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Rio Branco - Acre, domingo, 23 de março de 2003

Agregando valores ao meio ambiente

Produtor do PAD Humaitá acredita que a agricultura
pode ser viável ao homem e à natureza

Rose Farias

O conceito é simples para se construir novos caminhos para a agricultura aliados ao sistema de agrofloresta no Acre, e ele chega por meio de produtores do PAD Humaitá em Porto Acre. Eles dão uma verdadeira aula sobre como recuperar áreas degradadas, reduzir mão-de-obra utilizando as próprias plantas, plantar sem usar fertilizantes químicos e agrotóxicos, sem queimar e derrubar árvores centenárias, fazendo com que a terra nuca fique fraca e sempre produza.

Um dos exemplos de que é viável a aplicação desse novo conceito, que une rentabilidade e preservação do meio ambiente, em que os produtores se colocam como ajudantes da natureza, está vivo na experiência que vem sendo implantada há quatro anos pelo agricultor João Marques Neto em uma pequena área de 18 hectares, no PAD Humaitá. Com recursos próprios utilizando o chamado de Sistema de Agrofloresta (SAF), todo o projeto em implantação teve início depois que o agricultor abraçou a parceria com o trabalho desenvolvido pelo projeto Arboreto (Ufac). Antes o agricultor diz que plantava no sistema tradicional, mas que buscava uma alternativa mais viável tanto para o homem como para a natureza.

“Essa área comprei para plantar no sistema tradicional. Com um ano que estava trabalhando nela encontrei o projeto Arboreto, começamos a trocar idéias, daí nasceu a parceria para trabalharmos juntos nessa pesquisa experimental há quatro anos. Eu já tinha uma tendência de fazer assim. E o negócio está dando certo”, conta.

Para conhecer de perto o que João Marques - mineiro de Itabira que há 15 anos adotou o Acre como terra natal - vem implantando em sua área, a reportagem se embrenhou na mata. Logo na entrada, os dizeres estampados na placa resumiam o conceito de uma nova forma de se fazer agricultura: “Sítio Márcia. Agricultura Ecológica. Produzir sem destruir. Fazer agricultura a partir dos princípios da floresta: manter a terra sempre protegida, nunca queimar, nunca usar agrotóxicos, nunca usar fertilizantes químicos, plantar muito tipo de plantas na mesma área e semear mais e mais vida”.

O agricultor, exímio mateiro, foi guiando a reportagem e mostrando o plantio da área que envolve, além do carro-chefe, que é o café conilon, espécies frutíferas como cupuaçu, graviola, cacau, banana em pequena quantidade, cedro e cumaru. Ele conta que no primeiro ano plantou arroz, feijão e milho, mas com o tempo foi agregando novas espécies à área. Para ele, todo o projeto é um sistema de aprendizagem que vem sendo rentável para sua família.

“Estamos aprendendo do zero e acreditamos que vai dar certo. Já temos uma renda e pela minha anotação que faço todos os dias tiro mais de 100% de renda. Quando empato 100 reais, tiro uns 200 a 300 reais, daquela área. E não utilizamos nada de fogo ou agrotóxico. Aqui nunca deu prejuízo, sempre dá renda”, diz, satisfeito.

Café orgânico: direto do produtor para o consumidor

O café foi escolhido pelo agricultor como carro-chefe, segundo ele, por ter herdado a tradição familiar de plantador do produto em Minas. Um dos diferenciais é que João Marques vem criando um novo conceito, agregando valor com a comercialização das sementes de café (‘criolas’ - matrizes) para produtores do Estado e de outras localidades .

“Todo ano tiro de acordo com a procura de sementes ou um pouco mais. Elas me dão uma renda muito boa todo o ano. Este ano tenho uma encomenda de 50 quilos de sementes. Recebo encomendas de vários lugares. Todo ano faço de 500 a 600 reais de sementes de café. Isso representa uma ajuda extra”, conta.

Agricultores sonham com fábrica de café orgânico

Um outro aspecto econômico está aliado a um dos sonhos do agricultor, que é criar uma pequena fábrica de beneficiamento de café orgânico, isso segundo ele em sistema de cooperativa, com cerca de 60 agricultores da área, que adotaram o sistema de agroflorestas em suas áreas. Mas, antes mesmo de realizar de ver a empreitada ser realizada, o agricultor João Marques já vem botando a mão na “massa”. Produz o café orgânico em pequena quantidade e o comercializa para pessoas da comunidade do Humaíta.

“Fazemos em pequena quantidade para o pessoal da comunidade. A nossa intenção é mexer organicamente correto com mais quantidade não somente para atingir a comunidade, mas também todo o Estado todo. Estamos organizando uma cooperativa de agricultores de café em sistema de agrofloresta, ao todo até agora somos 38 produtores” explica João Marques acrescentando que a meta é se chegar aos 60, envolvendo agricultores de seis municípios do Estado. O projeto envolve a parceria entre os produtores e o projeto Arboreto (Ufac), Banco da Amazônia e do governo do Estado.

