
José Cláudio Mota Porfiro *
Em alguns dos próximos números desta coluna, deitarei verbo em homenagem e acerca do meu bom irmão Raimundo Mota Porfiro, um atleta por excelência, em vista tão-somente do vigor físico e da falta de medo.
Esta série de crônicas terá por título “As Aventuras do Motinha no Mundo da Bola”. É claro que não tenho a petulância de querer alçar o meu irmão à categoria de grande jogador de futebol. Não farei como muitos que correm atrás deste espaço com o intuito de fazer parte do “Memorial do Craque”, mesmo porque o Motinha nunca foi craque. É xapuriense, conviveu no meio de gente da estirpe de Curica, Mário Mota, Hermínio, dentre tantos, mas, como o Joraí, sempre gostou mesmo de uma boa dividida com o pé alto.
Sem querer ironizar tanto, mas já ironizando, lembro-me de quando garoto o Motinha gazetava aula para ir à pelada com a finalidade apenas de imitar dois grandes ídolos seus: o Chicão, bigodudo, ex-Santos, e o Batista, ex-Inter de Porto Alegre. Na volta à casa paterna, ele chegava dizendo que fizera e acontecera usando e abusando da tesoura voadora, sua arma mais eficaz em meio à refrega; sim, porque, para ele, cada partida era uma batalha e, segundo os seguidores do rude método, do pescoço para baixo será sempre canela. Depois, quando eu falava que gostava de ver o Toninho Cerezzo jogando, ele dizia logo que aquele não era futebol para homem.
O grande sonho do Motinha era tornar-se um astro do futebol ao nível, no mínimo, do Zico ou do Roberto Dinamite. Pior é que o nosso pai dava a maior corda e o “negão” pegava. E lá se ia ele para a escola, onde tinha pouca desenvoltura no trato com livros e cadernos. Maltratava-os bastante.
Um dia, em Xapuri, o Zeca da Persília, meu primo, perguntou ao Motinha se eu não ia ao treino. Ao que ele prontamente respondeu: “Deixa o Zé em casa, ele nasceu para estudar; eu não, meu destino é a bola.” O rapaz era realmente fissurado.
Vieram depois tempos ásperos em que a família teve que adaptar-se à realidade da nossa nova vida já em Rio Branco, morando na Cadeia Velha, onde ainda hoje em dia o Motinha, já quarentão, garante bater um bolão do tamanho de uma jaca. Diz ele! Depois eu conto mais...