
Programa de combate à fome é lançado no Pará com ampla participação da sociedade
Lula lança Fome Zero em Belém e diz que quatro anos é pouco tempo para realizar os projetos que sonha para o país
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o prefeito de Belém, o petista Edmílson Rodrigues, lançaram nesta sexta, na capital do Pará, o programa Fome Zero. Durante o evento, a Associação dos Feirantes do Complexo Ver-o-Peso anunciou a doação de duas toneladas de alimentos, informou a Agência Brasil.
De acordo com o presidente da associação, Dalci Cardoso da Silva, a decisão foi tomada a partir de um postura de solidariedade e participação dos comerciantes locais em relação ao programa que, na sua opinião, “é o melhor caminho para tirar a população carente de Belém da situação de miséria”. A associação vai criar um posto de recolhimento de alimentos para que também os fregueses possam fazer a sua doação.
A decisão da associação tem apoio dos feirantes, que se comprometeram a doar alimentos. “Meu lucro mensal é de apenas R$ 300, mas estou com disposição para ajudar no que for preciso àqueles que não têm nada”, disse Bernadete Freire da Costa, que venda ervas no complexo.
Os três primeiros cartões do programa serão entregues por Lula e Edmílson. O prefeito disse que a cerimônia seria um gesto simbólico para representar o início do projeto que em Belém. A primeira comunidade a ser atendida é de Visconde, onde serão entregues, até o dia 26 deste mês, os primeiros mil cartões-alimentação.
Apoio municipal - Os trabalhos serão desenvolvidos pela Secretaria Extraordinária de Segurança Alimentar do município, que foi formada e é administrada por uma ação conjunta das Secretarias de Economia, Educação e Saúde e também da Fundação de Assistência do município.
Segundo o secretário municipal de Economia, Carlos Bordalo, que coordena o comitê formado pelas quatro secretarias, o objetivo do programa não é apenas distribuir alimentos, mas “iniciar uma trajetória de emancipação e ressocialização das comunidades com maior índice de carência alimentar”.
De acordo com Bordalo, 30% da população, de 1,3 milhão de habitantes, vivem abaixo da linha da pobreza. Nesse contingente, a prefeitura identificou 11 áreas com nível de carência alimentar muito alto e é nessas áreas que o Fome Zero vai atuar.
Em discurso, Lula diz estar
criando os alicerces para 20 anos
Faltando poucos dias para completar cem dias de governo, o presidente Luiz Inácio Luiz Lula da Silva disse ontem, durante discurso para uma platéia de empresários e trabalhadores da Companhia Vale do Rio Doce, em Barcarena (PA), estar convencido de que em quatro anos de mandato não realizará os projetos que sonha para o país. Mas que o Brasil começa a ser pensado diferente.
“Estou convencido de que em apenas quatro anos [o mandato vai até 2006] a gente não vai conseguir fazer grande coisa que a gente sonhava fazer, mas estou convencido de que o alicerce será feito de tal forma que a gente possa construir vários andares a partir daí”, afirmou o presidente.
Em Barcarena, ele inaugurou nova linha de produção de alumina (matéria-prima básica na fabricação do alumínio) da Alunorte (Alumina do Norte do Brasil), empresa do grupo CVRD.
DISCURSO - Não é possível que o Brasil continue sendo pensado de eleição em eleição. Eu descobri que o papel do governo é o de planejar e quem sabe, em muitos casos, o de ser o incentivador. É preciso levar a sério o desenvolvimento da região, o que pensam os políticos, os empresários, a igreja, os trabalhadores, as igrejas, para que a partir desse acúmulo de informações se possa estabelecer um modelo de desenvolvimento.
Eu digo sempre que o Brasil dará certo no dia em que a classe política não pensar apenas no seu mandato. O Brasil dará certo no dia em que nós tivermos competência para planejarmos o Brasil para os próximos 20 e 30 anos. Se nós não formos gananciosos e pensarmos apenas que o Brasil é de cada um de nós. O Brasil não é do Lula, o Lula é que é do Brasil.”
Reformas - “Imaginem vocês se nós não fizermos as reformas tributária e previdenciária neste ano. No ano que vem, não faremos. Por que não faremos? Porque temos eleições para prefeitos em todas as cidades brasileiras e todos, sem distinção, estarão envolvidos na campanha eleitoral. E, se não fizermos neste ano, também não faremos em 2005 porque a eleição de 2006 estará na cabeça de todo mundo. Então nós não temos muito tempo.”
“Talvez a reforma tributária não seja perfeita, mas ela será a mais justa já feita neste país. Ela terá o princípio da justiça social: vai pagar mais quem tem mais. Ela terá como objetivo desonerar aquelas [empresas] que investem na geração de empregos e exportações para que o governo possa cobrar de outros setores da economia.”
Argentina - Em outro ponto do discurso, Lula respondeu aos que achavam que a economia brasileira viraria uma Argentina ou Venezuela. “Nós temos consciência de que o pior já passou na economia brasileira. E tem gente até hoje que não está satisfeito [em ver] que as coisas estão melhorando. Tem gente que achava que eu ia transformar o Brasil numa Argentina ou Venezuela. Qualquer que fosse o governo, o Brasil jamais seria uma Argentina ou Venezuela porque o Brasil já deu razões de sobra que tem capacidade de se recuperar por pior que seja o governante.”
Dólar - “No final do ano, o dólar estava a R$ 4, o risco Brasil estava em quase 2.400 [pontos]. O dólar está caindo tanto que já começa [a ter] companheiro nosso [a] dizer: não pode cair, precisar parar por aí. O governo não vai segurar, o câmbio é flutuante e o dólar vai cair até quando tiver que cair. Não cabe ao governo dizer que vai parar em dois ou três não”, afirmou, dizendo para o presidente da Vale, Roger Agnelli: “Não vem você amanhã reclamar comigo”, disse o presidente. “Eu nunca vi na história do Brasil um otimismo que estamos vivendo hoje. E bastou apenas uma viagem, uma única só, para mostrar que o Brasil está diferente”, concluiu.
Castigo - Lula disse que o “castigo” do Brasil é “um determinado setor da classe política brasileira, mas que o povo vai concertar. Eu acho que Deus de vez em quando castiga um pouco o Brasil. Nós temos um país abençoado por Deus. Onde é que está o castigo: num determinado setor da classe política brasileira, que eu que o povo vai consertar. Não tenho dúvidas de que o povo está apreendendo a escolhendo, a medir, pesquisar o trabalho de cada um para que possa um dia ter uma sociedade melhor.” (Agência Folha)