© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, quinta-feira, 27 de março de 2003
Não à guerra

Raimundo F. Souza *

Nos tempos da “revolução tupiniquim”, especialmente na região fronteiriça com o vizinho país boliviano, época em que foi travada a batalha liderada por Plácido de Castro e que resultou na anexação ao Brasil da região do Acre, as armas mais sofisticadas da “guerrilha” eram os rifles 44 e os fuzis “cano de mamão” e a locomoção noturna era facilitada com a luz da poronga e do facho de sernambi (tocha confeccionada com os resíduos da borracha natural). Condições bastante diferenciadas das armas inteligentes e dos recursos tecnológicos da atualidade. Mas, mesmo assim, ainda hoje essas histórias são contadas e recontadas, conseguem sensibilizar os espectadores e remontam os horrores e sofrimentos que a “guerra” produz.

Imaginem a situação atual, onde os americanos, brincando de vídeo-game, se dão o luxo de atacar somente à noite, horário em que o inimigo, mesmo se tiver acordado, não sabe de onde vem o perigo, só escuta o zumbido dos mísseis se aproximando e o impacto da explosão - isso é o que, verdadeiramente, pode se chamar terror. E, apesar da propalada precisão cirúrgica nos ataques, conforme defendem os americanos, fica difícil acreditar que um artefato com duas ou três toneladas de explosivos, explodindo em meio a uma zona densamente povoada, possa atinja exclusivamente o prédio alvo. Passada a guerra, vamos saber o verdadeiro estrago que essas “batalhas do pavor”, conforme denominam os americanos, estão realmente causando junto à população civil iraquiana.

Em todos os tempos, acredito que não deve ter acontecido outra guerra mais impopular. E essa rejeição certamente se deve ao fato de que os americanos estão testando seus valiosos brinquedos, estimados em 350 trilhões de reais, em alguém sem a capacidade bélica compatível, e ainda por cima em desobediência aos tradicionais órgãos oficiais de deliberação sobre questões de guerra e paz, instituições convencionadas e embasadas no direito internacional, objetivando exatamente coibir os abusos e autoritarismo de países que tentem decidir sobre suas próprias vontades.

Além de não entender nada de previsão de futuro, muito menos de análise política - apesar de os analistas políticos dificilmente acertarem os prognósticos -, prefiro deixar que eles se enganem sozinhos. Bem, mas o que podemos perceber, mesmo na condição de leigos, é que os americanos estão tratando a questão do Iraque como se fosse uma coloniazinha desprovida de riquezas, sem interesses internos, sem ligação com o mundo árabe e que, depois de deposto o governo de Saddam Hussein, basta colocar um governo de transição, em seguida instituir um governo iraquiano e, para a alegria geral de todos, tudo voltar ao normal.

Acreditamos que a situação não é bem assim, mesmo porque, pelo ritmo dos acontecimentos, a opinião pública mundial a cada dia está se levantando contra a o governo Bush, a Liga Árabe está se mobilizando e, mesmo depois dessa vitória, que também não será tão fácil conforme os gringos esperavam no início, vão sobrar muitas arrestas e tanto os iraquianos quanto os árabes, mais os países que estão contra os Estados Unidos, não vão permitir a instalação de um governo de interesse exclusivamente americano, pois, no fundo, apesar de desconversarem, o interesse é no petróleo. Se o Iraque produzisse mandioca, mesmo com governantes ditadores e corruptos, o guardião da paz mundial jamais iria interferir.

E a essa altura dos acontecimentos, caindo míssil para tudo que é lado, toda a estrutura do governo iraquiano sendo destruída, prisioneiros de guerra sendo exibidos como troféus para causar comoção, mortos e feridos por todos os lados, o que se pode fazer a não ser esperar o desenrolar dos fatos? A segunda etapa vai ser a guerra diplomática - nessa nova investida, conforme já foi experimentada antes da primeira, os americanos podem cismar de não obedecer, mas, infelizmente, a sorte está lançada e esperamos que a vontade popular mundial prevaleça sobre a bomba-mãe.

* rafeso@zipmail.com.br

Amazônia
Colunas
Cotidiano
Expediente
Entrevista
Editorial
Estilo
Especial
Esporte
Política
Principal