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Rio Branco - Acre, terça-feira, 1 de abril de 2003

Cidade de Porto Dias começa a realizar o sonho da certificação madeireira

Seringueiros se preparam para vender madeira de áreas manejadas, uma proposta de “ongueiros” como Jorge Viana

Tião Maia

Seringal Porto Dias - A agricultora Eurenir Lourenço do Carmo, 39 anos, quatro filhos, viúva há oito meses, é uma mulher muito cortejada pela comunidade masculina do Seringal Porto Dias, distante 138 quilômetros de Rio Branco (108 quilômetros pela BR-364 e mais 30 de ramal em direção ao rio Abunã), na fronteira com a Bolívia. Só na semana passada, por exemplo, ela chegou a ser pedida em casamento duas vezes, por dois homens diferentes. Tamanho interesse pode estar ligado a algo além da viuvez. Eurenir vem a ser dona de uma área de terra de 600 hectares, onde se concentra um grande número de árvores de diferentes espécies prontas para serem abatidas e vendidas num mercado de negócios cada vez mais rentáveis. A predominância é de cumaru cetim, cumaru ferro, cerejeira, ipê e jatobá – madeiras que valem verdadeiras fortunas no mercado internacional. “Eu acho que ela precisa de ajuda para cuidar de tudo isso aqui”, diz o maranhense Xavier Firmino dos Santos, 60 anos, ex-garimpeiro, um dos pretendentes.

Dona Eurenir faz parte de uma comunidade de 13 das 70 famílias de Porto Dias que vêm trabalhando desde o ano passado com a proposta do manejo florestal comunitário. O Seringal Porto Dias foi a segunda área (a primeira foi o Seringal Cachoeira, em Xapuri) no Brasil a ser reconhecida com o selo do FSC, o Conselho Mundial de Manejo Florestal, cuja certificação atesta que a madeira comercializada é proveniente de áreas onde se pratica o manejo, uma forma de exploração com respeito ao meio ambiente. A certificação é uma idéia do CTA (Centro de Trabalhadores da Amazônia), uma ONG que trabalha em parceria com entidades como a OIMT (Organização Internacional de Madeiras Tropicais), o WWF e a ITTO. O Governo do Estado, através da Secretaria de Florestas, e Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) também participam da experiência.

O governador Jorge Viana, acompanhado de secretários e assessores, esteve, no final de semana, em visita a área e às pessoas como dona Eurenir Lourenço, as quais, aliás, ele já conhece desde os tempos em que era apenas um “ongueiro”, apelido que se aplica às pessoas que se dedicam às ong’s – no caso, o CTA. Ao deixar a Prefeitura de Rio Branco, em 96, o engenheiro florestal Jorge Viana foi exercer sua profissão dando consultoria ao CTA, quando conheceu de perto a experiência do Seringal Cachoeira e de Porto Dias. “Estou vendo aqui se materializar um sonho que a gente tinha antes de chegarmos no Governo. É por isso que, no Governo, a gente quer apoiar esse e outros projetos porque esta é a nossa vocação e o nosso futuro”, disse.

Aos seringueiros e madeireiros de Porto Dias, Jorge Viana voltou a relatar o que tem visto em suas andanças internacionais. Segundo ele, em países desenvolvidos como a Alemanha e a Inglaterra, os consumidores boicotam com severidade produtos madeireiros ou não que não possuam o selo do FSC. Apenas países como a China ainda trabalham com madeira retirada de áreas clandestinas, mas a tendência é que, face à pressão internacional, essas nações compreendam que trabalhar com madeira e outros produtos legais e certificados é o melhor caminho. “Não tenho dúvidas de que com a o apoio da ministra Marina Silva e do presidente Lula, o manejo florestal comunitário vai ganhar força no Brasil e, com certeza, oferecer um belo exemplo para o mundo”, disse Jorge Viana.

É isso que anima cada vez mais pessoas como dona Eurenir, única mulher a trabalhar como manejadora na Reserva Porto Dias. No trabalho, ela conta com ajuda dos filhos, inclusive de duas mocinhas. Depois de receberem o devido treinamento dos técnicos, as meninas, como outros trabalhadores, têm a missão de entrar na floresta e catalogar as árvores. As árvores catalogadas são aquelas cujo diâmetro é superior a 60 centímetros. O outro critério para o abate é a cadeia “familiar”: só se abate espécies que tenham uma “avó”, pelo menos duas “mães” e quatro “filhas”.

Depois do mapeamento, a colheita segue um caminho pré-estabelecido de forma a proporcionar o menor dano possível à vegetação e às árvores que ficarão no lugar à espera da colheita. “A média de colheita é de oito metros cúbicos de madeira por hectare a cada 30 anos. Isso é menos que a queda natural da floresta”, explica o engenheiro florestal Marcelo Arguelles, coordenador do CTA.

Mesmo que essa quantia pareça pouco, representa um bom dinheiro no orçamento de trabalhadores que antes só exploravam a castanha e a borracha. “O nosso ganho antes da madeira era em torno de um salário mínimo por mês. Se a gente mantiver a organização e tudo funcionar como planejado, a cada ano, só com a colheita da madeira, vamos ganhar em torno de R$ 2.500,00. Além da madeira, poderemos também colher sementes e outros produtos, como a copaíba”, afirma Adalberto pereira do Nascimento, liderança do lugar.

A grande expectativa, no entanto, é em relação à produção de móveis e outros bens artesanais. Com ajuda da ITTO, a Associação Seringueira de Porto Dias acaba de adquirir mais de R$ 100 mil em máquinas modernas com as quais passará produzir móveis finos em larga escala. “Vamos treinar pessoal da própria comunidade e, conforme o talento de cada um, vamos aproveitá-los na confecção dos móveis”, diz Nonato Montefusco, técnico do Senai (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial), que assessora o CTA e a Associação no local.

Acre vai combater saída de
madeira em toras, anuncia Jorge Viana

O Acre começa a se prepara para impedir a saída de madeira em tora do Estado. O anúncio foi feito pelo governador Jorge Viana durante visita aos produtores do Seringal Porto Dias, no último domingo. De acordo com o governador, a saída da madeira em tora não só prejudica o Estado com a danificação e exploração predatória de suas florestas como causa prejuízos aos colonos e seringueiros. “A saída da madeira em tora não deixa nenhum lucro no Estado”, disse o governador.

Para barrar a exploração predatória e a saída da madeira em tora o Governo vai atuar com severidade na fiscalização e negando qualquer incentivo à instalação de serrarias no Estado. “Quem quiser trabalhar dentro da lei, terá nosso apoio. Já os outros, aqueles que não quiserem se adequar à nova realidade, vão enfrentar os rigores da lei”, prometeu Jorge Viana.

A luta do governo do Estado para por fim à exploração predatória de madeira vai encontrar apoio na Câmara dos Deputados. Foi o que anunciou o deputado federal Nilson Mourão (PT-AC), que acompanhou o governador Jorge Viana na viagem ao Seringal Porto Dias. No meio da floresta, o deputado elogiou o governo do Estado pela postura de combate à ação ilegal e exploração predatória. “Aqui está a nossa maior riqueza. O que a gente tem que compreender é que tudo tem limites. Se não criarmos mecanismos de exploração com racionalidade, tudo isso pode acabar sem gerar renda ou riqueza para a população local”, disse o deputado. (TM)

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