
Consumo na crise
O consumidor logo após a eleição estava muito otimista. Agora, os índices de expectativa do consumidor estão mostrando que está havendo uma reversão desse sentimento. Pesquisa da ACNielsen mostra que, ano passado, apesar da crise, houve um crescimento de 5,5% em média no volume de vendas; maior nos produtos cujos preços subiram menos do que a inflação, como perecíveis, por exemplo.
Os índices que investigam o sentimento do consumidor e sua intenção de comprar, estimulando a economia, estão mostrando queda da expectativa favorável que surgiu após as eleições. O Índice de Expectativa do Consumidor do Rio caiu em março a um nível mais baixo do que em fevereiro, quando já havia caído. Os dados da Fecomércio mostram que os sentimentos negativos do consumidor carioca se devem a diversos fatores, como restrição ao crédito, redução da massa salarial.
Uma pesquisa da ACNielsen feita com 850 pessoas, e divulgada nos últimos dias aos seus clientes, mostra que o consumidor começou este ano com um sentimento positivo, se comparado a anos anteriores, mas muito preocupado com a inflação. Dos pesquisados, 11% estavam muito otimistas, em vez de 2% em 2000, e 45% otimistas, em vez de 31% de três anos atrás. Mas quando o assunto é inflação, o otimismo desaparece: 70% acham que os preços dos produtos de consumo em geral vão subir mais que a inflação e 40% acham que o mesmo acontecerá com o preço dos alimentos. A taxa tem caído lentamente a cada semana, podendo diluir um pouco esse temor nos próximos meses.
Desde 1998, o consumidor brasileiro vem experimentando a perda do poder aquisitivo, mesmo assim, a pesquisa da ACNielsen — que faz o mais completo acompanhamento do consumo brasileiro — registra que, no ano passado, 62% dos itens que integram a sondagem tiveram aumento de vendas, quase metade disso aumentos de até 11% no volume de vendas. Só em 11% houve queda de vendas.
Em geral, diz a pesquisa, os aumentos de vendas estão relacionados aos produtos cujos preços subiram menos. Perecíveis, por exemplo, que tiveram um aumento de 5,1% nos preços, aumentaram as vendas em 8,2%.
A pesquisa tenta encontrar a resposta para a questão: como vender mais num cenário adverso? Afinal, neste ano, o crescimento econômico não será forte; a renda continua caindo; os juros permanecem altos e o surto inflacionário, que está sendo vencido pelo novo governo, diminuiu o poder de compra do consumidor. Preços baixos são a arma infalível do varejo, mas a empresa de consultoria recomenda também a segmentação dos produtos no mercado.
As vendas do segmento diet/light, por exemplo, tiveram um crescimento de 10,7%, apesar de terem um diferencial de preços significativo. Iogurtes diet/light tiveram um aumento de 45%. A consultoria acha que a venda desses produtos continuará crescendo. No segmento que a ACNielsen classifica como pós-shampoo — todos os produtos para tratamento de cabelo — o aumento das vendas foi de 12%, mas os produtos com maior valor agregado tiveram aumentos de vendas de 29%. Duas curiosidades notadas pela pesquisa: as vendas desses produtos subiram, apesar de os preços terem acompanhado a inflação, e as vendas dos produtos em lojas populares também tiveram aumento, apesar da forte diferença de preços em relação aos condicionadores comuns. Segundo a consultoria, “o importante é o valor percebido pelo consumidor”.
A economia brasileira segue fria e os índices agregados de consumo permanecem com vendas em baixa neste começo de ano. O que o estudo do consumo brasileiro mostra é que algumas tendências continuam: primeiro, quem reduz preço vende mais; segundo, quem lança novos produtos e segmenta mercado tem chance de aumentar as vendas; terceiro, inclusive nas faixas populares de consumo certas segmentações de produto fazem sucesso e conseguem encontrar espaço no bolso do consumidor.
Ainda é tempo de cautela
O aumento da previsão da inflação para 2003, divulgado ontem no relatório do Banco Central, mostra que algumas subidas de preço deste primeiro trimestre foram subestimadas. No documento anterior, de dezembro do ano passado, calculava--se que a inflação de janeiro a março de 2003 seria de 2,9%; no entanto, somente no acumulado de janeiro e fevereiro, já se tem um ponto percentual a mais, chegando a 3,9%. Segundo o economista Luiz Otávio Leal, as últimas atas das reuniões do Copom já indicavam essa mudança:
— A alta dos preços administrados no período foi maior que a prevista — que era de 2,3%, mas deverá ficar em torno de 7,5%. Além disso, a queda dos preços dos alimentos está acontecendo de forma muito mais lenta do que se esperava — explica ele.
Esses movimentos já puderam ser vistos no último IPCA-15, que foi de 1,14%; mais alto que o esperado. A Fecomércio-RJ, então, alterou sua previsão para o IPCA fechado de março de 0,9% para 1,1%.
Mas isso não significa o agravamento do quadro de inflação alta que se via no fim do ano passado. A luta contra os aumentos está sendo combatida com políticas apropriadas. E a curva começa a tomar outro sentido. Mesmo assim, Luiz Otávio teme a inflação inercial:
— É bom lembrar que o salário mínimo maior, mesmo que não haja ganho real para o trabalhador, aumenta o poder de compra.
O importante é que o país está vencendo, apesar das taxas altas, a escalada inflacionária de 2002.