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Rio Branco - Acre, quarta-feira, 2 de abril de 2003

Lula reajustou o salário, mas poder
de compra do trabalhador não aumenta

Assalariados, empresários e sindicalistas avaliam o impacto da decisão do governo federal na economia acreana

O salário mínimo brasileiro está valendo 240 reais desde ontem. O novo valor anunciado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi reajustado em 20% com relação ao estipulado em abril do ano passado. Mas será que o poder de compra do consumidor também aumentou? Os assalariados têm o que comemorar?

Soraia Araújo ganha um salário mínimo. Trabalha das 7 às 17 horas num pequeno comércio. Ela tem a sorte de não precisar pagar contas como água, luz, telefone ou aluguel. Em compensação, com o valor que ganha precisa comprar alimentação e medicamentos para o filho pequeno, além dos gastos com roupas e o pagamento das parcelas de uma bicicleta que comprou para se locomover até o emprego.

Ela comemora o aumento e diz que vai depositar os 40 reais na poupança que abriu para o filho.

“Isso se sobrar alguma coisa porque sempre tem contas para pagar no final do mês. A gente nunca tem dinheiro e é muito difícil conseguir economizar ganhando apenas um salário. Mas o aumento é sempre bom”, diz Soraia.

IMPACTO - O presidente do Conselho Regional de Economia (Corecon) do Acre, Rogério Gonçalves Bezerra, está menos entusiasmado com o reajuste do que Soraia. Ele ressalta que o aumento de 20% estipulado pelo governo Lula apenas recupera a inflação do ano passado, quando o dinheiro do brasileiro sofreu uma desvalorização de 25%, baseando-se no Índice Geral de Preço do Mercado (IGPM) .

“O poder de compra do consumidor não aumentou em nada. Em contrapartida, se o governo aumentar demais o salário mínimo vai acarretar um déficit na Previdência Social, que já tem um rombo considerável. É preciso ir devagar nesse início de governo para não comprometer ainda mais a situação brasileira”, disse o economista.

Bezerra acredita que o reajuste do salário mínimo não vai causar um impacto na inflação acarretando aumento nos preços.

“Mesmo com as datas de pico de vendas, como o Natal e o Carnaval, o comércio não teve um bom aquecimento. As empresas devem absorver esse percentual no próprio lucro para não repassar ao consumidor, que não suportaria mais aumentos.”

Acisa aposta em mais capital girando no mercado

Segundo o presidente da Associação Comercial, Industrial de Serviço e Agrícola do Acre (Acisa), Rubenir Guerra cerca de 90% das empresas acreanas pagam para os funcionários um valor acima do salário mínimo, portanto, o aumento não vai atingir a maioria dos comerciários. Rubenir é contrário à opinião do economista e acredita que o comércio terá mais capital circulando.

“O aumento do salário mínimo significa um aumento no poder de compra, o capital vai girar no comércio. Vai ficar difícil no primeiro momento para o empregador pagar o os R$ 40 a mais, porém, a tendência é de que o movimento aumente”, explica Guerra.

CUT: “Reajuste não é o ideal, mas já é um avanço”

A dirigente da Central Única dos Trabalhadores no Acre (CUT), Elza Soares, comentou que o novo salário mínimo não satisfaz as categorias por ser ainda muito baixo, mas é considerado um avanço se comparado com os aumentos concedidos no governo anterior.

“Satisfeitos não estamos. Como é que um pai de família paga todas as contas e sustenta os filhos com esse salário? Não dá nem para adquirir a cesta básica. É um valor muito baixo para o brasileiro sobreviver com decência. Porém, é um avanço um aumento de 40 reais se formos comparar com o governo anterior”, disse Elza.

Elza explica que na proposta orçamentária do governo Fernando Henrique Cardoso para 2003, o valor sugerido era de apenas 211 reais, mas isso num momento de inflação acumulada bem mais baixa que a atual. Os ministros do Planejamento e Fazenda do governo Lula disseram que era possível aumentar para 234 reais. O presidente preferiu arredondar para 240. Ele explicou que era o aumento possível, apesar de não ser o ideal para o povo brasileiro.

“De acordo com o governo Lula, o valor está acima da inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) acumulada desde a fixação do mínimo de 2002, em abril. Mesmo acima da inflação, não é um valor suficiente para o trabalhador brasileiro”, finaliza a dirigente da CUT.

Pequenos empregadores estão
preocupados com o novo mínimo

Há quem não esteja comemorando o aumento de 40 reais no salário mínimo. É o caso de José Célio Brito, proprietário de uma mercearia no bairro São Francisco.

“Os pequenos sempre sofrem mais. Com o aumento vai ficar mais difícil pagar o funcionário. Não adianta dizer que os produtos sobem toda hora, não é uma justificativa para mim, eu pago aumento nas fábricas e repasso para o consumidor. Os 40 reais a mais no salário desse mês vão sair do meu lucro”, diz o microempresário.

José comenta que a carga tributária que pesa sobre os microempresários é muito alta, os gastos com impostos chegam a ser maiores que os lucros muitas vezes.

“A gente precisa do funcionário. Não tenho como demitir porque só tenho um. Vai ser difícil, porque a situação não está fácil, mas temos que tentar superar essas dificuldades. O empregado e o empregador têm situações diferentes. Um precisa do salário e o que ele ganha é pouco para o que precisa pagar. Mas para o pequeno empregador é difícil manter o funcionário, porque nós também estamos ganhando muito pouco”, explica José.

O economista alerta que para cada salário mínimo pago ao funcionário o empregador paga praticamente o mesmo valor de encargos e tributos. “INSS, FGTS, férias, décimo terceiro são muitos impostos pagos que acabam onerando ainda mais as despesas de quem emprega”, ilustrou.

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