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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 28 de março de 2003

Moradores do bairro Santa Quitéria pagam IPTU e não têm benefícios

Falta de pavimentação, água, esgoto e infra-estrutura faz moradores interditarem rua abandonada

Josafá Batista

Dezenas de metros de um matagal denso, alto e verdejante invade desordenadamente as ruas do bairro Santa Quitéria. Os moradores, prejudicados pela ausência da prefeitura de Rio Branco, resolveram fechar as ruas e exigir providências, mas o protesto, empobrecido pela chuva da manhã de ontem, acabou não tendo êxito. A comunidade promete manifestar-se novamente semana que vem.

Não são apenas os metros de matagais nas ruas que perturbam os ânimos dos moradores. Falta de tudo um pouco no Santa Quitéria, bairro criado há quase uma década e localizado ao lado da nova Estação de Tratamento de Esgoto do Saerb. Aliás, esgoto ali não há. Água também não. Também inexistem praças, calçadas ou uma simples capina mensal, formando um quadro aterrador de abandono, num bairro cujas casas pagam, em média, 70 reais de IPTU.

“Um dos nossos maiores problemas é a falta de esgoto. Sim, porque, como não tem rede do Saerb nós cavamos poços e usamos essa água. Quando chove, eles se enchem dos esgotos domésticos, que não têm destino certo também. É um problema sério, que revolta a gente e dá vontade de processar a prefeitura por danos morais, sabia?”, protesta o morador Josimar Monteiro da Silva, um dos mais antigos do bairro.

A manifestação fechou a entrada da rua Buriti, inviabilizando o já muito improvável acesso de veículos autorizados. Para Josimar, o fechamento da rua leva uma carga simbólica de protestos. Um símbolo perfeito. Em vez de pneus, latas velhas e fogo, geralmente usados em manifestações similares na capital, ele optou por galhos de arbustos e armações de paus. As amarras da madeira são improvisadas das sacolas e sacos que os moradores usam para sair de casa.

Chuva transforma aterro em lodaçal

Na última quarta-feira um fato inédito somou-se de forma contundente ao já insuportável quadro de desleixo público no bairro Santa Quitéria. Várias carradas de barro - um barro escuro, repleto de húmus e lixo - foi depositado na entrada da rua Buriti, a mesma que seria, depois, interditada.

Não há certeza sobre a identidade de quem arriou a carga no local, mas moradores alegaram à reportagem terem visto a logomarca da Secretaria Municipal de Serviços Urbanos (Semsur) em uma das caçambas. Dúvidas à parte, o aguaceiro que se abateu sobre a capital naquele mesmo dia transformou o local num lamaçal tão extenso quanto impenetrável, fato que crispou os ânimos dos moradores e alimentou a idéia de uma interdição ao local.

“Não tivemos outra alternativa”, disse um morador, que, por ser funcionário público municipal, preferiu não se identificar. “Ou a gente fazia esta manifestação ou teríamos que caminhar com sacolas pelo resto dos nossos dias, já que a prefeitura não entrou aqui até hoje e parece que nunca pretende entrar”.

O morador, como Josimar Monteiro, é um exemplo típico dos casos de abandono na periferia de Rio Branco. Carpinteiro, pai de três crianças, ele teve esta semana que correr à prefeitura para livrar-se da penhora de seus bens. O motivo: jamais pagou o IPTU. A explicação:

“Aqui nunca teve nada. A minha rua foi eu que abri, vários poços fui eu quem furou, os esgotos a céu aberto ajudei a fazer de enxada e também fui à prefeitura, muitas vezes sozinho, pedir benefícios. O município, esses anos todos, sequer mandou uma máquina até aqui”, reclamou.

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