“Esse projeto começa em Porto Acre e atinge seis municípios do Estado, nos vamos juntar os agricultores que tenham essa mesma idéia para produzirmos um número significativo, industrializar ou vender em grãos com qualidade”, diz.

Nos quatro anos de implantação do sistema de agrofloresta em sua área, o agricultor diz que atingiu uns 5% de sua meta, o que segundo ele é satisfatório, pois não teve perda. Ele explica que conseguiu formar em produção uns três hectares, dos 18 da área. Mas, que prefere ir devagar com o projeto, onde sua meta é chegar a uma indústria de café.

“Em quatro anos queria cobrir os 18 hectares, mas isso requer um custo muito alto e o financiamento é caro, os juros são altos, e a gente acaba recebendo instruções que não é do jeito da gente, então preferimos levar devagarinho que a gente faz do nosso jeito. Acho que assim chegarei a indústria de café”, explica.

Manejo - A ordem é plantar utilizando manejo, pois segundo o experiente agricultor, é imprescindível para a terra. João Marques fez questão de explicar João Marques, a sua maneira simples como se faz o manejo, o que para ele é a chave para a produção. “No manejo cortamos aqueles ramos mais velhos da árvores mais velhas, botamos para o ar e o sol correr bem dentro da planta. Fazemos aquele equilíbrio que aí a planta agradece e produz”.

Na área ele plantou todo um conjunto de plantas entre cedro, mogno, cumaru de cheiro, bacuri, que segundo ele servem não apenas para fruta, mas como adubo para o café e outras plantas.

Experiência vem servindo de modelo

Hoje a experiência desenvolvida por João Marques vem servindo de modelo. Há um mês, o agricultor recebeu a visita de representantes da prefeitura de Buriti (Rondônia) e agricultores, com o propósito de expandirem o sistema de agrofloresta em suas áreas.

“Eles já aplicam o sistema lá em Buriti, mas querem expandir mais, por isso vieram aqui ver o modelo do Acre. Foi muito importante a visita, pois eles querem formar o intercâmbio do cacau, querem trocar sementes. Gostaram muito do nosso trabalho do Humaita. Até o ano que vem nos queremos ir lá trocar mais informação e sempre seguir a nossa idéia central que é a mesma: produzir sem fogo e sem veneno”, relata o agricultor.

Biodiversidade preservada

Para o João Marques o que se questiona, é a lógica implantada pela monocultura em oposição a uma agricultura que, mesmo que priorizando determinadas culturas, trabalha com um conjunto diversificado e complementar de culturas e criando reservas florestais (com possibilidade de manejo que garante a sua conservação, quando não se trata de área de preservação permanente que exclua essa possibilidade).

“Manter bosques e plantas não produtivas permite que não aja pragas, e o mais importante a manutenção e a evolução da biodiversidade”, diz acrescentando que um sistema agroflorestal é menos sensível às variações de preços, permite a conservação dinâmica das sementes e matrizes rústicas (“criolas”), preserva o solo e os recursos hídricos, garantindo a segurança a preservação das florestas e do meio ambiente.

De perto a equipe pôde constatar a veracidade das palavras ditas por João Marques, pois ao caminhar pela área se deparou com espécies de besouros e outros.

Sistema de agrofloresta agrega valores e sustentabilidade

Para os produtores do PDA Humaíta que trabalham com o sistema de agrofloresta a produção está relacionada a terra, não como exploração, mas para preservá-la, cultivando muitos tipos de plantas ao mesmo tempo e protegendo as que nascem por conta da natureza. Um dos incentivadores e defensores desse novo conceito é o vereador José Euclides (PT), o “Esquerda”.

“O que dá para se perceber é que o pequeno agricultor no sistema tradicional tem poucas chances, o que verificamos hoje é que muita reaglutinação de parcelas, se transformando em fazendas. Vejo o que está sendo implantado aqui com bons olhos, pois significa a sustentabilidade para a família do próprio agricultor, e não o prende a cultivar apenas dois produtos, como no sistema tradicional. O ganho econômico para o futuro de trabalho e de produção é grande e a garantia para o próprio colono de garantir o sustento futuro de seus filhos”, ressaltou o vereador.

O vereador ressaltou que durante 20 anos, as áreas do Humaíta tiveram vários donos e que depois da adoção do sistema de agroflorestas por cerca de 28 produtores, existe uma certa estabilidade.

“De uma forma de outra existe uma estabilidade, os colonos questão neste processo não tem intenção de vender sua área, ao contrário o de preservar com um senso de consciência ambiental”, conclui Esquerda adiantando que o próximo passo é sensibilizar a prefeitura de Porto Acre para a criação do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural.

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