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Rio Branco - Acre, sábado, 22 de março de 2003

Doces negócios

Desempregado investiu na venda de brigadeiros e hoje chega a comercializar 800 docinhos por dia

Tatiana Campos

Brigadeiros brancos, pretos, de goiabada, casadinhos. Quem nunca viu Dionísio Felisberto do Jesus, “o homem do brigadeiro”, como é chamado, vendendo docinhos nas portas das escolas, nas praças, nas ruas? Essa foi a alternativa encontrada por ele para sustentar a família em 1996, quando perdeu o emprego numa panificadora.

Ele conta que na época tinha obrigação de sustentar seis pessoas, pagar aluguel, água e luz. Tentou vender salgadinhos, mas diz que a experiência não deu muito certo. Resolveu vender brigadeiros na rua e a criatividade foi essencial: pegou um prato descartável, colocou por baixo uma placa de compensado e apoiou na palma da mão. Essa foi a primeira “vitrine” de Dionísio.

O negócio se tornou lucrativo e, percebendo que poderiam ganhar mais, duas pessoas que ajudavam Dionísio resolveram trabalhar por conta própria, tornando-se concorrentes. O pequeno empreendedor continuou trabalhando e hoje faz em média 400 docinhos por dia, a 25 centavos a unidade.

“Essa época não é boa, passou o fim de ano, veio o início das aulas e os gastos com o material escolar, o carnaval. Até o final de abril é assim, depois melhora um pouco. No auge das vendas chego a vender 800 doces por dia”, explica Dionísio.

A tecnologia também chegou para o vendedor de brigadeiros. Ele aperfeiçoou a “vitrine”: primeiro confeccionou uma em madeira coberta com plástico, depois com vidro, e hoje seu instrumento de trabalho é elaborado em alumínio e vidro.

“Foi eu que desenhei e tive a idéia de todo esse trabalho. Algumas pessoas me copiaram e ainda fazem concorrência no mesmo ponto de vendas”, conta.

Rotina puxada

O trabalho começa cedo e termina tarde para Dionísio. Antes do dia amanhecer ele está enrolando os docinhos. Por volta de 7 horas ele sai para a peregrinação diária, onde sua clientela é garantida: Colégio Estadual Barão do Rio Branco, Instituto São José, Colégio Dom Pedro, Ufac, e, nos finais de semana, o bar Top 15. Mas não é difícil encontrá-lo pelas ruas. Dionísio conta que onde houver “um agito”, como manifestações ou passeatas, ele está lá.

Dionisío conta que volta para casa no fim da tarde, após um dia inteiro de trabalho na rua, na tentativa de vender seus doces. Mas, engana-se quem pensa que é hora de descanso.

“Eu preparo as massas à noite, as brancas, as pretas, todas elas, deixo descansando e na manhã seguinte eu enrolo. O meu filho de oito anos, que é a única pessoa que depende de mim agora ajuda abrindo as forminhas”.

Dores na coluna

Passar o dia inteiro carregando cerca de 25 quilos não é tarefa das mais fáceis e nesse esforço quem sai prejudicada é a coluna vertebral. O doceiro começoua a ter problemas com a saúde. Mas ele diz que começou a ser resolvido quando conheceu um amigo mineiro, que decidiu ajuda-lo e desenhou o colete que Dionísio usa hoje, apoiando o peso do mostruário nos ombros.

“Melhorou muito porque antes eu usava uma cinta de naylon no pescoço apoiada com uma amolfadinha, o colete aliviou as dores que eu sentia. Mas o meu problema agora é outro, trabalho porque preciso e sou teimoso, preciso sobreviver e não tenho outro meio”, relata.

O novo problema a qual Dionísio se refere o impede de correr, de passar muito tempo em pé e caminhar longas distâncias. Ou seja, seu trabalho, que é andar vendendo brigadeiros, está comprometido.

“Eu fui pescar num igarapé no Quixadá, pisei numa arraia e fui ferrado. Passei por uma cirurgia e perdi os nervos e tendões do pé, não sinto mais firmeza e não posso me apoiar nele. Procuro sentar sempre que consigo para descansar o corpo”, explica o vendedor.

Metas para o futuro

Sem opções de trabalho e com as saúde um tanto quanto debilitada, Dionísio diz que já tentou recorrer a outros meios de sobreviver. Fez um curso de panificação e confeitaria no Senac e guarda na memória tudo o que aprendeu durante os anos que trabalhou numa panificadora.

“Já tentei fornecer meus produtos para cantinas de escolas, lanchonetes, mas é difícil alguém aceitar, eles preferem fazer a comprar feito. Minha idéia é montar um ponto fixo, mas não tenho condições, se conseguisse iria trabalhar com salgados também”, comenta o doceiro.

Há dois anos Dionísio começou a receber encomendas para festas (ele vende a 25 reais o cento do brigadeiro) e conta que essa é uma forma de ganhar dinheiro sem maltratar a saúde.

“Eu gostaria de me aposentar, mas sei que isso vai ser difícil porque não pago INSS. Não sei qual a outra forma que eu posso ser amparado. Gostaria que alguém me ajudasse, me orientasse. Não posso parar de trabalhar se não tiver uma renda”, disse.

BRIGADEIRO

2 latas de leite condensado;
1 colher(sopa) de manteiga;
2 colheres(sopa)rasas de chocolate em pó.

    Coloca-se tudo em uma panela e leva-se ao fogo até soltar bem do fundo da panela. Retira-se e coloca-se num prato untado de manteiga para esfriar um pouco.
    Quando estiver morna a massa, untar as mãos com manteiga e fazer as bolinhas. Passam-se em confeitos bem pequeninos ou chocolate granulado. Colocam-se em forminhas de papel.

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