
* Dalmir Ferreira
Os dias 20 e 23 de março marcaram, respectivamente, as passagens de Jorfrannas, em 2002, e Hélio Melo, em 2001.
Ambos foram artistas que engrandeceram a nossa terra com suas artes, ambos tinham em comum uma predominante linguagem Naife e a adoção da cidadania acreana (de origem, o primeiro era carioca, e o segundo, amazonense).
Outras coisas em comum tinham esses dois artistas: além da arte que os fez conhecidos, a simplicidade, a humildade e um senso de humor que foram suas marcas muito presentes.
Hélio Melo deteve-se pacientemente nas coisas do seringal, ora mostrando cenas do cotidiano, nas colocações ou nos barracões, ora fazendo críticas profundas àquele sistema social e econômico. Enfim, resgatou lendas e muitas outras coisas que a brusca mudança impôs, coisas que hoje já estão distantes e desconhecidas para essa nova geração.
Por seu lado, Jorfrannas foi um artista essencialmente urbano. Embora tivesse se dedicado ao conhecimento sobre a história de nossa região, trazia desde seu tempo no Rio de Janeiro um gosto pela cidade e suas cenas, nas quais certamente soube dignificar a presença humana, seus feitos e sua maneira de viver.
Poucos artistas produziram tantos retratos sobre o campo e o urbano, sobre o seringal e sobre a cidade de Rio Branco, como Hélio Melo e Jorfrannas, propondo visões despercebidas para nós, propondo reflexões que só a arte é capaz de proporcionar, sobretudo humanizando visualidades e dignificando os homens em suas várias maneiras de despertar novos espaços geográficos e históricos.
O privilégio de tê-los tido como companheiros, numa convivência de luta que a arte impõe, me obriga em nome da velha Mnemósine (mãe das musas) a registrar a data, para que não os percamos de vista. Não como homenagem vazia que a tantos apraz e que pouco pode interessá-los, mas como uma necessidade premente de nos apossarmos de suas heranças. A herança de um artista não pode ser só o bem material que deixam, como querem alguns (pela valorização de suas obras), isso seria diminuir e excluir a essencial mensagem nelas contidas.
Portanto, muito mais que algumas pinturas, algum escrito ou qualquer produto de fazer artístico, herdar a mensagem de suas artes significa refletir a respeito e apossar-se de suas propostas. Afinal, não é essa a função do artista, contribuir para que uma sociedade reflita sobre si própria, frente a alienação que a própria vida impõe, sobretudo essa de hoje, cheia de progressos e propostas questionáveis?
E já que estamos falando das águas de março, foi também neste mês, dia 25, no ano de 1997, que nos deixou o bom Matias, com seu teatro mambembe, seringueiro, cheio de propostas críticas e sonhos distantes. São as águas de março fechando o verão. É um caco de vidro, é a vida, é o sol. É a noite, é a morte, é um laço, é o anzol.
É a promessa de vida no teu coração...
* Artista plástico