
Números da crise na base governista
O presidente da Câmara, deputado João Paulo, pôs o dedo na ferida ao apontar indecisão no governo e desarticulação na base governista. Pesquisa feita pelo IBEP junto a 356 deputados e 50 senadores traduz em números esses problemas que o governo enfrenta para aprovar as reformas.
A pesquisa foi concluída na sexta-feira passada e ouviu 68% do conjunto do Congresso. Na síntese do próprio IBEP (Instituto Brasileiro de Estudos Políticos), seu resultado aponta divisões profundas quanto ao teor das reformas, inclusive dentro do PT, embora isso não seja um indicador de oposição ao presidente Lula. Seu governo é considerado bom ou ótimo por 50% dos congressistas, enquanto 45% se dispõem a esperar um ano para fazer o julgamento definitivo.
Tal quadro, diz o diretor do instituto, Walder de Góes, exigirá um exercício intenso da liderança presidencial para a construção de consensos e da maioria qualificada. Das respostas dos congressistas o governo pode colher alguns indicativos para negociar os acordos possíveis.
Na própria definição de prioridades, nota-se a dissonância entre a base e o governo, entre o Congresso e o Executivo. Até onde se sabe, o governo pretende começar as reformas pela da Previdência, mas para 45% dos senadores e 44% dos deputados a tributária deve ser prioritária.
A autonomia do Banco Central, cuja preliminar está em pauta esta semana (a regulamentação do artigo 192 da Constituição) carrega, como as outras reformas, um falso consenso que se desmancha nos detalhes. No geral, é apoiada por 48% dos deputados e por 59% dos senadores, mas esses índices caem a 33% nas duas Casas entre congressistas do PT. Em corte mais detalhado, vê-se que a tese do mandato fixo para presidente e diretores do BC tem o apoio de 57% na Câmara e de 65% no Senado. Entretanto, apenas 34% dos deputados e 44% dos senadores concordam, por exemplo, com a autonomia do banco para fixar a taxa de juros.
Aparentemente, a reforma previdenciária é bastante consensual. Entre os deputados, 89% declaram-se a favor dela e, entre os senadores, 94%, índices que se reproduzem com pequenas variações entre os partidos. O problema começa quando consultados sobre os aspectos mais polêmicos. Apenas 43% dos deputados e 35% dos senadores apóiam a instituição de um teto comum para todas as aposentadorias. Esses índices caem para 20%, nas duas Casas, quando se fala em criar um "fator previdenciário" também para os servidores. E para 25% e 33%, respectivamente, em relação ao PL-9 (que cria o teto para os servidores e institui a previdência complementar). Apenas 18%, em ambas as Casas, admitem a elevação da idade mínima para aposentadoria no serviço público. Em relação ao teto único, interessante observar que apenas 20% dos congressistas admitem a adoção do teto atual do INSS — R$ 1.561,52 — índice que sobe para 48% quando se admite um teto maior. Um sinal de que, se caminhar por aí, o governo pode ter êxito; do contrário, pode tropeçar. Nas duas Casas, a maioria admite a unificação dos regimes, mas não imediatamente e sim por regra da transição.
Outro aviso da pesquisa ao governo é para que não insista na taxação dos inativos, como fez em vão o governo passado. A proposta é apoiada por 33% na Câmara e por 39% no Senadores, mas rejeitada por 52% dos deputados e 45% dos senadores (51% do Congresso).
Perguntados sobre o que apontam de mais positivo no governo Lula, 15% dos congressistas destacaram a liderança pessoal do presidente, um índice que Walder de Góes avalia como insuficiente para responder à demanda de liderança. Ontem mesmo, por sinal, Lula fez enérgica defesa das reformas ao falar na fábrica da Volkswagen. O aspecto positivo mencionado pela maioria (31% dos deputados e 21% dos senadores) foi a ação social, área em que o governo vem enfrentando problemas, mas transmite vontade de avançar. O destaque negativo ficou para a política econômica, mencionada por 28% na Câmara e por 22% no Senado. Mas em segundo lugar aparece a preocupante noção de que o governo é indeciso, mencionada por 23% e 22% nas duas Casas, respectivamente. A política econômica é rejeitada por 46% dos deputados petistas e a indecisão é apontada por 50% dos senadores peemedebistas, talvez em função da delonga no acordo para integrar o partido ao governo.
Avisos dados, o governo que se cuide.
EFEITO JOÃO PAULO: o ministro José Dirceu convidará todos os líderes da base, inclusive os do PMDB, para almoços semanais.
COMOÇÃO na bancada capixaba com o assassinato do juiz Alexandre Martins. Uma subcomissão da Comissão Mista de Segurança, a pedido do deputado Neucimar Fraga (PL), acompanhará as investigações. "Foi uma afronta ao Estado, mas talvez o combustível que faltava para uma reação à altura", diz ele.
EM CONSIDERAÇÃO à vivacidade mental do interlocutor, o deputado Virgílio Guimarães (PT-MG) completa nota publicada ontem. Perguntado por Lázaro Brandão sobre a privatização do Banco do Brasil, disse que era assunto para depois da estatização do Bradesco. Faltou a tréplica: "Você levaria vantagem, trocando um banco público por um banco privado eficiente".
Tereza Cruvinel