
O
padeiro Arnaldo Araújo, 22, conseguiu escapar ileso das ruas da periferia
de Rio Branco, onde uma legião de jovens sucumbe diariamente diante
das facilidades de acesso às drogas e ao álcool.
Comparece todo dia ao trabalho numa panificadora no centro da cidade. Veste o jaleco, calça as luvas, põe o boné e, literalmente, põe a mão na massa.
Arnaldo Araújo mora com a mãe e três irmãos no conjunto Esperança. Já concluiu o ensino médio e foi reprovado ano passado no vestibular para letras.
Paradoxalmente, na realidade os sonhos de Arnaldo Araújo são outros: aprimorar o dom que tem para desenhar, trabalhar numa gráfica e um dia publicar um livro com as poesias que escreve.
Tico, como é tratado pelos colegas de trabalho, é franzino e baixinho, mas senhor da eloqüência. É um exemplo da banda boa da juventude que existe na periferia, mas que enfrenta dificuldade para obter expressão social.
Leia a entrevista a seguir:
Como foi a sua infância na periferia de Rio Branco?
Depois da morte de meu pai, que perdi quando tinha sete anos de idade, minha mãe teve que criar os seis filhos. A minha infância foi deturpada. A morte do meu pai trouxe muita dificuldade. Fiquei triste, mas não infeliz. Como todo menino pobre, não ganhava presente no dia do aniversário nem no Natal. Consegui estudar, me tornei ajudante de padeiro, terminei o ensino médio, prestei vestibular para letras e fui reprovado. Um dos maiores problemas na inf6ancia era quando alguém perguntava sobre meu pai. Às vezes eu não sabia ou tinha medo de responder que ele havia morrido.
O que causou a morte de seu pai?
Meu pai cometeu suicídio com um tiro de espingarda. Dizem que ele foi enfeitiçado para tirar a própria vida. É tudo que sei. Ele ficou praticamente louco, vivia falando que iria matar a família e depois se matar. Deus livrou minha mãe e meus irmãos disso. Meu pai, infelizmente, optou por se matar. Foi o menos mal para nós.
Quando começou a despertar para o desenho e a poesia?
As pessoas dizem, e eu também acredito nisso, que Deus me deu um dom para desenhar e escrever. Desde os cinco anos de idade que desenho. A escrita, que são os poemas, comecei quando tinha 16 ou 17 anos. Foi quando me apaixonei pela primeira vez. Antes de conhecer a literatura brasileira, escrevia poemas livres. Ao tomar conhecimento da literatura, no primeiro ano do ensino médio, soube da existência dos poetas brasileiros e então passei a organizar meus poemas na forma de sonetos. Esses poemas foram todos inspirados na pessoa que amava.
O amor acabou?
Essa pessoa foi meu primeiro amor e durou mais ou menos dois anos. Por mim, claro, não teria acabado. Não chegamos a terminar formalmente, mas, com o passar do tempo, a gente se separou.
Você se acha mais padeiro, poeta ou desenhista?
Essa é uma pergunta complexa. Já trabalho com pão há quatro anos. Estou recomeçando aqui na Girassol há pouco mais de um mês. Creio que sou mais um poeta que padeiro.
Nunca freqüentou nenhum curso para aprimorar o desenho?
Não. O desenho é um dom que tenho. Comecei a desenhar aos cinco anos de idade e não parei mais. Gosto muito mesmo de desenhar. O que eu vejo tenho enorme facilidade para reproduzir. Isso vem de mim, é natural. Mas nunca tive oportunidade de aprimorar. Nunca tive e ainda não tenho condições de pagar um curso. Meu sonho é me aprimorar e poder trabalhar com isso. Gostaria de fazer um curso gráfico, mas isso custa dinheiro. O que eu ganho não me possibilita tanto. Para quem, como eu, é de classe baixa, é muito difícil fazer um curso. E olha que eu trabalho desde os 14 anos!
Você sempre trabalhou em panificadoras?
Sim, sempre. Trabalhei quatro anos, depois fiquei um tempo parado. Agora voltei novamente para por a mão na massa. Mas não ficar a vida inteira trabalhando com pão. É bom porque é uma profissão. Aprendi a preparar coisas gostosas para as pessoas comerem. Nós padeiros costumamos dizer que amassamos para que os outros comam. Mas, sem brincadeira, o pão é sagrado, abençoado por Deus.
Como você encara o mundo?
De vez em quando, se tenho tempo, assisto os telejornais. Na verdade eu leio muito. Dizem que quem escreve é porque lê muito. Leio livros e revistas. Não tenho quase acesso aos jornais. Acompanho os relatos da imprensa sobre drogas, prostituição, guerras e também sobre o desenvolvimento do Estado do Acre depois que o governador Jorge Viana assumiu. Eu gosto de observar.
A imprensa acreana trata muito de um tema que interessa demais ao governo, que é a florestania. Você sabe o que é florestania?
Não vou mentir. Não estou muito por dentro desse assunto, mas creio que seja algo bom para o Estado.
Qual sua opinião sobre a guerra no Iraque?
Vejo com muita tristeza a guerra. Milhares de pessoas vão morrer por causa da guerra de duas pessoas, no caso Bush e Sadam. A Bíblia diz que uma alma é mais importante que o mundo inteiro. Nesse instante, o sangue de milhares de pessoas inocentes está sendo derramado. O que mais me incomoda na guerra é a situação das crianças. O futuro delas está sendo interrompido pelos mísseis. A guerra é fruto da ganância pelo poder, da disposição de alguém se mostrar superior a alguém.
Qual o teu maior sonho hoje?
Todos temos vários sonhos a realizar. Um de meus sonhos é de um dia poder trabalhar numa gráfica e publicar um livro de poesias. É isso o que tem a ver comigo. É o que eu faço. É o que eu amo. Quero trabalhar com desenho e viver disso.
Já fez algum curso de informática?
Sim. Sei ligar e desligar o computador. Quero dizer que sei o básico porque não tenho computador e o que aprendi foi em poucos dias num cursinho gratuito de digitação. Não quero glória para mim. Quero glória para o meu trabalho. Quero que ele seja visto pelas pessoas.
Qual a relação de pão e arte?
O pão tem que ser bem feito. Tudo que a gente faz com prazer sai bonito e gostoso. Quando alguém preparada uma massa com mau humor com certeza o pão vai sair ruim. Embora o meu sonho não seja trabalhar a vida inteira em padaria, como sei que o pão vai alimentar pessoas, faço com o maior gosto, com amor mesmo. Até na hora de esticar a massa é preciso amor e carinho. A mesma coisa acontece quando estou desenhando ou escrevendo.
Altino Machado
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