
Livro de Jorge Tufic traz poemas e versos de circunstâncias
Num
estilo personalíssimo, numa linguagem permeada de símbolos,
metáforas e signos, que são, na verdade, recursos universais
da poesia de todos os tempos, o poeta acreano Jorge Tufic fala desde a penetração
dos colonizadores espanhóis e portugueses na Amazônia, até
as lendas e os mitos que fazem parte da maior biodiversidade mundial.
Nas palavras de Yacilton Almeida, Jorge Tufic continua entoando o canto de sua mundivivência, de seu agnosticismo, para permitir que ouçamos a outra voz, que é de todos e é de ninguém, é antiga e é de agora. O poeta, sendo ele mesmo, é outro, nestes tempos de alienação, de cinismo, de monstruosidades, enfim, de vastos horizontes, misérias e medos.
“Para ser poesia o verso precisa ter aquele indizível, inefável misterioso, certa incoerência, eufemismos ou modo de interlúnio. Eu encontrei na leitura desse livro essa feição de mistério do verso, de poesia vigorosa”, disse o leitor e amigo do poeta, José Helder de Souza.
No livro o leitor verá, segundo Souza, “poemas celebrando os mitos, os heróis primitivos, animais e plantas, o homem, os filhos da mata, do homem que lá se formou desde a origem dos séculos até os mais simples humanos heróis - como os soldados da borracha - da vida amazônica vistos por Tufic”.
DES, CON, TI, NUI, DA, DE
A vida, o que é?
Alguns acordam para morrer.
Outros morrem
Para entender.
A vida é o que sonha
Para que todos saibam
Somente os grandes poetas
Me fazem sentar à mesa
E libertar meus dedos de ferrugem.
Somente os grandes pintores
Me fazem ver as crianças do mundo
Nas sete cores do arco-íris
Somente os grandes músicos
Me fazem pulsar no silêncio do quarto
Como um tumor de salgema.
Somente os grandes amigos
Me fazem trocar tudo, tudo mesmo,
Por um cavaco de prosa.
......
“Eram livres céus e terras,
bichos, peixes, águas, fontes,
livres de ver liberdade
nas garças e jaçanãs...
ar livre, praias cobertas,
grávidas praias, de leve
urdindo a fala esquecida
dos uruás e tupanas,
livres os fios das lendas
para as tragédias humanas.”
.....
Os dedos das mãos
Agulhas com som de chuva
Tecem, lá fora, os vitrais
Da noite, talvez que desce.
Mas é o silêncio que tece
a urtiga dos vendavais.
