
Raimundo Paraná
Coordenador de pós-graduação que forma professores para o Estado classifica curso de medicina como modelo para o país
Romerito Aquino
O médico e professor Raimundo Paraná é todo entusiasmo, empolgação e satisfação quando fala das potencialidades e da importância do curso de Medicina do Acre no contexto da Amazônia e do país. Segundo ele, os profissionais formados nessa faculdade serão médicos diferentes, “muito mais preparados para trabalhar na comunidade, pois vão poder interagir e entender melhor o que a população está sentindo”.
O otimismo do professor Raimundo Paraná tem razão de ser. Afinal, ele é o coordenador do curso de pós-graduação da Universidade Federal da Bahia que, nos últimos anos, vem preparado médicos-professores para lecionarem no curso de medicina do Estado.
Nesta entrevista, o professor Paraná fala da excelência do curso de medicina em formar médicos especializados em doenças comuns na comunidade, em interagir com os problemas da sua população, em promover uma medicina social bem distinta daquela que é praticada pelos médicos formados em escolas tradicionais do país, que se preocupam apenas com a tecnologia de alta complexidade para atender aos pacientes.
Nas escolas tradicionais, os alunos de medicina ficam entre quatro paredes dos grandes laboratórios e hospitais terciários, não vão até à comunidade, não aprendem medicina com ela. No Acre, o aluno do curso de medicina passa todo o primeiro ano junto à comunidade, onde ele, como futuro médico, vai realmente resolver os problemas de saúde da população.
Até o final deste ano, o curso de pós-graduação coordenado pelo professor Raimundo Paraná estará formando a segunda turma de professores que irão disputar o concurso para lecionar no curso de medicina do Estado. Uma terceira turma será formada até o final do próximo ano. Veja a integra da entrevista com o doutor Raimundo Paraná.
O que o senhor destaca no programa de formação de educadores de medicina para o curso de Medicina do Acre?
O destaque desse programa do Acre ocorre em muitos aspectos porque está se criando algo que está ficando no próprio Estado. O que está acontecendo no Acre é que toda essa formação de recursos humanos e toda essa produção científica estão sendo realizadas em benefício do Estado. Os alunos titulados estão produzindo cientificamente, estão colocando o Acre no contexto da produção científica do Brasil. Eles serão automaticamente os mestres que deverão ocupar lugares na Faculdade de Medicina. Há todo um cuidado que haja o benefício imediato. As áreas de pesquisa estão restritas a doenças prevalentes na Amazônia, que são a hepatite viral, a leshimaniose, as microbacterioses e os agravos da saúde do trabalhador.
O médico formado no Acre será diferente?
O médico formado no Acre vai ter mais instrumentos para melhor julgamento crítico e para uma avaliação melhor dos avanços da medicina. O futuro médico vai ter uma capacidade maior de difundir o seu conhecimento e de criar conhecimento, pesquisando, investigando.
O que a população pode ganhar em termos de melhorias de saúde pública?
Primeiro, o Estado ganha um profissional mais qualificado, melhor professor para a escola médica, que irá formar melhores médicos. O Estado ganha melhor conhecimento dos seus agravos da saúde regional. O médico terá mais senso crítico, maior lucidez, pois vai ter mais acesso à literatura médica. Ele vai ter mais instrumentos para discernir na literatura médica sobre o melhor tratamento, melhor diagnóstico. Vai ter também instrumentos para avaliar isso de maneira muito mais clara. E vai ser um indivíduo muito mais independente na sua vida profissional. Então, isso tudo se reveste no melhor atendimento à saúde pública.
O médico orientar a população para a prevenção da doença também vai ser importante?
Um dos pontos fortes do curso de medicina é a formação em epidemiologia química, que não é só conhecer o agravo à saúde, mas é prevenir, é evitar que o indivíduo fique doente e se ele ficar doente, evitar que essa doença o leve ao hospital. É um trabalho diferente da assistência. A formação na epidemiologia química por si só dá instrumentos ao médico para ele agir na prevenção.
Além disso, o que mais falta para melhorar o atendimento à saúde?
O que falta no Brasil como um todo, para que isso funcione, é um grande investimento em educação pública. Na verdade, a prevenção passa pelo acesso aos meios de comunicação e também ensinando o básico na escola. Outra carência do país é a melhor distribuição de médicos. Há uma grande concentração de médicos no eixo Sul-Sudeste e mesmo nesse eixo há uma concentração nos grandes centros urbanos. Isso é uma distorção histórica, gerada por uma série de coisas, mas principalmente porque o nosso modelo pedagógico de ensino médico é um modelo errado.
