendo.

O PT, que sempre fez bom uso do estilingue ético, estava constrangido ontem. Com razão. Deve aproveitar o momento para refletir sobre outras atitudes a que deve tentar resistir. Duas delas, de que os ministros estão sendo muito acusados, a arrogância e a auto-suficiência. Um senador nordestino queixava-se ontem que o líder Aloizio Mercadante "depositou na poupança o costume de dar bom dia e boa tarde". Está sempre sem tempo mas ainda é muito mais acessível que os ministros. O ministro José Dirceu, por obrigação de ofício, adotou agora o costume de descer do olimpo para ouvir pedidos de parlamentares na liderança do governo no Congresso. Fez isso pela segunda vez ontem. Mas fora da sessão de petições, queixam-se os deputados, é mais fácil falar com o Papa do que com ele.

O ministro Cristovam já levou reprimenda do próprio presidente por outro costume antigo, o de querer faturar sozinho iniciativas do governo, como no caso do aumento da verba da merenda escolar. Já fez autocrítica, releve-se.

A chegada ao poder não dispensa a boa educação, pelo contrário. Mas até figuras de segundo escalão do governo mandam avisar pela secretária que devolverão a ligação depois e isso fica para as calendas. Inclusive quando quem chama é um parlamentar.

Tancredo Neves ensinava que um político não deve ter medo da conta telefônica (embora não deva falar coisas importantes ao telefone), de apertar mãos e de andar de avião. Entra governo e sai governo, as autoridades só não temem o avião, principalmente se for da FAB.

É também de Tancredo a afirmação de que não se deve nomear quem não se pode demitir. Lula já transgrediu esta regra ao nomear seu amigo e conselheiro Frei Betto. Se um dia tiver que demiti-lo, perderá a amizade. Há mais indemissíveis no governo. E outros estão chegando.

A lista de erros já cometidos seria longa, mas pelo visto recordá-los seria prestar um serviço em vão.

"Nossa guerra é contra a fome". Com este slogan, que é também uma estocada em Bush, o governo põe no ar, sábado, a campanha publicitária do mutirão contra a fome.

O rei e os súditos

Depois que o bombardeio cessar e o silêncio dos mortos e da destruição pairar sobre o Iraque, a Europa também não será mais a mesma. A Inglaterra de Blair e a Espanha de José Maria Aznar terão que se sentar à mesa com seus pares da Comissão da União Européia, cujos principais membros ficaram contra a guerra. Também na Espanha milhares foram às ruas protestar contra o bombardeio e o apoio de Aznar.

Em entrevista ao jornal “El País” de ontem, o escritor mexicano Carlos Fuentes afirma que a união entre Bush, Blair e Aznar "não é uma aliança entre pares, mas entre o rei e dois cortesãos", que serão descartados como sapato velho depois que os EUA atingirem seus objetivos.

Com os Estados Unidos, diz Fuentes, deve se falar de pé, com dignidade, olhando nos olhos, "porque o desprezo costuma ser o pagamento dos impérios aos submissos".

Por esta lógica, Alemanha e França podem sair fortalecidas na Europa dos pós-guerra. E países emergentes que também não ficaram omissos, dizem funcionários do Planalto, descartando retaliações comerciais americanas por conta da fala de Lula.

O CAMINHÃO que a Mercedes-Benz doou ao programa Fome Zero está no pátio da montadora mas não por falta de providências. Aguarda a carroceria que será dada pela Ford. O veículo será transferido para a Prefeitura de Santo André, onde ficará a serviço do primeiro banco de alimentos do país, esclarece a coordenação do Fome Zero. Menos mal.

LULA planeja lançar logo o programa Primeiro Emprego, tema sobre o qual existem 22 proposições tramitando na Câmara. Para examiná-las o presidente da Casa, João Paulo, criou comissão especial que tem como relator o deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ). Segundo o IBGE, o desemprego campeia na faixa etária entre 18 e 24 anos. Nela é de 17% contra 8,7% na média nacional.

Tereza Cruvinel


cruvinel@bsb.oglobo.com.br
Amazônia
Colunas
Cotidiano
Expediente
Entrevista
Editorial
Estilo
Especial
Esporte
Política
Principal