
Intolerância e fanatismo na religião
Especialistas falam sobre o controle mental que exercem os líderes das seitas e como elas se organizam
Josafá Batista
Desempregada depois que um tratamento contra a hepatite “C” lhe obrigou a percorrer, sem êxito, diversos hospitais à procura do melhor tratamento, a ex-cozinheira industrial Maria Astrogilda Ângela de Lima, 56, moradora de um cortiço no bairro Seis de Agosto, apelou para os céus. Converteu-se à Igreja Pentecostal “Deus é Amor” há cerca de dois anos e começou a cumprir fielmente a extensa lista de obrigações morais imposta pela organização. Mas seus problemas, longe de desaparecerem, acabaram se multiplicando ainda mais.
Para expurgar o mal, Maria Astrogilda foi obrigada a pagar 10 reais para participar da Ceia do Senhor (a versão protestante da Eucaristia católica), além de doar à denominação 10% de qualquer renda que obtivesse e de adquirir uns cupons, que, nas palavras do pastor, dariam direito à cura progressiva - desde, claro, que o valor de cada um (10, 15, 50, até 100 reais) fossem pagos, integralmente, e num prazo estipulado.
“Se eu não pagasse o cupom, a ‘bênção’ não vinha. E não veio mesmo, porque na maioria das vezes não tinha dinheiro para pagar, sequer, a minha ida à igreja. Por causa disso sempre fui muito humilhada. Os pregadores dizem que Deus não abençoa os covardes, que os covardes não vão para o céu. Me sentia horrível. Há casos de pessoas que tomam dinheiro emprestado para pagar os cupons, e, quando a ‘bênção’ não ocorre, o pastor diz que faltou a fé”, explica Maria Astrogilda.
O caso da ex-cozinheira industrial, escabroso, integra um fenômeno que a sociedade acreana há muito aprendeu a tolerar: o fanatismo religioso. Em nome da fé, homens e mulheres tolhem-se da liberdade pessoal para submeter-se aos mais absurdos dogmas e doutrinas, sustentando uma milionária indústria religiosa com sérios prejuízos aos bolsos e até às próprias vidas.
A guerra em nome de Deus
De um lado, mísseis Scud levam uma necessária mensagem de conversão à liberdade baseada na suposta democracia cristã (“a salvação é pela graça, mediante o livre-arbítrio”). De outro, baterias antiaéreas iraquianas respondem com a paixão obcecada dos que se consideram “geração de Allah” (“não há Deus além de Allah”). Quem possui a razão?
Para o filósofo João Reis, a tentativa de patentear o divino, levada a efeito por cada cultura mundial, é o gatilho da intolerância moderna. “Se cada religião é o espelho cultural de um povo, é também um mecanismo de opressão social à medida que limita a salvação ou o princípio divino à sua própria cultura. Isso, além de desumano, é irracional, já que todas as religiões possuem lendas e livros e reivindicando o sustentáculo divino como o agente fundador”, explicou.
E a guerra? Uma conseqüência dessa mesma intolerância com a cultura alheia. “Nem mesmo a igreja católica, a mais intelectualizada das religiões modernas, admite que outra religião possa ser a ponte para a salvação eterna. É um privilégio que as igrejas reservam somente para si. Daí a intolerância, porque os outros são ‘impuros’ ou ‘infiéis’”, explica o sociólogo José Mastrângelo. É em nome desse exclusivismo salvífico que se mata e se morre.
Nem mesmo as mais ambiciosas pesquisas científicas conseguiram descobrir, até hoje, a “religião original” da humanidade. Pesquisas levantaram, por exemplo, que o Judaísmo e o Hinduísmo nasceram, respectivamente, na Palestina e na Índia, há 5 mil ou 6 mil anos. Mas registros fósseis indicam que havia uma explicação “divinizada” da realidade antes mesmo disso.
