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Rio Branco - Acre, domingo, 30 de março de 2003
Juliana, anos depois

Archibaldo Antunes

Ah, Juliana, você nos bailes da escola era a coisa mais linda do mundo, os cabelos encaracolados caindo sobre os ombros e o vestido esvoaçando no salão para inveja das outras moças e deleite dos rapazes em volta, parecendo todos uns lobos hipnotizados pela exuberância da caça. Eu era um lobo solitário naquela época, muito mais solitário do que agora, um jovem tímido e feio que preferia o silêncio dos livros à algazarra dos jogos escolares, e talvez por tudo isso você nunca se tenha dado conta da minha presença arredia, nem sequer me dirigiu um olhar daqueles que só os mais afortunados podiam ganhar. Já faz tantos anos agora, mas lembro os detalhes como se fosse ontem, o sentimento brotando dentro do peito como capim, forte como capim, resistente como capim em terreno pedregoso, rompendo uma terra ressequida e dura, o pensamento sempre longe das aulas, longe dos livros que aos poucos foram sendo abandonados no quarto, o corpo mais magro agora que não conseguia comer. Meus pais notaram minha magreza, Luiza minha irmã dizendo que era doença de amor, e a discussão então instalada à mesa do almoço, a surpresa diante daquela reação exaltada, logo você, André, um rapaz tão calmo. O médico pediu exames e os exames nada revelaram de uma alma que sofria pela Juliana da escola, uma Juliana que era segredo só meu, já que nem o Geléia e nem o Afonso sabiam das dores que eu sentia por você, já que esse mundo que parecia parar pra te ver não via que alguém ali sofria barbaridades por sua causa.

Ah, Juliana, já faz tantos anos isso, mas como fica marcado na gente, o período escolar acabou e você sumiu, me disseram que foi estudar em outro lugar, perto da praia, e então eu ficava deitado na cama pensando como seriam lindos os seus longos cabelos encaracolados ao vento, emoldurados por montanhas e gaivotas. A verdade é que eu nem sabia se as montanhas existiam mesmo, mas era assim que te via em meus sonhos, uns sonhos que eu sonhava acordado, a luz acesa dentro da noite, escoando por debaixo da porta até que alguém vinha dizer que já estava na hora de dormir, de manhã haveria aula de geometria na faculdade. Anos e anos o jovem lobo arredio pensando na caça inacessível, no fundo satisfeito apenas com a imagem que lhe havia ficado de você no salão, ainda que tão disputada pelos melhores partidos, mas ali no salão a dançar como que sobre a dignidade de todos. E quando você foi embora eu senti como se me tivessem tirado algo muito importante, e esse é o sentimento mais pungente que pode haver no mundo, mais pungente até do que a perda definitiva, um sentimento escroto de que estão tirando da gente o que a gente não tem.

Ah, Juliana, então eu ficava com o Djavan na vitrola até altas horas, ele que sabia tão bem definir o que me ia por dentro, e trancado no quarto eu lia até a vista escurecer e os pássaros anunciarem lá fora os primeiros sinais da alvorada. Ia então pra aula de cálculo achando que a vida de alguns é muito besta, e a minha mais besta do que a de todos, porque eu ficava pensando em alguém que morava perto da praia, e que provavelmente tinha um namorado bonito que a levava pra passear de carro nas noites quentes do litoral - alguém que sequer sabia que tão longe dali havia um sujeito querendo o impossível.

Em tudo isso, Juliana, eu pensei hoje quando te vi naquela loja de discos, acompanhada pelo homem do paletó azul marinho e pelo casal de meninos, ambos com os cabelos cacheados como o seu, e então passei a te olhar de soslaio, agora mais bela, de uma beleza madura que lhe cai ainda melhor. Lembrava de tudo isso enquanto o homem do paletó se afastava com as crianças e você ficou vendo os discos de jazz e me fazendo pensar que tem bom gosto pra música, eu que quase nada pude saber sobre você em todos esses anos, sentindo agora uma vontade quase irresistível de contar tudo: as noites de insônia, as dores no estômago, a tristeza suando na pele, a vida tão vazia de sentido sem você.

Mas há coisas do passado nas quais a gente não mexe, Juliana, de nada adiantaria eu te contar histórias de um jovem que eu já não sou mais, e que amava uma garota que já não é você, por isso resolvi deixar aquele jovem em seu canto, ocupado com um amor que a gente acha que só existe no cinema.

Por pensar, Juliana, que a vida da gente é tão dolorida mas também engraçada, e por pensar que quase tudo que nos acontece são mistérios indecifráveis - por pensar assim foi que deixei o passado em paz e saí da loja sem ter comprado o último lançamento do Djavan.

*Cronista/ark30antunes@bol.com.br

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