© Copyright Página 20 todos os direitos reservados
Rio Branco - Acre, quarta-feira, 9 de abril de 2003

Multidão de produtores levanta
acampamento em Senador Guiomard

Superintendente do Incra, secretário de Produção e vereadores fazem reunião; Marizia fecha prefeitura e desaparece

Josafá Batista

A expulsão de um grupo de produtores rurais da sede da prefeitura de Senador Guiomard (24 quilômetros de Rio Branco), ocorrida na segunda-feira, pode custar caro ao prefeito Antonio Marizia (sem partido). Acampados na esplanada do órgão, os colonos começaram um movimento que atraiu a atenção de alguns vereadores, que convidaram o presidente do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), Raimundo Cardoso. Ao tomar pé da situação, Raimundo resolveu cortar os convênios com a atual administração.

A decisão foi anunciada ontem durante reunião entre representantes do Incra, Secretaria de Extrativismo e Produção Familiar (Seprof) e membros do parlamento guiomarense. O secretário Mauro Ribeiro também anunciou sanções à atual administração municipal, mas se concentrou, principalmente, na solução do problema que é cerca de 120 produtores rurais totalmente sem condições de escoamento.

A prefeitura, que de manhã estava aberta, contou com a ausência do prefeito Antônio Marizia o dia inteiro.

DEBATE - Ontem o dia inteiro foi de reuniões entre os produtores, a Seprof e o Incra, além dos vereadores petistas Ocenilza Saraiva, Alci Brito e Zenilda Carvalho. Na primeira, das 10 às 13h30 de ontem, o Incra prometeu tomar providências imediatas a respeito do escândalo do sumiço dos maquinários. A Seprof, por sua vez, prometeu empenhar-se na pesquisa de tecnologias para melhorar a qualidade das sementes fornecidas às associações rurais.

Terminados os inflamados diálogos, a leva de colonos procurou a sede da prefeitura. Encontrou um prédio vazio, com portas e janelas cerradas, sem um só vigia. Isso por volta das 14 horas. A segunda reunião foi marcada para a noite, durante a sessão da Câmara de Vereadores.

Luz no campo chegará aos ramais

A assinatura da segunda fase do programa “Luz no Campo”, desenvolvido pelo Ministério das Minas e Energia (MME), deve beneficiar no próximo semestre as comunidades rurais carentes de Senador Guiomard. A garantia foi dada pelo secretário Mauro Ribeiro, durante a calorenta reunião realizada na Câmara de Vereadores.

“O problema da falta de eletrificação rural no Acre é antigo e tem a ver com a despreocupação da Eletroacre em levar qualidade de vida ao interior. Nesse momento, especificamente, a partir de maio, teremos um amigo nosso à frente da Eletroacre, que é o Edílson Cadaxo. Ele conhece muito bem a nossa realidade e estará trabalhando em nosso favor. A partir de maio, com a assinatura da segunda fase do ‘Luz no Campo’, nossa vida vai mudar”, disse Ribeiro.

Prioridades para os ramais mais críticos

Durante a reunião o Incra e a Seprof esforçaram-se para pincelar um novo quadro de parceria e organização entre União e Estado, que, segundo eles, pode alavancar “uma nova etapa no desenvolvimento econômico do meio rural acreano”.

Nessa conjuntura, ambos definiram, ali mesmo, várias prioridades para uma ação em conjunto emergencial. A principal delas foi eleger os pontos mais críticos e agir imediatamente - entenda-se, por isso, depois do período invernoso.

“Vamos agir primeiro na recuperação dos pontos mais críticos e também com maior número de produtores e os outros vêm depois. Isso acontecerá depois. De momento, o que pretendemos fazer é investigar a situação das patrulhas mecanizadas que foram cedidas à prefeitura, depois recuperar assim possam e depois responsabilizar, se necessário, a prefeitura por alguma irregularidade. Quando o inverno acabar, certamente essa fase burocrática estará pronta”, explicou Raimundo Cardoso.

“O que acontecia antes era que o Incra não se sentava com a Seprof, não havia uma discussão sobre nada e a enorme demanda de melhorias do meio rural acreano era feita em duas frentes, muitas vezes, enfraquecidas por razões orçamentárias”, completou Mauro Ribeiro.

O secretário também prometeu um fornecimento de sementes para os próximos meses. Um carregamento foi pedido da cidade de Cristolândia (GO), mas a data de entrega foi marcada para depois desse mês.

Secretário municipal, produtor
rural e irmão do prefeito

Atento aos discursos dos mandatários do Incra, da Seprof e dos próprios produtores rurais, o irmão de Marizia, Francisco Batista de Souza, 35, não reparou quando a reportagem acenou chamando-o para uma entrevista. Depois de um breve vacilo, caminhou preocupado até o local indicado e fez questão de ressaltar, logo de cara: “Eu sou funcionário da prefeitura também”.

A gratuita revelação de nepotismo na prefeitura, pronunciada sem qualquer pergunta anterior, foi um aviso. As perguntas subseqüentes poderiam comprometê-lo severamente. Veja como se desenrolaram, na íntegra, as perguntas e respostas.

Tudo bem, é só uma reportagem. Você é produtor rural?

Sou.

Em que ramal você mora?

