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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 28 de março de 2003

PT vai endurecer

Bons tempos aqueles, para o PT, em que uma discussão podia rachar a bancada mas nunca uma votação. O próprio presidente Lula deu alguns telefonemas ontem, tentando garantir votos para aprovar a emenda constitucional em pauta, cuja votação foi providencialmente adiada a pedido do PPB. Chegou a hora de endurecer e o PT o fará fechando questão sobre a matéria.

Quem votar contra, que enfrente as conseqüências. Elas podem começar com uma advertência, chegar a um processo disciplinar e terminar em expulsão.

Os chamados radicais, que fizeram muito barulho ontem, não foram os únicos responsáveis pela situação que recomendou o adiamento, pedido pelo líder pepebista Pedro Henry num primeiro gesto de colaboração com o PT. Àquela altura, Leonel Brizola já instruíra o PDT a votar contra a emenda que regulamenta o artigo 192 da Constituição (que no futuro, sabe-se lá quando, pode levar à aprovação da autonomia operacional do BC). A parte do PSB insuflada pelo ex-governador Garotinho também se rebelara, juntamente com alguns do PCdoB.

Mas tal confusão estabeleceu-se, diz a deputada Maninha (PT-DF), também por erros de condução. Na véspera, em reunião da bancada, o líder Pellegrino fora autorizado a negociar termos da emenda e, mesmo não tendo conseguido o acordo desejado com a oposição, a votação foi mantida. Isso não fora combinado, diz ela. Não fora, mas no governo não dá para ficar reunindo a bancada a toda hora para deliberar.

— Vamos reunir a bancada na terça-feira e ficará claro que a unidade nesta matéria será um imperativo. No PT o fechamento de questão sempre foi uma regra e não será agora que vamos abdicar disso — diz o secretário-geral, Jorge Bittar.

A chamada esquerda petista está certa de que o rolo compressor vem aí e não terá como resistir. Não devem sujeitar-se os que parecem estar buscando algum martírio político no confronto, notadamente os deputados Babá, Luciana Genro e Lindberg Farias.

Agenda esquecida

Fez-se uma para a economia durante a campanha. Estão em curso as cobranças sobre as promessas de campanha na área social. Fome Zero, prioridade para a segurança, Primeiro Emprego, cotas raciais estão em discussão. Lula falou muito nos deficientes mas o governo ainda não propôs nada nesta área, diz o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). É cedo ainda, admite, mas enquanto isso o Senado dará sua contribuição. Ele e o senador petista Flávio Arns garantiram a criação e serão respectivamente relator e presidente de subcomissão sobre o assunto da Comissão de Assuntos Sociais do Senado.

Já temos uma vasta legislação para garantir os direitos dos portadores de necessidades especiais, e elas vão das questões arquitetônicas à profissionalização; do fornecimento e da modernização de equipamentos — como cadeiras de rodas, ortoses e próteses — à adoção de linguagem especial para deficientes auditivos e visuais. A subcomissão propõe-se, diz Azeredo, a sistematizar essas leis e apresentar propostas que facilitem sua adoção.

Depois do filme

Depois da projeção de “Carandiru”, filme de Hector Babenco baseado no livro de Drauzio Varella, o presidente Lula entrou pela noite conversando com seus convidados de anteontem. Tanto o filme como a realidade desses dias o inspiraram a falar muito sobre as origens da violência e da criminalidade, lamentando sobretudo que a miséria e a desagregação tenham transformado as famílias pobres em berçário da delinqüência. Drauzio lembrou a ausência do planejamento familiar: a taxa de natalidade caiu na classe média e na elite mas continua altíssima entre os mais pobres. Uma lei garante a laqueadura pelo SUS a mulheres que tenham mais de 22 anos e dois filhos. Mas não pegou, o SUS a desconhece.

Cabo de guerra

O ex-governador Anthony Garotinho deflagrou a luta interna para controlar o PSB, de olho na candidatura a presidente em 2006. Já controla nove diretórios mas teve barrado pelo grupo histórico ligado a Miguel Arraes seu mutirão para filiar novos seguidores.

Secretário-geral do partido, o deputado Renato Casagrande (ES) diz que o PSB quer conservar Garotinho em seus quadros, desde que respeitados o programa, a disciplina e a lealdade. No futuro, o PSB pode perfeitamente discutir sua segunda candidatura a presidente.

— Não agora. Primeiro porque a hora exige apoio ao governo que está começando. Depois, qualquer candidatura passará ainda pela eleição municipal.

O PFL também endurece. Provocada pelos deputados Roberto Brant e Carlos Melles, a executiva do partido, reunida por Jorge Bornhausen, adiou a convenção estadual de Minas, marcada para o dia 4 de abril, que devia reeleger Clesio Andrade presidente regional. Na prática, uma intervenção. Clesio apoiou Lula na campanha.

TERMINOU em juras de amor e fidelidade entre PTB e PT o jantar que reuniu cardeais dos dois partidos anteontem na casa de José Carlos Martinez. Presentes quatro ministros. Dirceu, Agnelo Queiroz, Ciro Gomes e o petebista Mares Guia, do Turismo, que anda encantado com o presidente Lula. Ciro (PPS) e Agnelo (PCdoB) não são petistas nem petebistas mas estavam lá. Apadrinhando.

Tereza Cruvinel


cruvinel@bsb.oglobo.com.br
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