
Piscicultura é negócio rentável
para os pequenos produtores
Técnicos da área
desenvolvem projeto para melhorar
a cadeia produtiva e o comércio do pescado acreano
Tatiana Campos
A piscicultura é uma atividade que vem ganhando cada vez mais espaço e apoio no Acre. Os investimentos não são tão altos, a área de terra não precisa ser tão grande e o retorno parece ser garantido. As dificuldades, como a alimentação dos peixes e os cuidados no manejo são facilmente dribladas pelos pequeno produtores, que vêem no negócio uma alternativa rentável para sobrevivência. Mas, técnicos adiantam que é preciso se desenvolver ações para a melhoria na cadeia produtiva do Estado, trabalhando com os insumos, a produção, a industrialização e a comercialização do peixe.
“Para os produtores nós damos técnicas, capacitação e procuramos inserir tecnologias na produção. Mas, trabalhamos com todos os segmentos da cadeia produtiva”, ressalta o diretor de agronegócios do Sebrae, Domingos Júnior, que trabalha no Programa Estadual para o Desenvolvimento da Cadeia Produtiva da Pesca e da Pisicultura (Prodepaq), criado pelo instituição.
Um outro fator apontado pelos técnicos é que no Acre os resultados obtidos com a piscicultura não são melhores devido a alimentação que é dada aos peixes criados em açudes, onde a falta de informações dos produtores também é um empecilho para o crescimento da atividade no Estado.
Uma experiência inovadora
Um exemplo de que os pequenos produtores acreditam na rentabilidade do negócio está na experiência implantada nos 100 hectares de terra, situados no Quixadá, que pertence a Henrique Julião de Lima, o “Seu Liminha”, 79 anos. Ele cultiva às margens do Rio Acre, além da piscicultura 1.800 pés de cupuaçu, 200 cajazeiros, 1.200 pés de maracujá, macaxeira e melancia, culturas que convivem “harmoniosamente”. Liminha conta que optou pela agricultura para sobreviver nos períodos de entressafra do peixe, tempo em que ele enfrentava muitas dificuldades.
Da casa construída dentro de um açude que é conhecido por “Pai dos Pobres”, por alimentar muitas famílias na região, ele cultiva espécies como piau, caraçu, pacu, tambaqui, tilápia, curimatã, sardinha... e muitas outras. Em outro açude, de 20 hectares, ele não sabe ao certo quais espécies tem.
Os peixes cultivados na área de “Seu Liminha” são nativos, oriundos do Rio Acre, que enche os açudes na época das cheias. “Esse ano o rio só jogou 1 metro e meio de água, costuma jogar 3 ou 4, então não vai dar muito peixe. Mas calculo que vou colocar no mercado cerca cinco toneladas de pescado, muito pouco comparando com os outros anos, ‘Ave-Maria’, isso não é nada em vista do que eu já produzi”, comenta o produtor.
“Seu Liminha” tem 67 anos de experiência na criação de peixes e cuida de toda sua área com a ajuda de um funcionário. Trabalho para ele não é e nunca foi problema: “As facilidades da vida são tão grandes que agora o homem ficou preguiçoso. O que eu passava até 180 dias para limpar o rapaz faz em pouco tempo com uma roçadeira”, alega sorrindo.
Pequenos estão procurando mais orientações especializadas
Há um ano o pequeno produtor Eliton Marcelino Francelino resolveu investir as poucas economias na piscicultura. A idéia surgiu ao ver os 20 hectares de terra que uma tia tem na Estrada do Mutum sem produzir. Ele não perdeu tempo. Entrou em contato com técnicos da Emater e pegou todas as orientações necessárias: onde construir os açudes, como tratar a água, qual a alimentação adequada. Ele diz que toda a produção de peixes já tem mercado garantido para atender a demanda da Semana Santa. Essa será a primeira venda do pequeno piscicultor.
“A piscicultura é um negócio bom para trabalhar e não tem muitas dificuldades. As áreas para construção de mais dois açudes já estão demarcadas e recebi várias propostas de compra para o pescado. Se o lucro é alto ou não vou saber agora. A primeira vez que vou vender a produção será na Semana Santa”, comenta.
Segundo o diretor de agronegócios do Sebrae-Ac, Domingos Junior, a piscicultura é um negócio lucrativo, não requer uma área muito grande de terra e é uma alternativa de sobrevivência para os pequenos produtores. A maior dificuldade enfrentada é a falta de informação e o grande segredo do ramo é a alimentação dada aos peixes.
Um levantamento está sendo feito no Estado pelo Sebrae, Ibama, Governo do Acre, Ufac, Ministério da Agricultura e Embrapa para obter dados estatísticos da produção de peixes e das regiões produtoras. “Não há controle da quantidade nem das espécies produzidas na região e isso dificulta um pouco esse trabalho”, disse Domingos.
Bacias pesqueiras acreanas começam a se esgotar rápido
O Sebrae vem desenvolvendo o Programa Estadual para o Desenvolvimento da Cadeia Produtiva da Pesca e da Psicultura (Prodepaq) há um ano. Ele visa dinamizar ações para a melhoria na cadeia produtiva do Estado, trabalhando com os insumos, a produção, a industrialização e a comercialização do peixe.
