

Independência, 1974. Em pé, da esquerda para a direita: Chico Alab, Escapulário, Palheta, Deca, Zé Augusto e Flávio. Agachados: Bico-Bico, Aldemir, Rui, Augusto e Júlio César
Rui: um goleador insaciável
a serviço de inúmeras camisas
Vice-artilheiro do Brasil em 1974, Rui ficou atrás apenas do centroavante Dario e ganhou destaque na revista Placar
Francisco Dandão
Nas peladas de rua, o menino Rui Francisco de Melo Filho costumava ser escalado de goleiro. Quando defendia uma bola, porém, ele saía driblando meio mundo até chutar contra a meta inimiga. Numa situação dessas, ele foi visto pelo então técnico e jogador Cidico, que o convidou imediatamente para fazer um teste nos juvenis do Vasco da Gama. Transcorria o ano de 1964.
Apesar de receber chuteiras cheias de pregos para treinar, ele, ainda um adolescente de 16 anos, se saiu tão bem que foi logo chamado para comandar o ataque do time de cima do Almirante. Mas ficou só um ano. Em 1965, Rui já estava no Rio Branco, convidado pelo jogador Campos Pereira. Assim como no Vasco, o craque ficou somente um campeonato no Estrelão.
Em 1966, duas novas camisas: a do Atlético Clube Juventus e a do Andirá Esporte Clube. No Juventus a passagem foi bem rápida. Inconformado por não ter jogado num amistoso contra o Flamengo do Rio de Janeiro, Rui correu a procurar abrigo no Morcego da Cadeia Velha. O bom desempenho no campeonato o levou no ano seguinte, 1967, ao Grêmio Atlético Sampaio.
Entre 1968 e 1973, uma parada num mesmo local. Identificado com a mística da camisa azul e branca do Atlético Acreano, Rui jogou seis campeonatos pelo Galo do segundo distrito. Só se mudou em 1974, para ser campeão e formar num dos maiores esquadrões da história do Independência. Depois, uma aventura internacional no CAR, em 1976, de Riberalta (Bolívia).
De 1977 até 1984, quando pendurou as chuteiras, aos 36 anos (Rui nasceu em 13 de novembro de 1948), o atacante voltou a defender o Independência e teve uma breve passagem pelo São Francisco. "O detalhe que não pode ser esquecido", destaca Rui, "é que eu fui artilheiro em todos os times em que joguei. Talvez o maior da história do futebol acreano".
Quatro gols para provar que não estava velho
Prestes
a completar 29 anos, em 1977, ao retornar da sua aventura em Riberalta, Rui
foi preterido pelo técnico Té no time titular do Atlético
Acreano, sob o pretexto de que estava velho para o futebol. "Eu rebentava
nos treinos, mas ficava sempre na reserva nos dias dos jogos", diz o
ex-craque.
Aborrecido com a situação, Rui pediu ao presidente Adauto Brito da Frota que o liberasse do Galo, inclusive porque o Independência estava de olho nos seus serviços. Dispensado, saiu do clube com uma ameaça: "Me aguardem, de hoje em diante eu vou jogar contra o Té".
Não deu outra: no primeiro confronto entre Independência e Atlético, 4 a 0 para o Tricolor, com todos os gols sendo marcados por Rui.
Os melhores do futebol acreano
O aborrecimento com a reserva no Atlético Acreano comandado pelo técnico Té não impede Rui de afirmar que ele foi o melhor dos técnicos que o comandaram. "Ele sabia tudo. Orientava os atletas em todas as circunstâncias, desde os fundamentos do futebol, passando por noções de estratégia, até ao melhor posicionamento de cada um em campo", afirma o antigo artilheiro.
Uma seleção de todos os tempos? Rui não precisa pensar muito para escalar. "No meu time ideal", fala como se esperasse a indagação, "jogariam: Zé Augusto; Chico Alab, Deca, Palheta e Duda; Dadão, Euzébio e Hélio Fiesca; Bico-Bico, Rui e Tonho". Outros nomes? Ele também responde rapidamente. "Emilson, Tinoco, Rivanildo, Hermínio, Boá, Cidico e Touca".
A grande decepção e as
maiores alegrias de um artilheiro
Ganhando
a vida hoje, aos 54 anos, como funcionário público municipal,
Rui diz que não guarda nenhuma mágoa do futebol. Mas teve uma
grande decepção, logo no início da carreira: "Eu
tinha 18 anos e jogava no Juventus. Prestes a entrar em campo para enfrentar
o Flamengo, do Rio, o Elias Mansour mandou me barrar. Quase que desisto de
tudo", explica.
Duas imensas alegrias, entretanto, trataram de elevar a sua auto-estima. "Uma delas", é ele mesmo quem diz, "foi o título de 1974 pelo Independência. A outra foi sair na revista Placar do mesmo ano como o segundo maior artilheiro do Brasil, atrás somente do centroavante Dario, que jogava no Atlético Mineiro. Isso foi demais, uma bênção de Deus".
Sobre o futebol acreano atual, Rui prefere não arriscar uma análise mais apurada, inclusive porque não tem freqüentado o estádio. Mas diz entender que algo não vai bem e que o sintoma disso são as sucessivas derrotas para Rondônia. "No meu tempo isso era algo proibido", finaliza.