
Raimundo Cardoso
“Temos que evitar que o Incra seja uma imobiliária”
ALTINO MACHADO
A partir de amanhã, a superintendência do Incra no Acre estará nas mãos do engenheiro Raimundo Cardoso, 57, personagem marcante da história de lutas dos trabalhadores rurais do Estado.
Cardoso morava em Manaus (AM) quando, em 81, leu na imprensa a notícia de um conflito de fazendeiros e seringueiros pela posse da terra no Acre. Recém-formado pela Universidade Federal do Amazonas, o agrônomo recusou o emprego de professor para se aliar aos seringueiros.
Começou a trabalhar na extinta Comissão Estadual de Planejamento Agrícola e no ano seguinte ingressou no Incra, onde permanece há 21 anos. Cardoso nasceu no Ceará, mas já morou em todas as regiões do país em razão de suas atividades em partidos de esquerda.
Ocupou posição de destaque nas superintendências do Incra em Rondônia e Tocantins, foi superintendente no Distrito Federal, mas no Acre, que considera a segunda terra, sempre foi muito estigmatizado.
A indicação do agrônomo é avaliada por muita gente como a acertada para conduzir o programa de reforma agrária do governo federal no Acre.
“Temos que evitar que o Incra seja uma imobiliária de transferência de terras”, afirma Cardoso, que aponta a falência dos projetos de colonização e defende os assentamentos florestais como modelo de reforma agrária para a Amazônia.
Leia os melhores trechos da entrevista:
Existem sem-terra no Acre?
Existe uma falação de que existe, mas eu conheço bem os procedimentos do MST, que só mobiliza famílias para assentamento nos próprios estados. O MST não transfere contingentes de sem-terra para assentar em outros estados. Agem dessa maneira porque do contrário estariam estimulando a colonização e não a reforma agrária.
Mas quem é esse grupo que se intitula como sendo do MST no Acre?
Existe algum sindicato, que precisa aparecer porque não tem base de massa. É como aquele santo que não tem liderança com as almas do seu purgatório e procura por almas no purgatório dos outros.
Como o senhor pretende lidar com essa situação?
Nós precisamos obter terras para os trabalhadores do Acre.
Quantas pessoas existem cadastradas no Incra para receber terras no Acre?
Temos um cadastro de 14 mil pessoas em busca de terras. O governo federal está tentando obter terras para parte dessas famílias. Não faz sentido alguém trazer famílias de fora para tentar assentá-las aqui. A liderança sindical envolvida nesse episódio precisa botar os pés no chão, se articular com outros movimentos organizados aqui e então nos ajudar a assentar as famílias que têm vocação agrícola.
A colonização impulsionada pelo Incra demonstra ser inviável como modelo para a Amazônia. O senhor concorda que esse modelo está falido?
A reforma agrária tem que obedecer as diferenças regionais de clima, cultura, hábitos, costumes e vocação econômica. A reforma agrária aqui da região NOrte é a mesma do Sul, Centro-Oeste, Sudeste e Nordeste, que são totalmente diferentes, do ponto de vista econômico e cultural, da nossa região. Temos que encontrar, junto com a sociedade organizada, um modelo de reforma agrária adequada para a Amazônia.
O senhor é um funcionário de carreira do Incra, porém aqui no Acre nunca ocupou a superintendência regional por causa do seu engajamento político na esquerda em defesa dos trabalhadores rurais. Isso faz com que o peso da responsabilidade seja maior?
Fui um funcionário estigmatizado porque o Incra, em que pese sua importância, foi muito utilizada para atender interesses de grupos e partidos. Os projetos de colonização demonstram má qualidade e distorção.
Qual a situação hoje dos projetos de assentamento?
O modelo está ultrapassado e falido mesmo. Não produz e só atrapalha. Temos, de 80 para cá, 23 mil famílias assentadas para uma capacidade de 16 mil famílias. As estatísticas do Incra indicam que 11.250 famílias evadiram dos seus lotes no Acre. Isso significa que o modelo está errado e precisa ser mudado. Vai ter um seminário, nos dias 10 e 11, a programação do Incra para o exercício de 2003. Vamos mostrar os dados dessa reforma agrária que foi feita até agora. Temos que evitar que o Incra seja uma imobiliária de transferência de terras.
A questão fundiária do Acre parece complexa. O senhor concorda?
Aqui a questão fundiária é mais complexa que em outros estados, sobretudo porque o Acre é área de fronteira.
