
A flecha da verdade
Nem o PT nem o governo têm por que estranhar as declarações de ontem do presidente da Câmara, deputado João Paulo. Ele apenas repetiu o que a oposição proclama e a base aliada cochicha no Congresso: que o governo está deixando passar a melhor hora para apresentar e fazer aprovar suas reformas. Foi até moderado ao se queixar dos desacertos recentes do comando político.
Governos novos saem das urnas com a auto-estima elevadíssima, demoram para se acostumar com as críticas. E quando vêm de aliados, machucam mais. Mas fez muito bem o presidente da Câmara ao verbalizar um sentimento que é de toda a Casa que preside. O presidente e o PT vão provar-se democráticos assimilando a crítica.
Criou-se em relação a João Paulo a expectativa de que ele estará para as reformas de Lula assim como Luís Eduardo Magalhães esteve para as de Fernando Henrique. E, no entanto, o Executivo é que não tem acompanhado sua velocidade. Ele criou e instalou pessoalmente quatro comissões especiais para as reformas tributária, previdenciária, política e trabalhista. Os presidentes e relatores foram eleitos, os membros indicados, os primeiros debates programados. Mas isso não irá longe se as propostas do governo não forem oficializadas.
Erros do dia-a-dia parlamentar nas últimas semanas dariam uma longa lista, e João Paulo nem tratou disso. O acordo com o PMDB era para ontem, ficou para a semana que vem. E apesar do estoicismo do líder Aldo Rebelo, a base aliada ainda costuma agir como se fosse oposição. Só um exemplo: há dois dias, aprovou-se às 17h a convocação do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, para estar às 19h no plenário da Câmara falando sobre a guerra. Mais grave que o tempo exíguo era o momento. A guerra havia estourado. Amorim poderia tropeçar em assunto tão delicado. Mas compareceu, chamado pelos aliados, não pela oposição.
Os líderes oposicionistas José Carlos Aleluia (PFL) e Jutahy Júnior (PSDB) correram para aplaudir João Paulo. Estão no papel deles, o de explorar as contradições entre os adversários. José Genoino minimizou o episódio, mas é certo que o presidente da Câmara interpretou também o sentimento da maioria da bancada.
Por fim, quem conhece o ministro Luiz Dulci sabe que, como bom mineiro, ele não é dado a bate-bocas e não compra brigas. Mas, informado por jornalistas que João Paulo criticara a articulação política do governo, apontou como exemplos de êxito justamente a eleição de aliados para as presidências da Câmara e do Senado. A leitura óbvia foi a de que Dulci “cobrava” de João Paulo o apoio do Planalto à sua eleição. Não seria o caso, ele nem precisou ser imposto pelo Planalto. Foi ajudado pela tradição, que garante o cargo à maior bancada, e pelo impacto da eleição de Lula. Como aliado, presta um serviço ao Planalto, ainda que ali os mais vaidosos sintam suas críticas como uma ferroada.
O presidente ofereceu um churrasco a seus ministros na quarta-feira à noite, mas José Dirceu foi jantar no restaurante Piantela. Ou enjoou dos churrascos de Lula ou da cara dos colegas.
Festa e trabalho para Niemeyer
Depois de ter voltado ao Alvorada, Oscar Niemeyer visitou ontem, a convite do prefeito de Belo Horizonte, Fernando Pimentel, outra de suas grandes obras, o complexo da Pampulha, que está sendo revitalizado. Na Casa do Baile, uma parede repintada em branco foi-lhe oferecida para um desenho. Tracejou o conjunto arquitetônico e deixou um depoimento: “A Pampulha foi o início de Brasília, os mesmos problemas, a mesma correria, o mesmo entusiasmo. E seu êxito influiu com certeza na determinação de JK para construir a nova capital”. Embaixo, um protesto e uma palavra de ordem:
“Todos contra Bush!”
“Todos têm direito à terra! MST”.
O governador Aécio Neves o homenageou depois com um almoço no Palácio das Mangabeiras e o convidou a projetar o novo Centro Administrativo de Minas, para onde serão transferidas as secretarias que hoje sufocam a Praça da Liberdade.
Ensinando a criar peixes
Dar o peixe na emergência e ensinar a pescar a longo prazo, disse Lula ao lançar o Fome Zero. Na primeira reunião do Conselho da Eletrobrás, seu presidente, Luiz Pinguelli Rosa, anunciou a criação do Comitê de Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social. Em apoio ao Fome Zero, será logo implantado o projeto de criação de peixes nas represas pelos ribeirinhos. As terras da estatal que circundam as barragens também serão usadas para plantio em comodato. André Spitz, coordenador do comitê, já o apresentou a Frei Betto. Juntos, participaram da pioneira campanha de Betinho.
NA SEGUNDA-FEIRA, no Rio, o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, abre o V Seminário Internacional do Café, que terá também a presença do governador de Minas, Aécio Neves, insatisfeitíssimo com os baixos preços do produto.
Tereza Cruvinel