
Medicina da floresta
Agentes de saúde das comunidades amazônicas acreanas reivindicam a construção de um laboratório
Há dois anos, em Xapuri, o menino Jackson apresentou uma doença que ninguém no seringal em que morava conseguiu identificar. Os pais da criança procuraram o agente de saúde Artemildo Ribeiro da Silva, que pediu exames da medicina tradicional para diagnosticar o caso. Ao descobrir que a mazela era uma trombose, remédios fitoterápicos e homeopáticos foram preparados para curar o pequeno. Esse foi um dos casos mais marcantes na carreira de Artemildo, que há oito anos se dedica a tratar as famílias do Seringal Filipinas, Colocação Terra Alta, no município conhecido como a “Princesinha do Acre”.
Artemildo aprendeu a trabalhar com fitoterapia e homeopatia através do Centro de Trabalhadores da Amazônia (CTA), que na época objetivava capacitar pessoas que pudessem atender nos postos de saúde e nos seringais do Alto Acre, por meio da prescrição de remédios fitoterápicos . Os agentes capacitados recebiam toda a orientação e livros necessários para prestar atendimento às famílias. Eles diagnosticavam as doenças e preparavam os remédios.
Artemildo relembra que na época os dados apontavam que cerca de 70% das mazelas foram curadas pela medicina alternativa no município.
“Esse trabalho durou 12 anos, terminou quando o CTA se voltou para o manejo florestal sustentável. Nós ficamos esquecidos e sem apoio, tentamos cobrar auxílio do Centro mas nosso movimento não era muito organizado e não conseguimos nada. Alguns agentes continuaram trabalhando outros conseguiram ser contratados para os postos de saúde. Há três anos os postos estão fechados por falta de condições”, explicou Artemildo.
Governo vai estimular remédios da floresta
O grande sonho de continuar tratando às doenças da comunidade de forma alternativa diz Artemildo que foi por água abaixo, pois grande parte dos agentes que trabalhavam na esperança de serem remunerados foram praticamente obrigados a se lançarem como agentes comunitários. E restaram poucos realizando o rico trabalho. Um deles é Artemildo que trabalha por conta própria fabricando os remédios e vendendo a preços acessíveis (na maioria os preços variam entre 5 e 10 reais) para garantir o sustento da família.
“Eu fui um dos muitos que não quis ser contratado como agente comunitário pela minha paixão em trabalhar com os fitoterápicos e homeopáticos. Nosso objetivo agora é estruturar um laboratório. Não temos material para trabalhar nem condições de compra-los. Precisamos de recipientes para os remédios, água destilada, cápsulas”, comenta o agente.
Na semana passada Artemildo veio até Rio Branco para se reunir com especialistas da Fundação de Tecnologia do Acre-Funtac, o Adjunto da Solidariedade, Ibama o e doutor Paulo Clay, com a interlocução do gabinete do deputado federal Nilson Mourão (PT).
“Vamos trabalhar a minuta de um projeto para que esse trabalho que vem sendo desenvolvido na floresta tenha continuidade e seja criado o laboratório. Nossa intenção é transformar o projeto em política pública para que mais pessoas possam ter acesso a essa medicina. Um das intenções é profissionalizar os agentes para que tenham apoio e sejam remunerados por sua profissão”, disse o assessor do gabinete do Nilson Mourão que presta assistência às comunidades rurais.
Fitoterapia e homeopatia
Quais são as diferenças entre uma forma e outra da medicina alternativa? Artemildo explicou que a homeopatia pode ser produzida a partir de qualquer matéria da natureza, como plantas, abelhas, formigas, cascas de árvores e até mesmo leite de cadela.
“Ela procura tratar as doenças através da cura pelo semelhante. Um problema é curado por uma planta, por exemplo, que vai provocar uma doença parecida a que o enfermo apresenta”, disse o agente. Já a fitoterapia cura apenas pelas plantas, e para cada doença há uma planta.
Em 91 Artemildo viajou até o Estado do Ceará, onde conheceu um departamento de química em Fortaleza e o horto medicinal da cidade de Pentecostes, comandados pelo doutor Abreu Matos, um dos grandes nomes da medicina alternativa no Brasil e autor de vários livros, entre eles um que o agente acreano não tira de sua pasta.
Artemildo ressalta a importância de seu trabalho para os povos da floresta: “Hoje a maioria das pessoas que são atendidas pelos agentes comunitários são encaminhadas a fazer tratamento na capital. Elas vêm, passam necessidade, fome, enfrentam problemas com a hospedagem desnecessariamente. 70% das mazelas enfrentadas nas comunidades são resolvidos pela homeopatia e fitoterapia. Em 8 anos que realizo este trabalho apenas 8 pessoas precisaram procurar a medicina convencional, eram casos mais complicados”, conta o agente de saúde.