É verdade o Acre não é dono das terras porque a maioria pertence de fato à União?
Sim, isso é verdade, de acordo com o que diz a legislação agrária sobre as faixas de fronteira. Temos imóveis legislados por faixa de fronteira de 60, 100 e 150 quilômetros. Isso faz com que as terras do Acre fiquem praticamente todas dentro da faixa de fronteira.
Qual o tipo de entrave que isso gera para o desenvolvimento regional?
O governo estadual poderia ter mais flexibilidade no trato com a terra. O Estado precisa ter mais domínio da questão agrária para poder desenvolver com mais liberdade o seu projeto econômico.
Nesse sentido, o senhor considera positiva a iniciativa do governador Jorge Viana ao criar o Instituto de Terras do Acre?
Trata-se de uma iniciativa muito positiva. O Incra não vai impedir as ações do governo estadual. Pelo contrário, nosso compromisso é de firmar uma parceria com o governo com o objetivo de que o governo estadual atinja seus objetivos. O Acre precisa produzir riqueza, gerar emprego e renda para o bem-estar do povo.
Qual o seu grande sonho à frente da Superintendência do Incra no Acre?
Meu grande sonho é fazer um trabalho de qualidade na execução do programa de reforma agrária do presidente Lula. Precisamos recuperar os assentamentos, criar uma estrutura adequada, educar os assentados nas questões da produção, do planejamento e, especialmente, do mercado. Temos que produzir com vistas ao mercado. O desafio é transforma-los em pequenos empresários da agricultura familiar, dominando a tecnologia, o espaço organizacional e o mercado. Por outro lado, é compromisso nosso é dispensar atenção especial para as populações das florestas. Temos que buscar um modelo de reforma agrária adequada às populações florestais. Será o assentamento florestal.
Na sua opinião como seriam os assentamentos florestais?
Seria um projeto onde se faz o mapeamento das riquezas florestais, incluindo a densidade de madeira, castanha, seringa, ervas economicamente importantes. A exploração madeireira, por exemplo, teria que obedecer a um plano de manejo. Dessa maneira, a comunidade de uma determinada área estaria envolvida com a produção de madeira certificada.
Os ruralistas têm reclamado que o governo federal tem nomeado pessoas muito à esquerda para conduzir a reforma agrária no país. O que alguém pode temer do senhor, que desde a juventude esteve envolvido com partidos clandestinos durante o regime militar?
A única coisa que pode meter medo é a minha cara. Mas, do ponto de vista do meu comportamento, as pessoas conhecem a minha vida. Sempre condenei o desastre do modelo de reforma agrária feito aqui, embora tenha contribuído diretamente para isso como dever de servidor. Eu era obrigado a executar, mas não contribui na elaboração do que existe hoje. Alguém pode se preocupar comigo porque sou exigente, zelo pelo patrimônio público, não aceito suborno e primo pela qualidade. Na minha gestão, eventualmente alguma corrupção será punida exemplarmente.
O senhor participou de muitas organizações populares no meio rural junto com a senadora Marina Silva e o sindicalista Chico Mendes. Como o senhor avalia hoje a sua posição?
Conheci o Chico Mendes quando ele era bem pobrezinho, bem lascadinho mesmo, quando não dispunha de dinheiro pra nada.
Mas o Chico Mendes permaneceu pobre até o assassinato, não?
Quando digo pobrezinho, estou me referindo ao tempo em que ele sequer tinha dinheiro para pagar o ônibus. Eu venho de uma luta a mais desigual que se possa imaginar. Quando conheci o Chico Mendes pensei em vários companheiros que deram suas vidas pela libertação do homem, pela conquista da cidadania. A partir disso, passei a ajudar o Chico Mendes. Eu ganhava um bom salário de executor mais um salário de engenheiro agrônomo. Eu tirava uma parte do salário para o Chico Mendes ter condições de organizar os trabalhadores em Xapuri. Eu disse: ‘Chico esse dinheiro é pra você e sua família, pro movimento em Xapuri’. Eu argumentava que ele não deveria se sentir obrigado a voltar para o seringal. Era isso que os fazendeiros queriam, para evitar que ele organizasse os trabalhadores. Fiz isso, mas depois percebi que estava errado e então articulei um grupo de amigos: Marcão, da Emater, Cacá, Monteiro e até o João Correia. A gente se cotizava todo mês para manter Chico Mendes e a família.