© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, domingo, 6 de abril de 2003
A guerra entre nós

Elson Martins *

Estou pasmo com o fato de a Guerra no Iraque ter invadido o cotidiano das pessoas aqui no Acre. Só no Parque da Gameleira, no Segundo Distrito, aconteceram duas enormes concentrações pela Paz e contra a violência e a guerra no decorrer de uma semana. Embora tenham sido promovidas pelo governo, foi ampla a participação de diferentes correntes políticas, também de gerações e classes sociais diversas. Todo mundo vestindo branco e sinalizando para uma vida mais inteligente no planeta.

George Bush e Sadam Hussein talvez não imaginem o quanto são odiados na terra de Chico Mendes. Na concentração da semana passada, percebi que os anos de pregação do Abrahim Farhat, o Lhe, contra Israel e em defesa dos palestinos frutificaram. Vi um grupo de jovens tocando fogo numa bandeira surrada dos Estados Unidos, enquanto alguém empunhava um cartaz no qual se reconhecia a têmpera “revolucionária” do chefe árabe. A gente sabe que não é bem assim.

Como sou do tempo em que futebol, religião e Coca-Cola eram tidos como o “ópio do povo”, reagi com uma ponta de satisfação por aquelas manifestações. Ignorei algumas mensagens esgarçadas que mandavam lá do palanque e deixei passar uma lufada de água fresca para lavar a alma. Quis até escangotar para me inspirar na bandeira acreana que tremulava no mastro de oitenta metros de altura, mas me faltou pescoço.

Plantado em frente ao palanque, numa postura que podia lembrar os veteranos da Segunda Guerra Mundial que aparecem nas paradas de 7 de setembro, no País inteiro, ouvi alguém falar do Bacurau, um hanseniano intelectual e corajoso que conheci nos anos setenta: uma jovem senhora cantou uma música que disse ser a sua preferida, falando de paz, mas cantou tão mal que me fez duvidar do gosto do velho amigo já falecido. Outro falou em Salmos e não entendi ou não quis entender.

Entre uma mensagem e outra, porém, senti que não estava sozinho na aflição. A Célia Pedrina apareceu me cutucando as costas e em questão de minutos derramou seu sarcasmo “contra tudo que aí está” típico de seu temperamento. A Célia, que foi presidente da Associação dos Professores e membro da executiva do PT era osso duro de roer. E estava ali por minha causa.

Em 1977 fui a São Paulo receber o Prêmio Esso que o Estadão ganhou por uma reportagem produzida em equipe, com a coordenação do Ricardo Kotcho, que hoje é Secretário de Imprensa do Presidente Lula. Kotcho decidiu dividir a grana com três correspondentes, eu incluso. No Hotel em que me hospedei, por conta do jornal, conheci a Célia que fazia um pouco o gênero universitária da USP. Ou me pareceu que fazia. Discutimos e após alguns chopes caí na besteira de desafia-la a vir brigar de verdade pela reforma agrária e pela democracia no Acre. Oferecei até minha casa como hospedagem.

Ela veio e me surpreendeu. Tornou-se uma furiosa repórter do Varadouro, depois entrou na luta partidária (PT) e nas associações com ímpeto raro. Acho que até me superou em muito, na defesa de seringueiros e índios pela posse da terra. Acabou perdendo a identidade paulista (o sotaque permanece) e brindando o Acre com dois filhos talentosos e engajados: uma jornalista (Mariama) e um músico (João Eduardo).

Além da Célia, passaram por mim no Parque da Gameleira outros excluídos, quero dizer excluído das lutas mais recentes. Trocamos olhares de cumplicidade e continuamos perfilados, cada um em seu posto nas proximidades do palanque. Como a pensar em bloco: além da guerra de Bush e Hussein, temos a enfrentar a da violência urbana e aquela outra, recôndita, mas igualmente perigosa que vai roendo pela borda da alma.

Voltando ao movimento pela paz e contra a guerra, percebi que havia ali uma força popular muito grande e bem armada de espírito, um movimento capaz de centrar fogo e vencer muitos males sociais que nos afligem hoje. Será preciso, porém, atuar nesse movimento com sabedoria. Na trincheira ou em campo aberto, para não se expor ao fogo amigo.

* elson-martins@uol.com.br

Amazônia
Colunas
Cotidiano
Expediente
Entrevista
Editorial
Estilo
Especial
Esporte
Política
Principal