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Rio Branco - Acre, domingo, 6 de abril de 2003
Os cem dias segundo Lula

O presidente Lula é mesmo o melhor comunicador do governo, sabe como poucos explorar a mágica de entrar em todos os lares pela televisão e deve estar com alguma saudade da campanha. Já que os balanços sobre os primeiros cem dias de seu governo vão proliferar, ele também fará o seu amanhã, numa fala ao povo em cadeia de TV.

Será uma fala, algo em tom coloquial como fazia o candidato, não um pronunciamento formal, lido em teleprompter. Até hoje, dizem auxiliares da área de comunicação, ele não fez nenhum pronunciamento em cadeia nacional nem pretende abusar deste recurso. Fez um pronunciamento sobre a guerra, quando ela estourou, mas não em cadeia obrigatória.

Os cem dias completam-se na quinta-feira, dia 10, mas, por razões não explicadas, Lula preferiu falar amanhã. Não faz diferença, nada pode acontecer até lá que afete significativamente o balanço desta fase.

A última vez que Lula falou ao conjunto dos brasileiros foi na posse, lembram auxiliares. Depois disso, já fez 40 discursos, lidos ou improvisados, em viagens ou solenidades.

Avaliou-se no Planalto que está na hora de falar novamente a todos. Ou talvez tenha se calculado que o presidente devia antecipar-se aos balanços de terceiros — como os que o GLOBO publica hoje — apresentando sua própria valiação .

Lula é imprevisível quando fala sem ler o texto preparado por assessores, recurso que tem evitado desde que se constatou que ele agrada mais no velho estilo palanqueiro.

Mas deve repetir coisas que tem dito sobre os cem dias e a mais freqüente delas é a de que neste período já desmentiu as três profecias mais nefastas sobre sua presidência. As de que não seria capaz de gerenciar uma economia sob grande vulnerabilidade, não teria base política para governar nem seria capaz de estabelecer-se como interlocutor global, preservando o internacional que o Brasil teria conquistado sob Fernando Henrique. Deve pois Lula dizer que não se tornou um De la Rua nem fez do Brasil uma Argentina, que seu governo vem construindo com sucesso as bases políticas da governabilidade e da aprovação das reformas e recapitular a política externa, de fato muito ativa, que seu governo vem pondo em prática.

Cobrar autocrítica de governantes é pedir muito, embora alguns líderes do PT já tenham admitido erros cometidos quando estavam na oposição, exemplo do líder Aloizio Mercadante. Mas um balanço rigoroso deveria naturalmente admitir que área social do governo não tem andado no ritmo prometido. Tanto é assim que ele tem participado pessoalmente de reuniões da Câmara de Políticas Sociais e cobrado inovações. E, como deu para fazer ultimamente, Lula talvez repita que quatro anos são pouco tempo para fazer tudo o que gostaria, frase em que até as crianças vêem uma senha para a disputa da reeleição.

Nada de mal no recurso magia da telinha. Há porém um equívoco de avaliação sobre a comunicação do presidente. Junto às massas ele continua com a popularidade altíssima, como mostram as pesquisas e as cenas da viagem de sexta-feira ao Pará. Junto aos seg-mentos que formam opinião é que o conceito de todo governante começa a se esgarçar com o andar do governo. E até hoje o presidente não deu uma só entrevista coletiva, diz-se no Palácio que não pretende concedê-las, e muito menos entrevistas exclusivas.

O governo manda ao Congresso, esta semana, a Lei de Diretrizes Orçamentárias para 2004. O superávit, superior aos 4,25% deste ano, causará ranger de dentes na esquerda.

Notícias da Educação

Cristovam Buarque, ministro da Educação, é freqüentemente acusado de personalismo pelo PT. Seguindo os conselhos de Lula aos ministros para que afaguem mais o parti-do, ele anunciou suas primeiras medidas de impacto ao Núcleo de Educação do PT, coordenado pela deputada Iara Bernardi. Algumas:

1. Ainda este ano o MEC elevará de R$ 468 para R$ 500 o valor que o Fundef (Fundo Nacional de Desenvolvimento do Ensino Fundamental) repassa anualmente aos municípios por cada aluno matriculado.

2. Estão prontos os estudos para modificar o atendimento do programa Bolsa-Escola federal, implantado no governo passado. Calculando-se o benefício por família, e não por aluno, o valor da bolsa pode subir para R$ 50. Hoje pagase em média R$ 24 por aluno.

3. O MEC quer elevar já de 500 para dois mil o número de municípios em que oferece subsídio ao transporte escolar. A prioridade será para os municípios com mais baixo IDH .

4. No dia 24, em encontro com secretários estaduais de educação, Cristovam pretende anunciar a criação do Funeb (Fundo Na-cional do Ensino Básico), sucedâneo do Fundef, que passaria a beneficiar também a educação infantil (pré-escola) e o ensino médio.

5. Neste mesmo encontro, os estados serão chamados a participar do programa de erradicação do analfabetismo, seu programa mais ambicioso mas ainda no papel.

Tereza Cruvinel


cruvinel@bsb.oglobo.com.br
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