
José Cláudio Mota Porfiro *
Aí pela década de 1940, em Lisboa, Portugal, segundo me narrou um amigo português residente em Campinas, São Paulo, de nome João Antunes, havia um crítico dos costumes lisboetas chamado Atílio Soares... Como pegava pesado o gajo!...
De uma hora para outra, então, o cronista ban-ban resolveu fazer abordagens diárias acerca dos hábitos, dos vícios e do comportamento da emergente sociedade portuguesa, que só depois da Segunda Grande Guerra começou a sair do anonimato dizendo produzir bom vinho e bom azeite. E só...
Tratou o Atílio certa vez do fato de os portugueses olharem de soslaio e com desprezo para os ex-colonos brasileiros, gente de terceira qualidade, no dizer da época. Enquanto os ingleses eram reverenciados solenemente nos vastos salões da falida aristocracia lusa. E o Atílio não se fez de rogado e deitou verbos pesados acerca de muitos outros fatos, como aquele que nos deixa sempre com dedos aos narizes em vista do pixé nauseabundo muito peculiar aos lusos, com todo o respeito. Foi desta maneira que o bardo findou esquecido pelos editores jornalísticos da terrinha, justamente porque não falava nada para além da verdade.
Cá de minha parte, mesmo por viver nesta pacata província acreana que agora ganha ares de metrópole, não vou poupar críticas ao meu jeito topetudo de ser, que é muito parecido com o da burguesia endividada que moureja nos confins desta terra de Galvez.
Sou acreano-do-pé-rachado e, como crítico contumaz dos nossos costumes, farei, de agora por diante, como o Atílio Soares, o cronista português, embora correndo o risco de ver-me atirado ao ostracismo pela imprensa tupiniquim. (O que não é tão difícil.)
Senhores! Quem quiser que se coloque a favor ou contra, mas sempre e obrigatoriamente por escrito.
Pisarei nos calos de alguns, porém muitos não olharão para si, mas observarão que o vizinho, ou a filha do vizinho (aquela!), ou o colega de trabalho se encaixam exatamente nos contornos abaixo. O meu filho, por exemplo, jamais roubará o erário público. O filho do amigo, porém, em futuro não tão distante, haverá de ser um grande ladrão, tendo em vista a pose empertigada do pré-adolescente.
No Acre o defeito nunca é meu, mas sempre será do outro. Reina cá por estes rincões, inclusive, uma religião muito acreana chamada prosdócimo, aquela da fé em Deus e pau no próximo. É uma calamidade pública!
Registre-se, antes de mais nada, que muitos dos nossos fogem à regra aposta nestes escritos. Há as exceções, com a graça de Deus!
Em verdade, ser acreano é dizer que vai fazer aquilo que não tem vontade, coragem ou habilidade suficientes para levar a efeito. É fingir que sabe aquilo que não sabe. É falar muito e escutar pouco. É tentar passar por inteligente, sendo um bobo, ao vender refresco de sacos e dizer possuir bancos.
Nós, acreanos, pisamos no escuro e andamos no molhado, dentre outros tropeços, quando votamos, por exemplo, em gente da estirpe de Sérgio Barros, um estranho no ninho com quem não devíamos ter puxado conversa. (Quem é realmente inteligente não puxa conversa com desconhecido!)
Acreditamos na fumaça e não vimos o fogo. Arriscamos sem ter certeza. Trocamos um pássaro na mão por dois voando.
É!... Somos assim mesmo!...
Não sem galhofa, oportuno seria que juntos fôssemos a um bar chique, desta nada recatada cidade de Rio Branco, numa sexta-feira à noite, só para conferir. Veríamos, sim, que é dentro de todo este quadro caótico que eu me insiro enquanto um orgulhoso acreano nato de Xapuri, com as bênçãos do glorioso São Sebastião.