No ramal Petrolina.

E como está a situação lá?

A situação está crítica, crítica. São alguns trechos pequenos, mas difíceis. As máquinas estão lá, também. Começaram a agir desde o início do mês. Agora, tem dois trechos críticos no quilômetro 12, que é na subida de uma ladeira, e no quilômetro 3, próximo do ramal Nova União. Mas eu acredito que daqui até o fim desta semana tudo estará resolvido.

Então ele é uma exceção nesse festival de denúncias.

O ramal Petrolina foi um dos privilegiados na obtenção de melhorias, através da associação de produtores, da qual eu era presidente. Tínhamos há vários anos trechos críticos de até 100 metros, mas a prefeitura vem agindo com rigor e tampando tudo.

É um ramal privilegiado.

Há outros também. O Santa Maria, por exemplo, é considerado um dos melhores ramais, bem como tantos outros. A situação não está tão feia.

O senhor disse antes que também é funcionário público.

Disse. Sou mesmo.

E qual a sua função na prefeitura?

Eu trabalho na Secretaria de Esportes.

E o que o senhor faz lá?

Eu sou o secretário de esportes de Senador Guiomard.

Mas o senhor também não é irmão do prefeito?

Sou irmão do Marizia, sim.

Trabalhadores cobram providências

“Na minha colônia tem roçado de mandioca, milho, feijão e várias frutas. Não consigo trazer para a cidade porque os ramais não dão a menor condição de tráfego. Tem lugar que até trator atola, se passar de frente mesmo. Ano passado perdi toda a minha safra de maracujá, que deu mesmo em cima do período de chuvas e acabou estragando. Sobrevivemos porque é o jeito” – Ivo Agostinho Pereira, 52 – ramal Gleba F

“A situação é crítica porque a nossa cidade não tem estradas. Se um dia cair um carro lá, por exemplo, não sai. Não tem condição de sair. Só mesmo um trator para vencer aquela lama. Estou cansado de andar até quinze quilômetros à pé para pegar o ônibus, que em alguns meses do ano chega a parar. Eu há muito tempo não tenho como escoar a produção, a não ser com carro de boi” – Resildo Souza Chaves, 29 – ramal Boa União

“É difícil para a gente se manter no campo, sabia? É difícil porque você vê o seu roçado pronto para a colheita e sabe que só pode sair do seu ramal se for de helicóptero. Não é brincadeira. O pior é que as máquinas foram doadas para a prefeitura, que deixou elas se acabarem no pátio, ali, sem tomar uma providência sequer. Senador Guiomard precisa de ajuda. E rápido” – Alcibete Ferreira da Silva, 31 – ramal Santa Maria

“Não é só os ramais, as pontes estão caindo de podres também. Lá onde eu moro tem pelo menos duas pontes que não é mais recomendável passar de carro. A patrulha mecanizada passou por lá, mas foi sabe quando? Em 2001. Eu se quero levar a minha produção de milho, mandioca e outros produtos, coloco tudo no lombo de um boi e vou à cidade. Pena que estraga muita coisa” – Antônio Ferreira de Queiroz, 50 – ramal Oco do Mundo

“Eu faço entrega de leite no ramal. De trator. Não tem outra forma de passar pelos atoleiros. Nem boi agüenta. Volto para casa à noite porque o trator é lento, muito lento mesmo. Não é verdade que o ramal vem sendo contemplado com algum recurso, porque eu moro lá, passo por lá todos os dias e não vejo melhora de nada. Pelo contrário, é só lama e pontes quebradas pra todo lado” - Aldeci Neves dos Santos, 37 - ramal Petrolina

“A escuridão que toma conta da estrada à noite impede muito a gente de ter uma vida decente. Às vezes a gente precisa instalar algum equipamento, uma moenda de cana, uma máquina para triturar grãos, e não dá porque não tem energia elétrica. E tem o problema da lama, ainda. A prefeitura deveria criar vergonha e respeitar a gente. E não ficar expulsando as pessoas” – Mércia Canuto Bezerra, 27 – ramal Encrenca

Dinheiro para ramais foi desviado

Um documento do Incra analisou os recursos liberados para a prefeitura guiomarense. Liberados em 1999, ambos tinham prazo de 120 dias para prestação de contas e 60 para a conclusão das obras. Veja, abaixo, em reais, a diferença entre o que foi liberado e o que foi feito em alguns ramais:

A) Convênio 9.000/01 - valores em reais

Ramal             Liberado             Executado
Santa Maria      93.505,80         45.394
Km 75              78.000              25.252
Catinga             36.000             10.976,67
Granada           84.000               14.371

Somente desse contrato sobraram R$ 195.690,39. As necessidades nos ramais são gritantes, segundo o Sindicato de Produtores Rurais da região.

B) Convênio 22.000/01 - valores em reais

Ramal           Liberado           Executado
Santa Maria   72.000               12.600
Km                84                     84.000 -
Nabor Júnior   48.000               3.780
Careca          48.000                25.900

Desse segundo convênio sobraram R$ 209.720. A situação dos produtores adjacentes também é ruim, reclama o SPR local.

Amazônia
Colunas
Cotidiano
Expediente
Entrevista
Editorial
Estilo
Especial
Esporte
Política
Principal
Especial Página 20