“Os achados fósseis indicam que desde a pré-história o homem tem algum tipo de deus ou deuses, que variam conforme a região do globo. É muito provável que jamais houve uma ‘religião universal’. Se ela existiu foi bem no início da existência humana, fragmentando-se em centenas com o passar dos milênios”, diz o paleontólogo Alceu Ranzi.
Cristianismo, capitalismo e ditaduras políticas
A abertura da democracia na América Latina abriu espaço para a convivência harmônica de várias religiões, procedentes de várias regiões do globo. Da apoteótica Igreja Universal do Reino de Deus à introspectiva Seicho-No-ie, todas buscam, ao seu modo, oferecer uma explicação divina para os percalços da existência e também uma origem sobrenatural para a vida na Terra.
Como em todas as grandes transformações sociais, exageros e erros permearam essa abertura. O Acre pós-moderno convive com um intenso pluralismo religioso, o que obriga os líderes a readaptar suas doutrinas, chegando a integrar elementos de religiões alheias. É o caso das igrejas pentecostais, originadas durante a Grande Depressão ocorrida nos Estados Unidos na década de 30.
Como isso aconteceu explica o teólogo e reitor do Seminário de Teologia Franciscana da Diocese de Rio Branco, padre Gabriel Camagni.
“Na época a população ficou extremamente empobrecida e resolveu procurar na dimensão divina a solução de seus problemas, o que é uma tendência humana natural. Mas houve uma série de outros fatores, sociais e econômicos, propiciando o surgimento do pentecostalismo. É uma religião fragmentada e que continua se fragmentando a cada dia, incorporando elementos de outras religiões. A Universal, por exemplo, usa elementos do budismo e do espiritismo”, diz.
Agindo assim pode parecer, mas o pentecostalismo nada possui de democrático. Ao empurrar a causa do sofrimento humano para o além-túmulo, e exigir, para isso, o despojamento financeiro dos fiéis, situa-se no mesmo patamar dos mais xiitas regimes políticos ditatoriais e ganha status de eficiente estratégia de mercado. “Mistura a cobiça petrolífera de George W. Bush com a tirania de Saddam Hussein”, compara um historiador que não quis se identificar.
Islamismo e resistência cultural
O outro cabo da intolerância religiosa situa-se no Iraque. Uma das poucas religiões a resistir à globalização cultural catapultada pelas bolsas de Nova York (EUA), o islamismo usa, com alguns avanços, uma tática perdida pela igreja católica desde a Idade Média: a união entre Estado e religião.
“Todo o pensamento islâmico resume-se na Shahadah: ‘Não há Deus além de Allah; Maomé é o profeta de Allah’. Este lema é utilizado em todos os aspectos da vida muçulmana”, diz o Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo, lançado este ano pela Editora Vida.
A organização religiosa fundamentalista da religião islâmica lembra muito a pentecostal. “O livro sagrado do Islamismo é o Alcorão. Os muçulmanos acreditam que ele seja a revelação de Allah para Maomé, que transmitiu os conhecimentos divinos nos escritos”, continua o Dicionário.
Cinco exigências básicas integram a doutrinologia do islamismo. Uma delas é a doação de esmolas, chamada zakat. O muçulmano oferta um quarto de seu salário, ou aproximadamente 2,5% anualmente, ao templo. No Islamismo, os homens são circuncidados e considerados superiores às mulheres.
Os muçulmanos dividem-se entre xiitas e sunitas. Esses últimos consideram o governo como uma instituição de Allah, a fim de estabelecer uma espécie de reino na Terra. Xiitas e sunitas lutam entre si através dos séculos, prática também de cristãos católicos e reformados, ainda hoje, em algumas partes da Europa.
O fundamentalismo vai às ruas
O outro cabo da intolerância religiosa situa-se no Iraque. Uma das poucas religiões a resistir à globalização cultural catapultada pelas bolsas de Nova York (EUA), o islamismo usa, com alguns avanços, uma tática perdida pela igreja católica desde a Idade Média: a união entre Estado e religião.
