
Biblioteca Pública inova
nas atividades, incentivando a leitura
Poesias de vários autores,
nacionais e locais, será
a temática trabalhada durante todo o mês de março
A
poesia está em todos os cantos. Olhe ao seu redor: os amigos, a família,
a casa, o trabalho. Apure os ouvidos e escute os sons que lhe rodeiam, passarinhos
cantando na janela, as buzinas dos carros, o choro e os sorrisos das crianças.
Tudo é poesia basta você se abrir para as pequenas coisas da
vida. Esta é a temática que inaugura um novo projeto de incentivo
à leitura na Biblioteca Pública Municipal.
O projeto consiste em a cada mês trabalhar um tema, como o Dia do Livro, do Folclore, Teatro. No dia 14 de março comemora-se no Brasil o Dia Nacional da Poesia em homenagem ao nascimento do poeta Castro Alves (1847/1871). Partindo dessa deixa, todos os sábados os funcionários da biblioteca preparam atividades variadas como declamação de poesias, mural dos poetas, exposição de livros, apresentação de filmes.
“Para este sábado [anteontem] nós escolhemos poesias de mulheres acreanas, convidamos a Nilda Dantas para declamar algumas, na seção infantil trabalhamos com ‘A Arca de Nóe’, do Vinícius de Moraes, apresentamos o filme ‘O carteiro e o poeta’, sobre a vida de Pablo Neruda, fizemos uma exposição de livros da Terra, entre outras coisas”, comenta o funcionário Antônio Carlos.
O objetivo do projeto, segundo Carlos, é dinamizar o acervo da biblioteca e incentivar o acesso da comunidade aos livros. “Queremos incentivar o hábito da leitura nas pessoas. Durante o sábado, além das atividades especiais, a biblioteca funciona normalmente e as pessoas que vêm apenas estudar acabam se integrando nas atividades”, disse.
"A poesia
está no ar, na Natureza, na mulher, no homem, na flor, na mão
que se estende à caridade, na tragédia das guerras, na vida,
enfim, na morte."
Vinícius de Moraes
Vinte Poemas de Amor - XX
tradução de Fernando Assis Pacheco
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada,
e tiritam, azuis, os astros lá ao longe”.
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu amei-a e por vezes ela também me amou.
Em noites como esta tive-a em meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob o céu infinito.
Ela amou-me, por vezes eu também a amava.
Como não ter amado os seus grandes olhos fixos.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que já a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o orvalho.
Importa lá que o meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe.
A minha alma não se contenta com havê-la perdido.
Como para chegá-la a mim o meu olhar procura-a.
O meu coração procura-a, ela não está comigo.
A mesma noite que faz branquejar as mesmas árvores.
Nós dois, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a amo, é verdade, mas tanto que a amei.
Esta voz buscava o vento para tocar-lhe o ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.
A voz, o corpo claro. Os seus olhos infinitos.
Já não a amo, é verdade, mas talvez a ame ainda.
É tão curto o amor, tão longo o esquecimento.
Porque em noites como esta tive-a em meus braços,
a minha alma não se contenta por havê-la perdido.
Embora seja a última dor que ela me causa,
e estes sejam os últimos versos que lhe escrevo.
* Pablo Neruda
O amor e o segredo
A menina guardou na caixinha de segredos
O desejo do cavaleiro alado
Entre flores murchas
Botão de vestido
Anel quebrado
A menina aceitou um vento cigano
Que abria suas pernas
Desdobrava em trigais cintilantes
Os pêlos novos
Um par de escudos
Lindos seios
E a língua guerreava em sangue
Sem escrúpulos
Gozo, solidão.
* Nilda Dantas