Em que a escola de medicina do Acre se distingue das escolas das demais regiões do país?
O modelo do Acre é totalmente peculiar em relação às escolas tradicionais do Brasil. O médico formado nas escolas tradicionais, nos hospitais terciários, está habituado à tecnologia e a ver pacientes de alta complexidade. Ele não vai à comunidade, ele não aprende medicina na comunidade, que é onde ele resolve realmente os problemas. O paciente que chega ao hospital de alta complexidade é a ponta do iceberg. É o paciente que já está no estágio do especialista.
Como será o médico formado na escola de medicina do Acre?
O modelo do Acre, que é reforçado nesse curso de mestrado, é um modelo da relação do aluno com a sua comunidade. O primeiro ano da Faculdade de Medicina do Acre o aluno passa todo na comunidade, no programa de saúde da família, estudando medicina social. Aí sim, ele vai entender o que é que se passa naquela comunidade, qual é a doença que é prevalente, o porque daquele indivíduo está doente, qual é a relação do ambiente com a doença desse indivíduo.
O que representa isso para o futuro médico?
O caso do Acre é o grande passo para deixar o médico mais seguro, para ele partir para as pequenas comunidades. O médico formado num hospital universitário, terciário, cheio de tecnologias, resiste a ir para uma cidade pequena. Ele se sente inseguro para tratar coisas simples. Ele vai tratar uma doença cardíaca gravíssima, ele vai salvar o paciente, mas não vai saber tratar uma infecção de garganta, uma infecção de pele ou uma picada de cobra. Isso ocorre porque na formação dele não teve nenhuma inserção na comunidade. No Acre, no entanto, a coisa está sendo feita diferente porque a Escola de Medicina do Estado é uma escola muito mais voltada para uma medicina social.
O médico a ser formado no Acre vai ser mais humano, então?
Não diria mais humano, mas ele vai ser um médico muito mais preparado para trabalhar na comunidade, mais auto-suficiente para utilizar menos os recursos tecnológicos. Ele vai interagir e entender melhor o que a população está sentindo. Essa é justamente a idéia do programa de saúde do Brasil, que é inserir o médico na comunidade. O sucesso dos grandes programas de saúde da família do mundo, e Cuba é um exemplo disso, é a inserção do médico na comunidade.
Quer dizer que o ensino de medicina no país está distorcido?
Enquanto estivermos formando hiper-especialistas em escolas altamente complexas e em hospitais de alta complexidade, sem que o aluno passe pela comunidade, pelo simples, pela hierarquização do atendimento à saúde, do mais simples, que é o mais comum, ao mais complexo, que é o menos comum, essa distorção vai continuar. É preciso entender que 70% dos problemas médicos são resolvidos na comunidade, não precisa ir para o hospital. O médico resolve ali, ele com o estetoscópio e o paciente. Os outros 30% vão se dividir em cuidados intermediários e cuidados complexos.
Do ponto de vista científico, quais os cuidados que se devem ter com a biodiversidade da Amazônia?
A biodiversidade da Amazônia é única.O que se deve garantir é o que está sendo feito lá. Todos têm interesse em trabalhar na Amazônia, fazer investigação na Amazônia. Mas o que deve garantir é o que o governo do Acre está garantindo. Ou seja, quem vai trabalhar na Amazônia, quem vai pesquisar na Amazônia tem de deixar o resultado de sua pesquisa como patrimônio da região. Não se pode escancarar dizendo que a Amazônia está aberta para pesquisa de novas doenças, de novos agentes, de novos vírus, não pode ser assim. Você tem que criar um ordenamento e para que se tenha esse ordenamento você tem que criar uma massa crítica local, tem de ter pessoas no local que tenham discernimento, tenham formação consolidada e a capacidade de buscarem uma parceria para uma transferência tecnológica eventualmente ou uma parceria para uma complementaridade se você não tem condições para desenvolver uma pesquisa como um todo. Mas se deve garantir que a âncora está lá. Esse é o ponto extremamente positivo do que está sendo feito no Acre.
O modelo do Acre pode servir então para muitas regiões do país?
O importante é que estamos desenvolvendo todos esses recursos em parceria com o governo do Estado do Acre e o resultado disso tudo está ficando no estado. Não é um modelo exploratório. É um modelo de desenvolvimento, de transferência de saber e de tecnologia. É um modelo que deve ser utilizado no Brasil como um todo porque se quisermos diminuir os contrastes regionais nós temos que atuar assim, com parceria, com complementaridade e com esse tipo de responsabilidade. Ninguém deve ser predador, não deve conquistar para si uma vantagem qualquer.