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Rio Branco - Acre, sexta-feira, 4 de abril de 2003

Preços disparam e prejudicam
qualidade de vida do acreano

Valor da cesta básica em Rio Branco salta 31,42% no espaço de um ano e compromete renda familiar, diz estudo da Seplands

Josafá Batista

Uma subida generalizada de preços comprometeu a qualidade de vida e freou bruscamente o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em Rio Branco no último ano (segundo o IBGE, hoje estacionário em 2,52%). A pesquisa, da Secretaria de Estado de Planejamento e Desenvolvimento Econômico-Sustentável (Seplands), foi realizada durante os últimos 12 meses em 20 estabelecimentos da capital. Segundo ela, um rio-branquense gasta hoje 91,64 reais para comer - 31,42% a mais do que gastava em fevereiro de 2002.

A cesta básica alimentar é composta por 16 itens, segundo padrão nacional do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese). O reajuste de todos os integrantes da cesta básica não é a única novidade. Segundo a mesma pesquisa, a cesta de higiene pessoal teve reajuste médio de 2,30% em relação a janeiro desse ano. Uma terceira cesta, a de limpeza doméstica, subiu 1,95% também em relação ao mês passado.

Somando todos os reajustes, a Seplands descobriu um dado aterrador: a participação das três cestas básicas no salário mínimo é de aproximadamente 61,20%, totalizando 122,38 reais (o levantamento foi realizado antes do último reajuste do salário mínimo).

“Não devemos esquecer que todo esse levantamento foi realizado segundo o cálculo de consumo médio de apenas uma pessoa. Em caso de famílias grandes, por exemplo, os números se multiplicam e as dificuldades também, já que duas crianças, segundo o Dieese, têm o consumo de um adulto”, explicou a gerente de estudos e pesquisas da Seplands, Aryanny Cadaxo Feitosa Lima.

Família de cinco pessoas
gasta 320 reais com cesta básica

A Seplands apurou que a cesta básica alimentar recomendada para uma família de cinco pessoas, composta por dois adultos e três crianças, representou um gasto, no mês de janeiro, de 320,74 reais - o equivalente a 1,61 salário mínimo.

A aquisição de produtos alimentares, de higiene pessoal e de limpeza doméstica para essa família, no mês de janeiro, comprometeu 428,33 reais, o que equivale a 2,15 salários mínimos.

“Acontece que nem todos têm o dinheiro necessário para gastar isso tudo com produtos de limpeza, alimentos e higiene pessoal. Temos um comércio ainda incipiente, a maioria dos artigos dos supermercados é trazida de fora e o desemprego ainda é grande. Por isso, a maior parte da população acaba poupando muito, suprimindo itens do seu cardápio. Isso para não contar no pagamento de impostos, com água, luz e IPTU, além dos gastos com calçados, educação, saúde e transportes”, revela o presidente da Central de Movimentos Populares (CMP), Charles Vieira, assustado com as quantias estratosféricas.

Nessa radiografia da economia em Rio Branco os problemas podem ser ainda piores do que pincela a pesquisa da Seplands. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), dos 253.059 moradores de Rio Branco, apenas 58.465 exercem algum tipo de ocupação ou trabalho, com ou sem carteira assinada. São 194.594 pessoas desempregadas.

Quanto se trabalha para comer em Rio Branco

Para adquirir os alimentos necessários à nutrição mensal de uma pessoa adulta, o trabalhador rio-branquense com uma carga horária mensal de 220 horas (55 horas por semana e cerca de 9 horas por dia), tendo a remuneração de um salário mínimo bruto (200 reais) precisa trabalhar, segundo a Seplands, 100 horas e 48 minutos. Ou seja, aproximadamente 13 dias.

Veja a distribuição de horários segundo cada produto da cesta básica e os meses de janeiro e fevereiro:

Arroz – para comer seis quilos, foram necessários 12 horas e sete     minutos de trabalho em janeiro. Em fevereiro foram 12 horas e 16     minutos;
Feijão – para comer quatro quilos, o trabalhador precisou de 12 horas     e nove minutos. Em fevereiro, 12 horas e 24 minutos;
Carne – para comer 2,5 quilos, 9 horas e 25 minutos em janeiro. Em     fevereiro, 9 horas e 47 minutos;
Frango – para comer 3 quilos, 9 horas e 50 minutos. Em fevereiro, um     minuto a mais;
Leite – para beber seis litros, seis horas e 23 minutos. Em fevereiro,     dois minutos a mais;
Pão – para comer três quilos, 12 horas e 34 minutos. Um mês depois,     mais quatro minutos;
Café – para consumir 300 gramas, 1 hora e 54 minutos. Trinta dias     depois, uma hora e 55 minutos;
Açúcar – para dois quilos, duas horas e 49 minutos. No mês seguinte,     mais um minuto;
Farinha de mandioca - para três quilos, três horas e 56 minutos. Em     fevereiro, 4 horas e 4 minutos;
Tomate – para três quilos, cinco horas e 39 minutos. Em fevereiro,     cinco horas e 50 minutos;
Banana – para cinco dúzias, três horas e 15 minutos. Um mês depois,     três horas e 23 minutos;
Óleo de soja – para 900 mililitros, duas horas e 44 minutos. Em     fevereiro, duas horas e 46 minutos;
Manteiga – para 600 gramas, sete horas e 37 minutos. Um mês     depois, sete horas e 56 minutos;
Ovos – para uma dúzia, duas horas e 56 minutos. Em fevereiro, duas     horas e 25 minutos;
Macarrão – para dois quilos, cinco horas e 56 minutos. Em fevereiro,     seis horas e sete minutos;
Sal – O único item que não apresentou alteração - nos locais     pesquisados.

