
Francisco Dandão
A polêmica começou já na segunda-feira, último dia de março. As equipes que disputariam o GP Brasil de Fórmula 1, marcado para hoje, não poderiam usar propaganda de cigarros nos seus carros. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária cogitou, inclusive, multas pesadas para os desobedientes.
Pelo menos desta vez estaremos salvos, pensei ao tomar conhecimento da coisa. Nada daquelas letras coloridas falando das maravilhas das baforadas, nada de subliminar tentando subverter a ordem natural dos neurônios da galera, nenhuma tentação assim mais nociva. Menos mal, pensei, menos mal.
(A propósito, abro neste ponto um parêntese de um parágrafo para informar a quem interessar possa que aquele cowboy sorridente e muito macho que enfeita a propaganda do cigarro Marlboro, tanto nos outdoors quanto na televisão, morreu de câncer no pulmão, viu paturebas?).
Sexta-feira, porém, as minhas esperanças de ficar por duas horas pregado na televisão sem o bombardeio das mensagens de que fumar faz bem à saúde e pode produzir homens velozes, campeões das pistas e, por conseguinte, com recheadas contas bancárias na Suíça, se esvaíram.
Certamente alertado por assessores de que a proibição da propaganda tabagista faria a direção da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) cancelar as provas marcadas para o Brasil nos próximos anos, o presidente Lula acabou assinando uma Medida Provisória cancelando a Lei.
Claro, claro, no lugar do presidente provavelmente a maioria de nós faria a mesma coisa. O dinheiro que deixaria de entrar no país, caso as provas fossem canceladas, certamente faria uma enorme diferença nos nossos cofres eternamente combalidos. Mas que eu torci pela proibição, não posso negar.
Sorte do circo da Fórmula 1 e dos fabricantes de cigarros que ainda podem sair por aí ditando as suas regras, baseadas total e absolutamente no poder econômico, sem se importar quantos palhaços vão, por conta disso, contrair um enfizema pulmonar e botar o pé na cova prematuramente.
No final das contas (o texto saiu mais mórbido do que um dia eu imaginei que poderia publicar num domingo, mas vá lá que seja), não sei exatamente porquê, me sobrevêm a sensação de que, quinhentos anos depois de Cabral, a gente continua "levando fumo" dos gringos. Ou não?