
A economia mundial terminou o primeiro trimestre enfraquecida. Os problemas não começaram na guerra do Iraque; o fim do conflito não vai resolvê-los. A economia americana cresceu pouco, a européia, ainda menos. Alemanha e França estouraram o limite europeu para déficit público. Na nossa vizinhança, a Venezuela continua mergulhada numa recessão de 18% e a Argentina, em seu dilema político.
No começo do ano, houve sinais de retomada da produção em vários países industrializados. Os bons números ocorreram apenas em janeiro. O mundo não está ainda em recessão, mas continua com dificuldade de retomar um crescimento mais vigoroso. O consumidor americano ficou ainda mais retraído com a guerra e a alta do preço do petróleo retirou parte do seu poder de compra. Se o fim da guerra derrubar o petróleo abaixo dos US$ 30, isso ajudará a elevar o consumo interno nos Estados Unidos. Depois da guerra do Golfo, em 91, iniciou-se um período de crescimento, mas o precedente pode não se repetir agora.
A Alemanha está com um déficit público de 3,6% do PIB e a França também passou o limite de 3%, estabelecido por Maastrich para os países membros da União Européia. A Comissão Européia já abriu procedimentos por déficit excessivo contra a Alemanha e deve fazer o mesmo com a França. No Reino Unido, houve uma forte queda do consumo das famílias e o país terá que enfrentar também o problema dos gastos com a guerra. Nos Estados Unidos, há o aumento do déficit, pelos gastos militares, e corte de impostos prometidos por Bush na campanha. Menos receita e mais despesas.
Entre os emergentes, a economia turca é a que mais está sofrendo o impacto da guerra. O país está há dois anos em crise cambial, socorrido pelo FMI e pelos Estados Unidos. Mesmo assim, a Turquia negou o uso de suas bases para o ataque ao Iraque. O JPMorgan acha que o peso da dívida ainda é sustentável. Mas o risco-Turquia cresceu muito, o déficit fiscal se ampliou, ela perdeu receita de turismo, o custo da dívida aumentou e a chance de nova ajuda americana é remota. Os curdos estão lutando ao lado dos americanos. Em troca, podem pedir a independência. Isso pode agitar o sul da Turquia, que tem a maior concentração de curdos do mundo.
Os dados de fevereiro mostraram um aumento forte das exportações na Ásia, principalmente de Singapura, China, Coréia e Taiwan. É a força do comércio inter-regional puxado por economias que permanecem crescendo como a da China. Aumentou também a exportação de bens de alta tecnologia. Estas vendas devem cair porque dependem da economia americana, onde a demanda já se enfraqueceu. No Japão, tomou posse em março o novo governador do Banco do Japão, Toshihiro Fukui, prometendo enfrentar com formas mais eficientes os problemas da crise bancária e da deflação que paralisa a economia japonesa.
A negociações comerciais deste ano já foram afetadas pela guerra. O primeiro sinal foi o fim do prazo, no dia 31 de março, na OMC, sem que as maiores economias anunciassem seus planos de negociação de abertura no comércio de agricultura. Esse fracasso pode ser revertido em setembro, na reunião de ministros em Cancún. O Brasil luta em outra frente: a da negociação entre Mercosul e União Européia, que acabou de ter uma produtiva reunião em Atenas. Nesta frente, mesmo durante a guerra, as negociações têm avançado e já há acordo para a redução de proteção em 91,5% da nossa pauta de exportação, na qual 70% são produtos agrícolas. O avanço no esforço birregional está sendo considerado pelo Itamaraty como uma “rede de proteção” diante de um possível fracasso das negociações na OMC. A abertura do comércio agrícola é fundamental para o aumento das exportações brasileiras e do Mercosul.
O fim da greve de dois meses na Venezuela não resolveu o impasse do país. A produção de petróleo está se normalizando, mas eles ainda estão sob risco de moratória.
Na Argentina, o ex-presidente Carlos Menem é considerado como certo no segundo turno na eleição do próximo dia 27. A outra vaga é disputada por Nestor Kirchner, Rodriguez Saa e Lopez Murphy. A esquerdista Elisa Carrió tem caído em todas as pesquisas. A subida de Lopez Murphy é um espanto: ele é aquele ministro super ortodoxo que ficou apenas 15 dias no cargo e está fazendo sua primeira incursão política. Menem convidou seis economistas para escreverem seus programas econômicos. E vai divulgar todos para ver qual o melhor. Deve ser o primeiro caso de um programa econômico em múltipla escolha. Faltando vinte dias para as eleições, ninguém sabe qual é o programa econômico que pode vir a ser implantado. Nem mesmo os candidatos.
Na economia, a Argentina vive um dilema: o dólar tem caído demais. No começo do ano, o real e o peso estavam na mesma cotação. Agora, o real subiu, mas o peso subiu ainda mais. Está em $2,90 por dólar. Esta valorização excessiva é resultado do fato de que o país não está pagando a dívida e, por isso, há poucas remessas. Se o dólar continuar em queda, a Argentina pode ter redução das exportações. O que é ruim para o processo de recuperação e para as finanças públicas. Hoje, a grande receita fiscal é o imposto sobre exportação.
É neste mundo, com impasses, baixo crescimento, déficit alto, dúvidas políticas e instabilidades agravadas pela guerra, que o Brasil tem que fazer o esforço de retomar o crescimento no segundo trimestre.