
Archibaldo Antunes
Um cronista não tem como passar batido am assuntos relevantes como a guerra do Iraque sem que lhe recaía a pecha de lunático ou incompetente. É por isso que durante a semana li os grandes da grande imprensa falando e falando sobre aspectos da guerra que se vão apurando nos pontos mais longínquos do planeta. O planeta dos macacos. Dos que inventaram as bombas e dos que escrevem sobre elas.
Criacionistas ou evolucionistas, o certo é que ofendemos a serpente ou os símios toda vez que nos vemos guerrear por causa, por exemplo, de um líquido negro que faz funcionar o mundo. A alavanca de Newton, se houvesse, também seria movida a gasolina. Ou a óleo diesel.
O pai da teoria da relatividade não ousou adivinhar como seria a terceira guerra mundial, mas deixou dito que a quarta seria com paus e pedras. Um lembrete de que voltaríamos às nossas origens, defendendo-nos ou atacando os grupos adversários com porretes ou queixadas de burro. Ao Éden, porém, da história mal-contada e machista, não retornaremos jamais, pois dele fomos expulsos por culpa de nossos desejos insaciáveis. Desejos que um símio jamais poderá ter em sua selvagem inocência.
Eu pensava em tudo isso na noite de quinta-feira, madrugada em Bagdá. Lá, como aqui, o movimento de carros era mínimo visto da minha janela eletrônica, da janela deste apartamento de aluguel.
Foi quando o vi ali em frente, como o tenho visto todos os dias, esfregando o chão em que o patrão pisa. O chão do prédio que o sujeito ergue, dizem, com dinheiro alheio. Limpava com calma e humildade, menos curvado do que está quando está próximo à mão que o alimenta. Um símio, pensei. Adestrado e alheio aos horrores da guerra, porque olhava a tevê e ria. E não poderia rir das bombas sobre Bagdá.
E tive pena desse homem pobre e quase velho, provavelmente neto de escravos, velho mulato escravo de um homem rico. Um mulato que limpa chão em noite de guerra com o mesmo empenho que faria em uma noite de Natal.
A desgraça desse sujeito com a vassoura nas mãos me tocou mais que a desgraça dos iraquianos. Voltei à minha janela eletrônica, e vi bombas que pareciam fogos de artifício, e ouvi silvos de sirenes e o matraquear das baterias antiaéreas. Uma guerra que mais parece uma superprodução de Hollywood.
Mas agora só pensava nesse José anônimo, que às dez e meia da noite ainda está limpando chão. Que precisa encarar uma guerra por dia pra sobreviver.
Adormeci, mas não sonhei.
Os macacos, eu acho, também sabem sonhar.
*Cronista/ark30antunes@bol.com.br