“Todo o pensamento islâmico resume-se na Shahadah: ‘Não há Deus além de Allah; Maomé é o profeta de Allah’. Este lema é utilizado em todos os aspectos da vida muçulmana”, diz o Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo, lançado este ano pela Editora Vida.
A organização religiosa fundamentalista da religião islâmica lembra muito a pentecostal. “O livro sagrado do Islamismo é o Alcorão. Os muçulmanos acreditam que ele seja a revelação de Allah para Maomé, que transmitiu os conhecimentos divinos nos escritos”, continua o Dicionário.
Cinco exigências básicas integram a doutrinologia do islamismo. Uma delas é a doação de esmolas, chamada zakat. O muçulmano oferta um quarto de seu salário, ou aproximadamente 2,5% anualmente, ao templo. No Islamismo, os homens são circuncidados e considerados superiores às mulheres.
Os muçulmanos dividem-se entre xiitas e sunitas. Esses últimos consideram o governo como uma instituição de Allah, a fim de estabelecer uma espécie de reino na Terra. Xiitas e sunitas lutam entre si através dos séculos, prática também de cristãos católicos e reformados, ainda hoje, em algumas partes da Europa.
O fundamentalismo vai às ruas
O vendedor José Maria Farias de Lima, 31, converteu-se há nove anos à igreja Assembléia de Deus, uma das maiores manifestações religiosas do cristianismo reformado no Brasil. Desde então, diz ele, recebeu pessoalmente uma visita do Espírito Santo, que o “chamou para fazer uma obra especial”.
A “obra” é discursar, de Bíblia aberta, numa confusão de decibéis audível a quilômetros, na entrada do tumultuado Terminal Urbano de Rio Branco. A mensagem: convencer os pecadores e infiéis (o que inclui adeptos de outras religiões) a se arrependerem para que “não sejam condenados ao inferno”.
Veja trechos de uma entrevista com o convicto e suarento pregador:
Quando e como você decidiu sair pregando nas ruas?
Foi quando eu me converti. O Espírito Santo vinha tocando o meu coração, falando para eu pregar a Palavra de Deus. Eu sentia a necessidade, porque Deus jamais quer que a humanidade seja corrompida no pecado, mas que as pessoas venham a entender a palavra de Deus, entender a sua palavra e assim se salvarem da condenação do maligno.
E o que acontece com quem não aceita a sua mensagem?
Veja, a mensagem não é minha, é de Deus. E quando o homem rejeita a palavra de Deus ele rejeita o próprio Deus, não o homem que a pregou. É um ato de desobediência, de rebeldia diante de Deus.
Então essa pessoa, que rejeita, não vai para o céu?
De maneira nenhuma. O céu é para aqueles que se arrependerem em vida aqui na Terra de todos os seus pecados e que pararem de praticá-los. Para aqueles que verdadeiramente se deleitam na palavra de Deus. Para pessoas obedientes à palavra.
Que palavra?
A Bíblia Sagrada.
E quem pertence a outra religião, como fica?
Com certeza Deus tem um prano (sic), né? Deus tem um prano de salvação para as pessoas que trabalham nessas áreas diabólicas, que Deus não se agrada.
Então elas também têm que se converter?
Com certeza. E devem fazer isso enquanto ainda estão em vida, enquanto Deus está chamando. Porque um dia a porta vai se fechar e todos aqueles que não estiverem com essa fé serão deixados para trás.
O que você acha dessa guerra no Iraque?
Ah, essa guerra o próprio Jesus fala na Palavra, no sermão profético do Evangelho de Mateus, no capítulo 24. Lá diz que “no final dos tempos haverá rumores de guerra, fomes e terremoto”. O senhor Jesus fala que é o princípio de dores, o início do apocalipse. É o que está na bíblia. É o cumprimento das profecias. Aleluia!