
O ministro Antonio Palocci está otimista e garante ter razões para isso. O governo manda no começo de abril, para o Congresso, as propostas das reformas tributária e da previdência. Os superávits primários continuarão sendo elevados mesmo após o fim do acordo com o FMI. Palocci acha que esses e outros fatos vão confirmar a visão positiva que está se refletindo em todos os indicadores do país.
A segunda-feira foi um péssimo dia para os mercados do mundo inteiro, mas no Brasil o dólar caiu um pouco e a Petrobras fez uma captação de US$ 400 milhões. O fluxo está retornando, a inflação está caindo, o dólar se estabilizando, o risco-país voltando a patamares mais razoáveis. O país está voltando ao normal depois da crise do ano passado em que praticamente quebrou.
— E saiu da crise sem ter uma recessão, mostrando um enorme vigor da sua economia — avalia o ministro.
Por isso, a estratégia agora é seguir pelo caminho que leve a dois pontos: mudança estrutural dos gastos públicos através das reformas que garantam um horizonte ao ajuste fiscal do país, e redirecionamento das despesas sociais para que elas se destinem aos mais pobres e o país comece a construção do objetivo de mais distribuição de renda. Palocci acha que as reformas podem ser o caminho para duas metas: distribuição de renda e ajuste fiscal permanente.
Antes de chegar no longo prazo, o ministro tem que lidar com uma conjuntura ainda cheia de aflições: governadores que querem renegociação da dívida, divisões dentro do partido do governo, coalizão governista ainda insuficiente para votar as reformas, pouco crescimento, juros altos, dívida alta e inflação muito acima da meta que se quer atingir.
Nada disso parece afligir o ministro. Ele é capaz de falar de cada um destes problemas, sem escapismos e com uma calma invejável. As críticas dos integrantes do PT não parecem incomodá-lo. Pelo contrário, fala dos mais críticos sem qualquer sinal de ressentimento. Acha que a imprensa é que não entende o PT, que define como sendo uma mistura de democracia com disciplina. O exercício desta democracia é que estaria sendo confundido com dissidência, quando é apenas um saudável debate. Nos próximos meses, e votações, o ministro poderá conferir se essa sua visão do partido confere com a realidade.
Ele parece inflexível, apenas, quando fala da pressão dos estados para renegociar a divida.
— Se quiserem fazer isso, que façam sem mim — garante, de maneira firme.
Palocci está disposto a ouvir governadores sobre suas reivindicações legítimas, mas não quer reabrir a negociação das dívidas porque acha que isso o levaria a administrar uma expansão fiscal perigosa.
O ministro acha que os últimos números da inflação comprovam o acerto da política econômica. Esses números ainda estão altos, mas o país já está vencendo o surto inflacionário. As taxas começam agora a ceder. O otimismo em relação ao Brasil está voltando, depois que o país comprovou serem infundados todos os prognósticos de colapso da economia e de calote na dívida. O dólar caiu um pouco e, principalmente, está se estabilizando. Tudo isso, na visão do ministro da Fazenda, está criando as condições para queda das taxas de juros e aceleração do crescimento econômico. O aumento da arrecadação permitido por um crescimento maior e a queda dos juros reduzirão o custo da dívida. A manutenção do superávit primário elevado — e o ministro diz que ele terá que ser elevado por muitos anos ainda — permitirá a queda da dívida/PIB.
As mudanças mais permanentes serão produzidas pelas reformas. A tributária terá um projeto enxuto para evitar o erro de constitucionalizar excessivamente o tema. O resto será tratado em matéria infraconstitucional. Um grande avanço em termos de simplificação será a transformação de 27 legislações de ICMS em uma única lei e as 44 alíquotas, em apenas quatro. A reforma da previdência será vista e tratada não apenas como um inadiável ajuste fiscal, mas como um impulso ao projeto de distribuição de renda. As vantagens de um grupo em relação ao resto da sociedade têm sido concentradoras de renda. A redução do peso da previdência sobre as contas públicas permitirá a elevação de outros gastos, como o com o salário mínimo, na visão do ministro, “poderoso instrumento distributivo”.
Com essa visão de rumo do país — e de parte do caminho já andado —, é que o ministro Palocci viaja, no dia 10 de abril, para a reunião do FMI e do Banco Mundial, na qual vai, em conversas paralelas, ou nas reuniões oficiais, apresentar sua visão sobre o projeto do novo governo.
NO QUE DEPENDER do ministro Antonio Palocci, o diretor Ilan Goldfajn permanece exatamente onde está. Ele faz enfáticos elogios ao economista.
A VENEZUELA perdeu ontem uma preciosidade. A cientista-política Janet Kelly, americana que vivia há vinte anos no país que considerava seu, foi encontrada morta e a polícia afirma ser suicídio. No ambiente de intolerância do país, Kelly era uma das raras pessoas que tentava ver os dois lados. Ela tentava um olhar independente e sem radicalismos entre as duas Venezuelas. Freqüentemente, irritava os dois lados, porque naquele país há pouco espaço para diálogo.