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Rio Branco - Acre, sábado, 29 de março de 2003

O Acre pede paz

Cerca de 10 mil acreanos caminharam pelo fim da guerra

Tatiana Campos

Passavam um pouco das 8 horas, a multidão vestida de branco e concentrada em frente ao Colégio de Aplicação, no centro, agitava bandeiras e gritava palavras de ordem. Esperava a hora de dar início à Caminhada Pela Paz e Contra a Violência, que seguiria rumo à Gameleira. No palanque improvisado, os ativistas assistiriam a um culto ecumênico e jogariam flores no rio Acre em memória das vítimas da guerra entre os Estados Unidos e o Iraque.

Em meio a multidão, o pequeno Jeferson Alencar, de 11 anos, pedia a uma das manifestantes, com um pote de guache branca à mão, para pintar em seu rosto a palavra que o mundo inteiro grita e os “donos do planeta”, George Bush Junior e Tony Blair se recusam a ouvir: “paz”. Ele faz a 5ª série no Reino Encantado. A reportagem perguntou se sua professora o acompanhava. Ele disse que não. “Ela não quis trazer. Vim a pé com um amigo.”

Diante de sua determinação, o garoto então foi indagado por que fez tanta questão de caminhar pela paz. A resposta veio com voz de quem quer um futuro sem as marcas da destruição: “Ah, essa guerra não tá com nada. Quando eu vejo pela televisão as bombas explodindo e caindo sobre os prédios eu sei que ali tem um trabalhador, que é pai, e que vai deixar os filhos órfãos”. Jeferson sorriu, acenou com a mão e continuou caminhando.

Mais adiante, uma senhora com duas rosas “meninas” na mão segue a multidão, determinada a jogá-las no rio Acre em homenagem ao pai, José Assef, assassinado durante a luta pelos direitos humanos dos agricultores. Maria Helena Assef, 57, funcionária pública comenta: “Estamos vivendo um momento de muita violência, temos que buscar a paz em cada coração, gesto, pensamento”.

Puxando a multidão, a corrente era formada por lideranças políticas, o governador Jorge Viana, o prefeito Isnard Leite, empresários, pastores, líderes religiosos entre outros.

Sirío-libaneses preocupados com a Amazônia

O sentimento de repúdio à iniciativa de George W. Bush, em parceria com o primeiro ministro britânico Tony Blair, e o desejo que a guerra, considerada estúpida pelos ativistas, cesse o mais rápido possível uniam a grande massa de ativistas, composta por milhares de pessoas.

Gente de todas as religiões, presbiterianos, batistas, católicos, daimistas. Militantes de todos os partidos, sindicatos, Ong´s. Todos se uniram para dizer ao mundo que os acreanos também são contra as ofensivas militares americanas à cidade situada às margens do Rio Tigre, o berço da civilização, e que já foi devastada pelos Estados Unidos, sob o comando de George W. Bush, o pai, durante a Guerra do Golfo.

Maria Abi Khalil, da comunidade sírio-libanesa, se uniu à massa de ativistas também para dizer não “A essa guerra injusta, deflagrada com o único objetivo de tomar as riquezas iraquianas”. Maria alertou: “Daqui a pouco chega a vez da Amazônia. Os Estados Unidos pensam que são os donos do mundo e não é difícil eles tentarem tomar posse das nossas florestas também”.

Lia-se num cartaz pregado nas costas de um ativista: “Guerra mata, destrói vidas e sonhos”. Um grupo da Secretaria Extraordinária da Juventude vinha logo atrás segurando uma faixa de sua representação e gritando palavras de ordem: “Chega de bomba, chega de ataque, fora imperialistas do Iraque!”, intercalando com “Pela vida e pela paz, guerra nunca mais!”.

Pluralidade popular e religiosa
marca o “palanque da paz”

A concentração da Caminhada Pela Paz aconteceu em frente ao Colégio de Aplicação. A multidão, composta por cerca de 10 mil pessoas, segundo estimativas do Corpo de Bombeiros caminhou em direção à Gameleira, no Segundo Distrito, onde estava montado o “Palanque da Paz”, chamado assim porque nele não estavam políticos de um ou outro partido, religiosos desse ou daquele credo, sindicatos dos patrões ou dos empregados.

