
Pra lá de Bagdá
O mercado amanheceu ontem mais pessimista porque conseguiu, no fim de semana, entrever a realidade. Não há guerra limpa e cirúrgica e todas elas implicam num grau elevado de incerteza e imprevisibilidade. Não apenas no que acontece durante o conflito, mas além dele. Não são triviais as conseqüências que a guerra pode ter na geografia, na política e na diplomacia do mundo.
O ataque maciço e espalhafatoso sobre o Iraque está aumentando o furor da opinião pública internacional. As imagens ao vivo de uma cidade sendo destruída são mais chocantes que os relatos escritos e falados ou as cenas virtuais, como as que predominaram na guerra do Golfo. Quanto disso vai se transformar em antiamericanismo, é uma dúvida sobre o qual a diplomacia dos Estados Unidos precisa se debruçar quando estiver tratando de reverter os efeitos prolongados da guerra.
As tropas americanas e britânicas estão avançando rapidamente e a vitória é certa, mas que tipo de vitória será esta? Um fato provável e temido é o aumento da instabilidade na região mais instável do planeta. O primeiro flanco a se abrir será o curdo. Espalhada pelo norte do Iraque, sul da Turquia, oeste do Irã e nordeste da Síria (além dos curdos do Azerbaijão e da Armênia), a nação curda pode querer, simplesmente, a independência. A Turquia parece estar pensando em anexação. O Irã certamente se previne contra qualquer alternativa e ainda se arma contra um futuro aumento da hostilidade americana contra o país. Afinal, ele está lá na lista do eixo do mal.
Mesmo antes de começar, esta guerra já provocou efeitos permanentes demais. Na Europa, onde a união política e diplomática parece mais distante hoje; na economia, por retardar a retomada do crescimento mundial; nas instituições multilaterais, sobre as quais desabou o peso do desrespeito americano às regras acordadas nas longas negociações das últimas décadas; no resto do mundo, onde países que jamais haviam discordado dos Estados Unidos passam a contestar sua liderança. Os patriots têm atingido mais alvos além de Bagdá e do caça inglês. A força extremada exibida não está aumentando o poder da primeira potência.
A reconstrução do Iraque e a exploração dos amplos campos de petróleo do país não serão este passeio que os Estados Unidos imaginaram quando fizeram publicamente a divisão do trabalho por empreiteiras e empresas petrolíferas americanas; num caso inédito de fechamento de contrato no mercado futuro de destruição e ocupação de um país.
A retomada da produção normal no Iraque exigirá um certo tempo, mesmo no melhor cenário. Se a destruição da infra-estrutura de produção, transporte e exportação de petróleo do Iraque continuar pequena, como tem sido até agora, o país, segundo cálculo dos especialistas, poderia voltar à normalidade no ano que vem, mas dependendo do nível de investimento que for feito na recuperação. O Iraque é um país sob forte embargo, acuado pelo bloqueio de investimento e de comércio há mais de uma década. Sua infra-estrutura se deteriorou neste tempo, sem falar nos estragos da guerra em curso.
O conflito expande de forma imprevisível os gastos públicos americanos num momento em que o governo Bush já malbaratou a herança de equilíbrio fiscal deixada por Bill Clinton. A guerra do Golfo custou a metade do que esta deve custar e, naquela época, a conta foi dividida entre a Europa, a Arábia Saudita e o Japão. Esta conta é americana numa época em que a economia está fragilizada, lembrou ontem, em entrevista ao Valor, o economista José Alexandre Scheinkman.
Diariamente, são divulgadas informações mostrando que esta guerra vai muito além de Bagdá. Ontem mesmo, os Estados Unidos acusaram a Rússia de ter fornecido armas ilegalmente ao Iraque, o que a Rússia negou. A verdade pode estar com qualquer um dos lados. A Rússia era antiga fornecedora de armas para o Iraque, mas aí ninguém pode jogar a primeira pedra porque os Estados Unidos foram aliados de Saddam Hussein, como o secretário Donald Rumsfeld tem sido lembrado constantemente. Por outro lado, os Estados Unidos podem estar querendo apenas desacreditar um dos veementes adversários da guerra; da mesma forma que a Grã-Bretanha tentou fazer com a França quando insinuou que o país tem interesses econômicos no Iraque, como se todos não tivessem. Esses ruídos podem todos ser superados depois do conflito, ou podem reavivar inimizades. O risco global está aumentando diariamente desde que o presidente George Bush penteou os cabelos, passou laquê e mandou suas forças armadas atacar o Iraque.
O Brasil, felizmente, tem passado muitíssimo bem por todos estes dias de extrema tensão mundial, apesar de ontem o risco-país ter subido 3,28%, depois de uma seqüência de baixas. Nossos indicadores melhoram, o Brasil voltou a captar no mercado internacional e textos favoráveis ao país saem na imprensa internacional, como o deste fim de semana na Economist elogiando o ministro Antonio Palocci. Não foi a guerra que melhorou a situação do Brasil, claro. Foi o Brasil que fez o esforço de superar todas as pesadas dificuldades e desafios da crise de confiança enfrentada no ano passado e sobre as quais escrevi aqui no sábado. O país colhe agora o resultado do esforço que fez. Mas não há cenário em que o Brasil ganhe com a guerra.
A TOTALFINAELF garante que jamais assinou acordo para a exploração de Majnoon, o campo de petróleo descoberto pela Petrobras no Iraque.