No Acre, segundo Domingos, existe uma indústria de peixes em fase de instalação no município de Senador Guiomard. “O objetivo é dar um acabamento melhor ao peixe e trabalhar com os seus sub-produtos, como a farinha de peixe, o óleo, o filé. Tudo isso com uma qualidade imprimida em cada produto”, explica o diretor de agronegócios.
O abastecimento do mercado acreano depende dos peixes vindos de municípios como Boca do Acre, Guajará Mirim, Porto Velho. “O maior volume de peixes que entra no mercado acreano vem dos rios do Amazonas. As bacias pesqueiras do Estado (Purus, Iaco, Juruá) estão se esgotando. Nós retiramos os peixes em grande quantidade da natureza e não devolvemos. Em Cruzeiro do Sul os pescadores já estão entrando em território amazonense para pescar”, comenta.
Sucesso depende do alimento do peixe
Segundo o técnico da Secretaria de Extensão Agroflorestal (antiga Seater) Cauby Gadelha, o problema com a alimentação dos peixes pode ser resolvido com a capacitação dos produtores, o que vem sendo trabalhado pela maioria das instituições que atuam em parceria na área.
“Estamos trabalhando com a capacitação dos produtores, fornecendo técnicas e orientando no que for preciso. Nós damos apoio desde a escolha da área a ser trabalhada até a comercialização do produto. O maior problema é a alimentação do pescado, mas já estamos viabilizando uma solução para isso”, esclareceu o técnico.
Segundo Cauby, os peixes de açudes são alimentados com farinha de pupunha, macaxeira, milho e até pão. A alimentação ideal é uma ração balanceada, que não é produzida no Estado e custa caro aos produtores.
“Já existe uma pesquisa em andamento para produzirmos essa ração aqui no Acre, com produtos da região. Isso vai baratear o seu valor e facilitar o trabalho do produtor. Nossa produção tem capacidade para triplicar se for bem alimentada”, explica.
Exportações para o Sudeste
A qualidade do peixe acreano criado em açudes não é das melhores, a consistência da carne e o sabor não são de excelência. Mais uma vez a alimentação fornecida ao pescado é a responsável.
Mesmo com todas as dificuldades o mercado acreano exporta peixes para o centro-oeste e sudeste. Os maiores compradores são Brasília e São Paulo.
“Exportamos tambaqui, pirarucú, e quelônios, que são os campeões de exportação. No ano passado, com a alta do dólar o pirarucu foi bastante procurado para substituir o bacalhau. Os peixes saem daqui abatidos e em condições de resfriamento”, explica Domingos.
Peixeiros não estão otimistas
Durante a Semana Santa, a tradição da igreja Católica recomenda que os fiéis não comam carne vermelha. A venda de peixe nessa época costuma triplicar e os peixeiros aproveitam para ter lucro extra aproveitando a alta procura pelo pescado que a data estimula.
Este ano o quilo de peixe está bem caro, chegando a custar 10 reais para o consumidor. E o preço deve aumentar nos dias de pico das vendas. “Na Semana Santa ele vai aumentar um ou dois reais. É a única época que a gente tem lucro porque compra o pescado de atravessadores que já vendem muito caro pra gente”, explica o peixeiro Antônio Joaquim Rodrigues, há 10 anos no ramo.
Segundo ele, o peixe exposto nas prateleiras do mercado passa por três ou quatro pessoas até chegar ao consumidor, e isso encarece o produto. “No ano passado estava mais barato. Não sei se as vendas vão ser boas este ano. O movimento ainda está muito fraco.”
As espécies mais procurados pelo consumidor rio-branquense são o Tambaqui, o Dourado e o Filhote. “Os clientes preferem os que não tem espinha. Os pescados de açude são os mais baratos mas, eles reclamam da qualidade. Os que têm condições levam dos mais caros, que são melhores”, disse o comerciante.
Dicas para uma boa compra
A dona de casa Sabrina Pereira olha os peixes expostos no mercado com olhos atentos. Antes de escolher o pescado ela examinava o produto, aperta, presta atenção à cor e à consistência da carne.
Sabrina, que trabalha como nutricionista, dá as dicas para as donas de casa menos experientes: “Você tem que colocar o dedo no peixe, se a carne afundar não está legal. Observe bem a cor, se estiver com aparência escura também não leve pra casa. Olhando o peixe a gente percebe se ele foi raspado, se já foi congelado e descongelado, é só prestar atenção”, ensina.
Espécies mais produzidas no Acre
Tambaqui
Curimatã
Tambacu
Tambatinga
Pacú
Tilápia
Pirarucu
Pirapitinga
Tempo de desenvolvimento dos peixes
Com ração balanceada: entre 8 e 9 meses
o peixe atinge o peso de comercialização
(2 quilos em média)
Com alimentação inadequada (mandioca, milho, pupunha) pode demorar
até dois anos para atingir o nível.