Todos ali em cima do palanque, segundo o deputado comunista Edvaldo Magalhães, eram apenas pessoas pedindo o fim da violência no mundo e representavam todas as correntes ideológicas que tinham em comum um único ideal: a paz no mundo. “O Acre pela primeira vez está unido. Estado, município, alunos e religiosos estão juntos por um objetivo. Nós somos o primeiro Estado da Federação a fazer isso”, disse Magalhães.

Imagens de Bush e bandeira
norte-americana são queimadas

Enquanto os ativistas chegavam à Gameleira, sob o som do hino imortalizado por John Lennon um militante da União Jovem Socialista (UJS) dançava “Imagine” abraçado ao boneco de Bush. O mesmo que seria queimado mais tarde junto com a bandeira americana. Ainda na concentração da caminhada os jovens comunistas gritavam “Ô Bush, chega de ataque! Tire suas patas do petróleo do Iraque”.

A paz depende da união e a luta por ela sempre foi importante. Mas, segundo o militante petista André Kamai, as grandes preocupações agora são as vítimas da guerra, os inocentes que estão perdendo a vida sem motivo algum e as conseqüências que as ofensivas americanas trarão.

“Estamos aqui nos solidarizando com as vítimas da guerra. São eles quem têm que dizer se querem ou não o governo de Saddam Husseim no Iraque, não uma nação como a de Bush e Blair”, disse Kamai.

Rosas para as vítimas

Antes do Ato Ecumênico realizado no “Palanque da Paz”, os ativistas deram as mãos e cantaram “Marcas do que se foi”. O padre Gabriel leu uma carta escrita pelas Irmãs Dominicanas que estão no Iraque: “Nós valemos menos que os animais, porque o senhor Bush defende o direito dos animais, os nossos não. Ele diz estar convencido de que não vai causar danos aos iraquianos. Será que ele está jogando flores em nós?”.

A irmã Ana Lúcia segurava uma rosa branca. Desceu a encosta da Gameleira com certa dificuldade e atirou sua flor ao rio. “É para os mortos dessa guerra, pelos quais eu rezo todos os dias. Peço para que eles intercedam junto a Deus para que esse massacre possa terminar logo”, disse.

Governador e prefeito se unem
pedindo mais paz e tolerância

No palanque vestindo com uma camisa branca escrita “Paz”, o prefeito de Rio Branco, Isnard Leite fez suas as palavras do mago Paulo Coelho, que ocupa a cadeira número 21 da Academia Brasileira de Letras, ressaltando que vale a pena caminhar contra a guerra e dizer não à violência: “Obrigado, Presidente Bush por ter conseguido unir milhões de pessoas em todos os continentes por uma idéia contrária à sua. Sem o senhor não teríamos conhecido nossa capacidade de mobilização”.

Mobilização - O governador Jorge Viana comentou que o povo não suporta mais abrir os jornais e ligar a televisão e assistir as cenas dos massacres da guerra. Ressaltou que o ato foi um pequeno chamamento organizado em dois dias ao qual uma multidão atendeu.

“Pode ser que alguém diga que não vale a pena nos mobilizarmos e que essa caminhada não tem importância. Mas, no mundo todo estão acontecendo movimentos como esse e uma hora nós poderemos gritar tão forte que eles ouvirão e se sentirão obrigados a cessar as ofensivas”, disse.

Viana convidou a multidão para uma nova caminhada, que deve acontecer na próxima sexta feira. “Quem sabe com gestos assim, que estão ocorrendo em várias cidades, possamos paralisar o mundo. Não vamos deixar ninguém em casa, crianças, idosos, trabalhadores, vamos todos pedir paz novamente. Convocamos todo o Acre para se manifestar em favor da paz”, pediu o governador.

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Imagens da marcha pela paz em Rio Branco
Fotos: Marcos Vicentti