Comparação de custos de vida

O custo das cestas de higiene pessoal e limpeza doméstica em fevereiro foi de 9,35 reais e 21,39 reais, respectivamente. O total de 30,74 reais apresenta uma variação de 2,06% em relação a janeiro do mesmo ano. A higiene pessoal apresentou variação positiva de 2,30%. A limpeza doméstica também apresentou alta de 1,95%, em relação a janeiro.

Em janeiro desse ano foram necessárias 33 horas e oito minutos contra 33 horas e 49 minutos do mês de fevereiro (aproximadamente cinco dias de trabalho) para o trabalhador adquirir os itens das cestas básicas de higiene pessoal e de limpeza doméstica.

“Dividindo esses gastos do orçamento doméstico, constatamos que um rio-branquense gastou 45,82% do salário com alimentação, 10,70% com produtos para limpeza doméstica, 4,68% com higiene pessoal e 38,8% com outras despesas”, explica Aryanny, apontando um dos gráficos da pesquisa.

O reajuste obtido foi uma média do praticado entre pequenos e grandes estabelecimentos, da periferia e do centro comercial de Rio Branco. A metodologia, segundo a Seplands, consiste em visitar os 20 estabelecimentos, utilizando como critérios de escolha a representatividade de cada bairro no município e os pontos de compra mais procurados pela população residente nessas áreas.

A coleta de preços é realizada semanalmente. Cada estabelecimento é visitado pelo menos duas vezes por mês.

Alternativas do comércio local

Alternativas criativas para driblar o alto preço da cesta básica são oferecidas, de várias formas, pelo comércio de Rio Branco. Num supermercado local, por exemplo, há dois tipos de “sacolões”, que unem diversos produtos numa só embalagem.

“Temos dois tipos de sacolão: um com 16 itens e outro com 14 itens. O primeiro sai por 34,66 reais e o outro por 25,18”, explicou uma vendedora que não quis se identificar.

Tanta amabilidade pode esconder uma sutil armadilha de marketing. Atraído pelo menor preço, o consumidor acaba reparando apenas que o pacote mais barato possui apenas dois itens a menos, mas não observa que nem a quantidade nem a variedade é suficiente para sustentar uma só pessoa durante um mês.

É na periferia da cidade, entretanto, que o ciclo de compra e venda apresenta matizes mais dramáticas. Como se não bastasse a maioria dos produtos serem comprados pela terceira ou quarta vez por pequenas mercearias, centenas de famílias dependem da famosa “conta” ou “crédito” no estabelecimento.

“O princípio é o mesmo: compra-se durante um mês para pagar no início do outro. Muita gente já se deu mal com isso, mas outras conseguiram fechar um grupo de clientes fiéis que não o deixa em maus lençóis. Eu vendo e pelo mesmo preço. Mas tem comerciante que para compensar a inflação acaba cobrando algum tipo de juros do cliente. As pessoas, que dependem daquilo para sobreviver, acabam comprando”, explica o pequeno comerciante Raimundo Oliveira Brito, 43, dono de uma mercearia no bairro Santa Terezinha.

População reclama dos preços

“O interessante é que se você prestar atenção todos os aumentos são muito fora da nossa realidade. O salário mínimo não acompanha nada. Nessas subidas que acontecem, o salário continua o mesmo. Na minha opinião, o panorama até poderia ser melhor, tendo em vista a política econômica adotada pelo governo. Mas não é. Todos procuram faturar mais com a guerra.” - Eliane Rudey, servidora pública

“Acredito que isso tudo nasce da falta de consciência dos responsáveis pelo nosso país. Se o governo proibisse, duvido que haveria tanto aumento. É um problema sério isso, já que nasce de problemas internos, como a dependência ainda grande dos investimentos do exterior, e externos, como a guerra que ameaça todo o planeta. A solução, decerto, só virá no longo prazo.” - Janete Pontes, professora

“Vejo que a tendência é ter aumento em todos esses itens, principalmente pela dependência do Acre em relação aos produtos industrializados de outros Estados. Aqui se produz muita coisa, mas a maior parte dos itens da cesta básica ainda vem de fora. Isso encarece o preço dos produtos. Hoje, por exemplo, está um absurdo. Acho que nem vou comprar nada.” – Egídio Serra Filho, agente de saúde

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