
Gilberto Braga *
Um jornalista fala no exercício da sua profissão, é demitido por isso e ainda tem que pedir desculpas. Parece coisa da mais atrasada política tupiniquim, mas não é. Aconteceu com um dos mais famosos repórteres americanos, atingido por um dos tantos estilhaços políticos da Guerra do Bush no Iraque.
Não fosse trágico, seria cômico ver os métodos de um presidente dos Estados Unidos igualar-se à políticagem que eles tanto gostam de denunciar como prática de regimes do Terceiro do Mundo.
Peter Arnett ficou famoso cobrindo a Guerra do Golfo pela CNN, em 1991. Agora era um dos raros jornalistas americanos admitidos em Bagdá, a serviço de nova patroa, a rede de tv NBC. Nessa condição deu uma entrevista à televisão estatal do Iraque, onde comentou que os estrategistas de Bush subestimaram a resistência iraquiana. A Casa Branca reclamou, mas a NBC sustentou que os comentários do seu repórter foram profissionais e analíticos. Aí o governo ianque endureceu, afirmou que o dito pelo jornalista ajudava e até confortava o inimigo. Não deu outra: a NBC mudou de opinião, demitiu o profissional e ainda “justificou” que “Arnett não foi correto”. Para completar a trapalhada, não foi o governo americano nem a NBC, mas o demitido Peter Arnett quem veio a publico pedir desculpas, dizendo-se “constrangido” pela confusão que provocara.
O jeito Bush de guerrear é primitivo. É um vale tudo. Além dos prejuízos próprios aos conflitos armados e seus irreparáveis custos à vida, o método do presidente americano bombardeia a civilização. Ele humilhou a ONU e agora manipula o noticiário de guerra.
Manipular informações para controlar pessoas e situações é prática de todo ditador, inclusive o do Iraque. Bush disse que ia lá combater isso, mas adotou as mesmas armas de Saddam. Por sua arte, o Estado mais poderoso do planeta manieta os meios de comunicação do seu país e, por tabela, toda a rede global de informação. Desde Hitler o mundo não via nada tão descarado e perigoso.
Há muito liberdade de imprensa e direito à informação são pré-requisitos para a democracia, mas a política desse presidente americano atenta contra ambos e trai o desejo de uma ordem mundial tutelada pela informação de Estado. Por essas e outras é que manifertar-se contra a Guera do Bush é mais que um ato de solidariedade ao espoliado povo iraquiano. É também um gesto de defesa do direito de se viver em paz em qualquer parte do planeta.
* Jornalista