
Francisco Dandão
A seleção brasileira não merecia perder para os portugueses naquele jogo de sábado. Somando-se todos os catetos e hipotenusas, ensaios de balística teleguiados pelos satélites americanos e hipotéticas transversais do espaço-tempo, a minha conclusão é que os brasileiros mereciam melhor sorte.
Mesmo não jogando esse primor todo, pelo menos um empatezinho teria caído bem. Foram umas quatro bolas na trave de Portugal. Daquelas indefensáveis, longe, muito longe, além das cidades e das serras do Eça de Queiroz e distante pra caramba do alcance do Joaquim no gol deles.
O problema é que os mísseis que saíram dos pés do nosso fundamentalista lateral-esquerdo Roberto Carlos, ao contrário dos que o texano Bush Júnior tem descarregado nas cabeças dos perigosos e esfarrapados iraquianos, não tinham nada de inteligentes.
Com em futebol o que vale é bola na rede, então, um abraço, os números garantem, Portugal 2 a 1 e estamos conversados. Vitória lusa, o verde e o vermelho da bandeira deles tremulando nos céus da Europa e o nosso verde e amarelo embalado para viagem. Em terra de fado, fora com o samba.
Bom toda a vida para o técnico Luiz Felipe Scolari e para o meio campo Deco, brasileiro naturalizado português. A convocação desse moço quase desencadeia uma outra "Revolução dos Cravos" em terras lusitanas. Como eles bateram os pentacampeões, ótimo, Felipão tinha razão.
Há 37 anos os portugueses não sabiam o que era uma vitória sobre a seleção brasileira de futebol. A última vez que eles haviam posto à ferros os pés dos nossos jogadores tinha acontecido na Copa do Mundo de 1966, na Inglaterra. De lá para cá, só cacete. Agora se metem de novo a bestas.
Os "gajos", relatam as "folhas" internacionais, ficaram de tal maneira contentes que no domingo cerca de mil pessoas enfrentaram chuva fria e ventos cortantes para ver o primeiro treino da semana da seleção portuguesa, com vistas ao amistoso da próxima quarta-feira contra a Macedônia.
Da nossa parte, exceto pelo fato de ninguém gostar de perder, pode-se dizer mesmo que nada de mais aconteceu. Perdemos, e daí? Ainda somos os pentacampeões, não somos? E Portugal, é o que? Praticamente apenas um rio torto saindo de uma aldeia num poema de Fernando Pessoa.