© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, quarta-feira, 26 de março de 2003
O mal contra o mal

Francisco Dandão *

Bem condicionado, com os reflexos apurados e em perfeito estado, o cachorro da experiência do médico Pavlov, aquele que salivava querendo comida todas as vezes que tocava o sininho (vocês sabem, né?), provavelmente seria mais sensato do que Bush Júnior e Saddam Hussein.

Cada vez que eu vejo na televisão as cenas dos prédios pegando fogo e a fumaça subindo na confluência dos rios Tigre e Eufrates (onde, dizem os historiadores, teria nascido a civilização ocidental) mais me convenço de que tanto um como o outro dirigente são duas enormes bestas quadradas.

(Neste ponto devo abrir um longo parêntese, de um parágrafo para ser preciso, para explicar que uma “besta quadrada”, por não sair do lugar, é uma criatura bem pior que uma “besta redonda”. Duas “bestas quadradas”, então, cruz credo, só de imaginar me sobe pela espinha dorsal um arrepio.)

E aí, ao colocar os dois no mesmo saco, é que reside o meu maior problema. Se um e outro são igualmente criaturas de juízos pouco saudáveis (isso para usar um certo eufemismo), então a guerra, que hoje teima em tingir de sangue as nossas retinas cansadas, é uma luta do mal contra o mal.

Ditador acostumado a tratar seus opositores políticos à bala, Saddam conquistou o poder à custa de sucessivos envios de “traidores” ao paredão. A matemática dele foi sempre a de diminuir os desafetos pela pura e simples extinção física e a de somar dividendos para os próprios bolsos.

Não aprendeu nada, o Saddam, nos mais de 20 anos que se mantém à frente do estado nacional do Iraque. A não ser fazer com que ninguém vote contra ele nas eleições de brincadeira que promove de tempos em tempos (e ai daquele que resolver achar que as coisas não andam boas...).

Cowboy texano de poucos modos e precária condição intelectual, por seu lado, Bush Júnior, se alguém duvidar, sequer é capaz de saber para qual rumo o próprio nariz está apontando quando acorda e olha pela janela o sol nascendo no horizonte. Leste ou oeste são acidentes de percurso. Tudo igual.

Não aprendeu nada com as vacas contemplativas e suas babas abundantes que grassam na imensa pradaria do seu estado natal. Certamente elas saberiam distinguir, hóspedes eventuais fossem da Casa Branca, que um mugido ainda pode ser melhor remédio do que o disparo de um canhão.

As vacas (“cow”) e os rapazes (“boys”) americanos, aliás, quem diria, quem poderia dizer, na falta de peles-vermelhas para uma luta justa (as balas de uns contra as flechas de outros) e divertida, um dia iam partir mundo adentro atirando para todo lado, em busca do seu Santo Graal.

Quanto aos discursos, nesse ponto Saddam e Bush também se parecem. Um fala, o outro ecoa. “Vamos ganhar a guerra rapidamente... O inimigo será castigado... Lutaremos até a vitória... Eles estão humilhando os prisioneiros de guerra e não estão cumprindo a Convenção de Genebra...” etc.

Dois psicóticos brincando de destruição para tentar provar ao planeta que um é mais macho do que o outro. Melhor, muito melhor, se for por isso, seria fazer um teste de resistência, do tipo quem ri primeiro perde. Castigo: Saddam perde, raspa o bigode; Bush perde, pula nu da Estátua da Liberdade.

Ironicamente, a propósito dessa história do mal contra o mal a que me referi no começo deste texto, não foi Hollywood, e suas fábulas de celulóide esparramadas pelo mundo, que nos ensinou que deve haver sempre o outro lado? Não é nos estúdios de Los Angeles que o bem sempre vence?

E agora, como é que fica? Sem um mocinho para torcer, quem é que vai beijar a moça no final? A não ser que, nesse filme, não tendo herói, também não precise ter moça. O beijo vai ser numa outra dama, a de mortais lábios gelados. De preferência com o demônio fazendo o papel de juiz.

* fdandao@zipmail.com.br

Amazônia
Colunas
Cotidiano
Expediente
Entrevista
Editorial
Estilo
Especial
Esporte
Política
Principal