
A nossa e a deles
O Brasil perdeu US$ 30 bilhões no ano passado. Foram as saídas de capitais e a não-renovação de empréstimos internacionais que tiveram que ser quitados. Este foi o tamanho do bombardeio que a economia brasileira enfrentou com o ataque de desconfiança da transição política. Atualmente o país está se recuperando das perdas e é atingido por estilhaços de outra guerra.
Nenhuma guerra é bem vinda. A dos Estados Unidos contra o Iraque tem ainda o inconveniente de chegar para nós quando o país está no meio de um pesado esforço de recuperação do enfraquecimento sofrido no ano passado. Durante meses, bancos, agências de risco, credores e investidores estrangeiros e até nacionais atingiram as reservas, a moeda, a dívida pública do Brasil com o medo, e as especulações, de que o novo governo daria um calote.
A inflação que estava em 7% ao ano foi para 14%, o risco país que estava em 700 pontos foi para 2.400, a dívida pública foi encurtada drasticamente e teve dificuldades de rolagem e o país perdeu, segundo cálculos do Banco Central, US$ 30 bilhões em saídas e não renovação de empréstimos para empresas brasileiras e perda de investimento direto. Isto foi coberto com venda de reservas -- o BC vendeu US$ 9 bilhões -- e com o enorme esforço da balança comercial que chegou a quase US$ 15 bilhões num ano em que o Brasil perdeu seu segundo maior parceiro comercial. Além disso, encolheu-se a conta de serviços com redução drástica de viagens internacionais.
A gente perde às vezes a noção da dimensão das batalhas, quando está no meio delas, mas o que o Brasil fez foi extraordinário: contra o violento descrédito e pesadas apostas de que faria o default da sua divida, o país preservou a moeda, pagou a dívida, administrou a rolagem da dívida interna e está vencendo as desconfianças. Tudo isto feito no meio de uma transição política em que o grupo que era oposição foi para o poder, e teve que rever propostas e convicções.
Hoje a inflação não está mais sob o risco de fugir ao controle, a dívida interna volta a ser alongada, o risco Brasil caiu à metade e dias atrás o Banco do Brasil captou recursos por sete anos no mercado americano. O fluxo de recursos externos ainda não se normalizou. Só voltaram os investimentos de curto prazo, que se aproveitam do diferencial de juros. Ainda é insuficiente o dinheiro de longo prazo, e as dívidas não são roladas integralmente. Mas o país caminha para isto.
A nossa guerra estamos vencendo, e aí é
que entra a guerra deles atrapalhando. A custa do próprio esforço,
o Brasil está conseguindo dissipar a nuvem de desconfiança que
nos encobriu. Mas a guerra cria outra nuvem de incerteza que paralisa negócios,
interrompe fluxo, diminui o comércio e reduz o crescimento mundial.
Tudo isto nos prejudica. O que o Brasil precisa para se recuperar integralmente
do golpe do ano passado é fluxo de capitais e comércio. Exatamente
aí a guerra de Bush atua desfavoravelmente.
Quanto mais cai o risco, mais fácil fica a rolagem da dívida
das empresas, menos o Brasil remete ao exterior e mais rapidamente se dá
a recomposição da confiança na economia brasileira. Nos
últimos dias os investidores começaram a se dar conta de que
o Brasil está numa situação muito melhor do que a Turquia.
O risco deles tem subido e o nosso tem caído. Mas os analistas admitem
que o ritmo de melhora do Brasil poderia ser bem mais rápido se não
fosse a crise internacional criada pela expectativa da guerra nos últimos
meses e pelo conflito iniciado nos últimos dias. Ambientes fluídos
como este produzem paralisia de decisões de investimento que nos colhe
no nosso bom momento. No ano passado o Brasil descolou do resto dos emergentes
para pior, este ano descolou para melhor e a guerra nos colhe neste movimento
de recuperação.
O preço do petróleo que disparou no mercado internacional desde que o presidente americano começou a anunciar a guerra também nos atingiu num nervo exposto:a inflação. Ainda que o governo tenha optado por elevar apenas os preços menos visíveis, adiando alta de gasolina e diesel, subiram de preço querosene de aviação, óleo combustível, nafta que elevou custos industriais e portanto bateu na inflação. E era justamente a inflação um front perigoso desta guerra travada pelo Brasil para voltar à normalidade.
O petróleo despencou nos últimos dias no mercado internacional, mas continua volátil e nem voltou ainda ao que era antes. Se a guerra for mais longa do que o previsto nos sempre imprecisos cenários do Pentágono, o petróleo volta a subir.
Mas há uma grande chance de a guerra ser curta, o petróleo se estabilizar, a economia mundial ser pouco atingida e o Brasil retomar o caminho da recuperação.
A trajetória terá sido apenas brevemente interrompida, mas há grande chance de queda mais forte do risco, estabilização do dólar, redução da inflação. Para melhorar ainda mais, a batalha será interna, pelas reformas que fortaleçam a economia e removam velhos estrangulamentos.
Se for isto, para o Brasil a guerra do Iraque terá sido apenas um breve episódio.
Os verdadeiros estragos serão mais sérios, mais amplos mais demorados. Atingem instituições internacionais e princípios. Mas esta é outra conversa, que escapa à economia.
Ou nào. Afinal, o aumento da instabilidade do mundo provocado pela truculência da primeira potência vai provocar outros conflitos. O Iraque não basta. A cruzada de George Bush contra o que ele chamou há tempos de "eixo do mal" parece estar só no começo e terá outras vítimas.