
Mário
Quintana, de Sapato Florido, 1947
I
De repente, o leite talhou nos vasilhames. Foi um raio? Foi Leviatã?
Foi o quê?
O burgomestre, debaixo das cobertas, resfolegava orações meio esquecidas.
E os negros monstros das cornijas, com as faces zebradas de relâmpagos, silenciosamente gargalhavam por suas três ou quatro bocas superpostas.
II
E amanheceu um enorme ovo, em pé, no meio da praça, três palmos mais alto que os formosos alabardeiros que lhe puseram em torno para evitar a aproximação do público. Foi chamado então o velho mágico, que escreveu na casca as três palavras infalíveis. E o ovo abriu-se ao meio e dele saiu um imponente senhor, tão magnificamente vestido e resplandecente de alamares e crachás que todos pensaram que fosse o Rei de Ouros. E ei-lo que disse, encarando o seu povo: “Eu sou o novo burgomestre!” Dito e feito. Nunca houve tanta dança e tanta bebedeira na cidade. Quanto ao velho burgomestre, nem foi preciso depô-lo, pois desapareceu tão misteriosamente como havia aparecido o novo, ou o ovo. E os menestréis compuseram divertidas canções, que o populacho berrava nas estalagens, entre gargalhadas e arrepios de medo.
III
Mas por onde andaria o burgomestre?
O seu cachimbo de porcelana, em cujo forno se via um Cupido de pernas trançadas, tocando frauta, foi encontrado à beira-rio. E apesar de todos os esforços, só conseguiram pescar um baú, que não tinha nada a ver com a coisa, e uma sereiazinha insignificante e nada bonita, uma sereiazinha de água doce, que nem sabia cantar e foi logo devolvida ao seu elemento.
Mas quando casava a filha do mestre-escola, encontrou-se dentro do bolo de noiva a dentadura postiça do burgomestre, o que deu azo a que desmaiassem, no ato, duas gerações de senhoras, e ao posterior suicídio do pasteleiro.
E a caixa de rapé do burgomestre, que era inconfundível e única, multiplicou-se estranhamente e começou a ser achada em todas as salas de espera desertas, pelos varredores verdes de terror, depois que era encerrado o expediente nas repartições públicas e começava a ouvir-se, na rua, o passo trôpego do acendedor de lampiões.
Sobre Quintana
Mário de Miranda Quintana, nascido em 30 de julho de 1906, na cidade de Alegrete, Rio Grande do Sul, começou sua caminhada existencial praticamente junto com o século XX, de modo que, ao longo de sua vida, o poeta foi acompanhando - na sua opinião, por causa de sua grande curiosidade, conforme confessa em “Motivações” (A Vaca e o Hipogrifo) - os principais acontecimentos do país e do mundo. Filho de Celso de Oliveira Quintana, farmacêutico, e de D. Virgínia de Miranda Quintana. Aprende a ler pelo Correio do Povo. Seus pais lhe ensinam os rudimentos de francês e em 1917 freqüenta pela primeira vez a escola, em Alegrete, do mestre português Antônio Cabral Beirão.
Em 5 de maio de 1994 vem a morrer um dos orgulhos do povo gaúcho, aos 87 anos em Porto Alegre.
Seus livros esgotam tiragens sucessivas. Quintana tem despertado entusiasmo e admiração não só entre os “grandes” mas principalmente no povo, que se identifica com seus “quintanares” pelo tom coloquial, pela sonoridade dos versos, pelas imagens plásticas e pela sua extrema sensibilidade para com as coisas humanas. (Alguns textos)