© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, terça-feira, 8 de abril de 2003
Razões do dólar

O governo não tem mesmo que intervir para segurar o dólar. Seria tão inútil quanto tentar garantir um teto para o dólar quando ele sobe. Mas há muitas decisões que o Banco Central pode tomar que evitem a queda excessiva da moeda americana, como reduzir a dívida cambial. Nada é trivial e qualquer movimento pode provocar volatilidade forte. É exatamente o sobe-e-desce que se deve evitar.

O dólar está caindo o que subiu excessivamente, da mesma forma que o risco-país, que ainda nem voltou aos níveis que estava há um ano. Alguns economistas temem que o dólar caia demais retirando competitividade do produto brasileiro. Na verdade, nem só de câmbio vive a competitividade de um país, como aprendemos nos últimos anos. Os exportadores brasileiros têm feito notáveis progressos para aumentar sua presença, ainda muito tímida, no mercado internacional. E, na verdade, mais do que o dólar alto, o que realmente favorece a exportação é a estabilidade do dólar.

Outro fator que tem aumentado as exportações e, portanto, a entrada da moeda americana no Brasil é o preço alto das commodities exportadas pelo país. Mas isto é conjuntural. Preços oscilam, como se sabe. Quando variam muito, prejudicam a economia.

O economista José Roberto Mendonça de Barros está entre os que temem a queda excessiva do dólar.

— Isso me lembra um filme que vi recentemente e de que não gostei. É bom lembrar que a inflação subiu muito. O dólar abaixo de um determinado ponto pode incentivar importações que não ocorreriam por ser proibitivas com um dólar alto — afirmou o economista, que, no entanto, concorda que o movimento de queda agora é uma correção do excesso de pessimismo durante a campanha eleitoral.

O câmbio é flutuante, como lembraram nos últimos dias o presidente Lula e os ministros Palocci e Furlan. Se não há ação eficiente para impor um teto, não há para impor um piso. Mas o Brasil continua sendo um país com déficit em transações correntes, com alta dívida privada e pública, necessidade de remessas de juros e dividendos, necessidade de aumentar as reservas e câmbio livre; portanto, o próprio mercado vai equilibrar o preço da moeda. A Argentina é que ainda vive uma anomalia, porque permanece em moratória: tem entrada de dólar e poucas saídas e isso está criando um câmbio artificial, a despeito das recentes medidas para incentivar a demanda por dólar. A moeda americana tem caído lá todos os dias e ontem fechou em $ 2,88. Aqui, a queda é a volta à normalidade, tanto que o fechamento de ontem significou uma volta à cotação de 5 de setembro do ano passado, quando começou uma escalada que o levou a R$ 3,95 no dia 10 de outubro. Está saindo do preço o medo de que o governo PT fosse decretar a moratória.

O movimento cambial dos últimos dias confirma o que foi dito intensamente na campanha, por vários analistas, e aqui nesta coluna: o velho discurso do PT, aquele que propunha ruptura e pregava a moratória da dívida, poderia levar o país ao colapso só pela reação de defesa dos agentes econômicos. As expectativas se deterioram rapidamente diante da perspectiva de vitória do Partido dos Trabalhadores e só não foi pior porque já haviam sido dados sinais de mudança da proposta econômica. O que explica o que está acontecendo agora com o risco, com o dólar é justamente a confirmação desta mudança do PT; porque nem se pode dizer que esteja havendo uma abundância de fluxo para o país.

O fluxo permanece negativo. Está havendo este ano uma queda do investimento direto estrangeiro e não está ocorrendo uma onda de entrada de dólar. Segundo o economista Marcelo Sperb, o dinheiro que está entrando é ainda o capital de curto prazo, atraído pelas taxas de juros, e há poucas captações boas como as da Petrobras e da Vale.

— A situação cambial brasileira não é tão confortável quanto parece. O fluxo permanece negativo, tem vindo dinheiro de arbitragem, de curto prazo que pode sair a qualquer momento gerando instabilidade, é o smart money e não há uma onda de investimento no país — diz o economista do Banco Nobel.

A dívida brasileira é ainda 30% em moeda americana. A redução do endividamento em dólar poderia mudar o movimento do câmbio. Mas qualquer sinal que o Banco Central dê de que não rolará a dívida integralmente será projetado no tempo como sendo um sinal de que aquele mesmo movimento se repetirá a cada vencimento. Sendo assim, os movimentos que o BC fizer nesta área devem ser cuidadosos e com visão estratégica, na opinião de Marcelo Sperb, do contrário, uma pequena redução da rolagem pode provocar uma reação forte do mercado. Mas, sem dúvida, este é o caminho a tomar caso o Banco Central tenha certeza de que o fluxo cambial está positivo.

paneco@oglobo.com.br
Miriam Leitão com Débora Thomé
Amazônia
Colunas
Cotidiano
Expediente
Entrevista
Editorial
Estilo
Especial
Esporte
Política
Principal