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Rio Branco - Acre, terça-feira, 1 de abril de 2003
O Dia da Verdade

Francisco Dandão *

Mente-se sem pudor e sem medo de pecar no primeiro dia de abril. Vai-se o verão e suas chuvas torrenciais, a lua dana-se a minguar e quem ainda tem coragem de caminhar de peito aberto ao vento descobre a cabeça para os passeios de final de tarde sob o vermelho fogo crepuscular.

As explicações para o Dia da Mentira são muitas. A versão mais aceita vem de 1564, quando o rei da França Carlos IX teria baixado uma ordem para que o início do ano, que até então se marcava em abril, passasse para janeiro, fazendo com que os votos de felicidade mudassem de data.

Teria se dado, por conta disso, que muita gente passou a se enganar nas felicitações. Outros, os considerados mais espirituosos, simulavam presentes, falsas congratulações e brincadeiras. Os distraídos de toda a espécie acabavam sendo enganados. E farra acabaria atravessando os séculos.

Nos tempos pós-modernos, apesar de preservada a tradição da mentira no primeiro de abril, parece haver uma certa, digamos, permissividade social (isso mundialmente falando) para que nos outros dias se pratique a mesma arte da empulhação sem o menor resquício de remorso ou posterior expiação.

E assim, dado esse fato, eu creio que não seria demasiado mentiroso afirmar que a exceção virou regra. Mente-se que mente-se, em todas as esferas e circunstâncias, e as faces de ser vivente algum ficam mais vermelhas, muito menos se vê qualquer nariz crescendo rumo a um eventual interlocutor.

Estando minimamente (ou politicamente, o que é quase a mesma coisa, como naquela piada dos japoneses que brigavam no escuro em cima da carroceria de um caminhão) correto esse meu raciocínio, creio, está mais do que na hora de a gente inverter a tradição e criar o Dia da Verdade.

A idéia é a de que as pessoas mentiriam durante todo o ano e falariam a verdade no dia marcado para tal. E assim como hoje acontece no dia dedicado à mentira, ninguém seria penalizado por falar a verdade na referida data. Complicado, eu sei, mas não totalmente impossível.

Ia ser muito interessante, por exemplo, a gente ver Bush Júnior na televisão, em pronunciamento global, olhando diretamente para o olho da câmera, dizendo: - Meus prezados consumidores de coca-cola e hot dogs, a mim pouco importa a paz ou coisa que o valha, meu negócio é gasolina!

Ou então, virando a moeda pelo lado do avesso, o campeoníssimo de urnas Saddam Hussein (ele costuma ganhar as eleições no Iraque com 100% dos votos válidos), discursando para a All Jazeera: - Tô me lixando se os iraquianos estão passando fome, eu quero é construir palácios e me arrumar!

Detentores de cargos eletivos públicos (nem todos, nem todos, que eu não vou querer agora, só porque me foi gentilmente dado o direito de opinar no jornal, partir para um radicalismo cego, xiita ou sectário) provavelmente teriam que passar o Dia da Verdade escondidos debaixo da cama.

Os publicitários, coitados, nem sob a cama estariam a salvo num dia desses. Acostumados a vender gato por lebre, carne de pescoço por filé, carro um-ponto-zero por protótipo de Fórmula Um, bife de caçarolinha por rifle de caçar rolinha, teriam que passar 24 horas atrás do rabo de um cometa.

Pescadores, caçadores e outros sufixos "ores" de igual procedência, tidos como mentirosos sem maldade, esses poderiam transitar pelas ruas e realizar normalmente suas atividades. Desde, é claro, que não abrissem suas bocas. Vinte e quatro horas de silêncio, só respirando e movendo os olhos.

Ah, sim.... Para não dizer que eu esqueci de mencionar as flores, uma coisa é certa: no Dia da Verdade poucos órgãos de imprensa poderiam colocar os seus produtos nas ruas. Sob pena de jogarem na lata do lixo as suas pretensões de credibilidade e isenção no trato da notícia. É ruim?

* fdandao@zipmail.com.br

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