
Sebastião Ribeiro mandou
tatuar o próprio rosto
com a foice e o martelo do partido que ama, o PC do B
Tião Maia
“Não
faça nenhum tipo de pergunta. Não existe resposta”. O
aviso, em letras garrafais, está escrito num local absolutamente inusitado:
a testa de um ser humano, sob a pele. Na verdade, trata-se de uma de uma série
de tatuagens que o camelô Sebastião Ribeiro Castelo Branco, de
51 anos, literalmente ostenta no rosto há pelo menos 27 anos.
Além do aviso com o qual tenta escapar da curiosidade popular, Sebastião, também conhecido como “Zica”, mandou tatuar na face esquerda o rosto da esposa Sebastiana Bezerra da Silva, 44, com quem está casado faz 26 anos. Na tatuagem, do nariz de Sebastiana sai uma argola a partir da qual há a reprodução de uma cerca de arame contornando todo o rosto do marido tatuado e, trocadilho à parte, visivelmente apaixonado. “Isso mostra que ela está cercada, presa em mim. Quem olhar direito vai ver que no desenho ela está olhando para os meus olhos”, diz o camelô, levando o dedo à gravura. “Eu também estou preso a ela. Temos oito filhos - dois homens e seis mulheres”, conta.
Do outro lado da face, as tatuagens representam os símbolos com os quais um certo Karl Marx, há 150 anos, assustaria a Europa no lançamento do Manifesto Comunista: a foice e o martelo que correriam o mundo como marcas dos partidos comunistas, inclusive no Brasil. Por aqui, a foice e o martelo vermelhos que os comunistas exibem há 81 anos em bandeiras, faixas e cartazes de manifestações populares, seguidos da sigla do partido, ilustram o rosto de um homem que já não tem lá tanto orgulho do que fez. “Se pudesse voltar atrás, não faria de novo”, diz ele.
Com o rosto transformado em outdoor ambulante de suas paixões, Sebastião Ribeiro ganha a vida vendendo quinquilharias no centro da cidade.Óculos escuros, boina tipo jamaicano, cabelo rabo-de-cavalo e roupas coloridas completam a indumentária de um homem extravagante - como, aliás, convém a todo camelô. O problema é que muitas pessoas, ao enxergá-lo nas calçadas onde ele atua, chegam a mudar de caminho. Trata-se de uma dose diária da discriminação com a qual Sebastião está acostumado. Afinal, ele nunca teve emprego e, à medida que se orgulha disso, sabe que uma das causas que o empurraram para a informalidade é a série de tatuagens no rosto. “Não posso negar que sou discriminado. Às vezes vou a uma repartição atrás de uma audiência com uma autoridade e não consigo. Sou barrado pelas secretárias, que até evitam me olhar no rosto”, lamenta.
Sebastião, como diz o aviso no alto de sua testa, não se dá o trabalho de explicar por que resolveu tatuar o próprio rosto. “Apenas fiz. Achei legal e fiz. E quero dizer que estava normal, de cabeça limpa [sem drogas]. Cada tatuagem dessas levou anos para ser completada”, conta.
Sebastião quer ajuda para remover
as tatuagens e a discriminação social
Apesar de ser a própria cara do PC do B, Sebastião não é filiado ao partido. “Gosto do partido, mas nunca me filiei. Minhas filhas e minha mulher são filiadas e até fazem campanha. Eu voto e divulgo o partido”, diz.
Mas apesar das profundas raízes e ligações partidárias, o camelô revela que, se pudesse, se conseguisse dinheiro para tanto, removeria as tatuagens. É que ele anda decepcionado com o movimento e com o mundo das tatuagens. “O pessoal que se mete em violência, em assaltos e em tudo que é ruim, está todo tatuado. Isso cria uma imagem negativa na gente que se tatuou numa época em que a tatuagem não estava ligada à violência. Se eu pudesse, se tivesse uma ajuda, voltaria a ficar de cara limpa”, confessa.
É por tudo isso que Sebastião não recomenda que o imitem. “É uma rebeldia muito cara”, confessa. “E se seus filhos resolverem imitá-lo?” , pergunta o repórter. O camelô é seguro: “Tive sorte porque tive mais filhas mulheres e acho que as mulheres se tatuam menos que os homens. Se algum dos homens quisesse fazer o que eu fiz, eu não tentaria impedir porque sou livre e defensor da idéia de que um homem faz o que bem quiser de seu corpo. Mas não os aconselharia porque a discriminação da sociedade, principalmente agora com esse negócio das gangues, é muito grande”, afirma.
Vítima do preconceito da sociedade
Sebastião Ribeiro Castelo Branco, ainda que mantenha sinais da rebeldia da adolescência, é um homem preocupado com o futuro. Com a decisão da Prefeitura Municipal de retirar os camelôs do centro da cidade, ele teme perder a única fonte de renda com a qual sustenta sua família. “Não tenha outra forma de viver. Essa gente quer empurrar a gente para o crime? Será?”, pergunta.
Entre os camelôs, Sebastião exerce visível influência. Está sempre cercado de colegas de profissão e, claro, de curiosos. Foi a curiosidade popular que o levou a fazer a mais radical das tatuagens, a inscrição na qual ele pede que as pessoas não façam perguntas. As letras, escritas em azul, imitam a grafia do movimento underground, muito cultuado pelos adeptos do heavy metal.
Caso seja impedido de trabalhar como camelô, Sebastião estaria em maus lençóis. Muitas pessoas, principalmente religiosas, se afastam dele. É comum católicos passarem por ele se benzendo com o sinal da cruz. “Eu acho que quem faz isso só pode ter pauta com o cão”, diz a dona de casa Severina Augusta Pereira, 59 anos, que parou para acompanhar a sessão de fotografia do rosto do personagem.