
Anselmo Forneck
“Os pecuaristas estão
alinhados
com o nosso projeto”
Há 25 anos, o estudante de Filosofia Anselmo Forneck foi convidado pelo bispo dom Moacir Grechi para vir trabalhar no Acre. Natural de Itapiranga (SC), na fronteira com a Argentina, ele estudava em Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul.
Ao aceitar o desafio de largar o frio do Sul pelo calor do Norte, Forneck acreditava que ficaria no Acre apenas três anos, desenvolvendo atividades no Conselho Indigenista Missionário (Cimi).
O tempo previsto extrapolou. Somente no Cimi ele passou 17 anos trabalhando com os indígenas do Acre, Rondônia e Sul do Amazonas. Nesse período, morou um ano e meio com os kulinas e kaxinawás, nas cabeceiras do rio Purus, no auge dos conflitos agrários no Acre.
Ao sair do Cimi, trabalhou durante três anos no projeto Criança Esperança da Unicef. Nos últimos quatro anos, foi assessor do senadora Marina Silva (PT).
Formado em Ciências Social pela Universidade Federal do Acre (Ufac) e com especialização em Antropologia, Anselmo Forneck assume na segunda-feira, aos 46 anos, a Gerência-Executiva do Ibama no Acre. Sua posse será a única no país prestigiada pela hoje ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, e o presidente nacional do órgão, Marcus Barros.
Ontem, em meio à correria para os preparativos da posse, ele recebeu a reportagem do Página 20 e falou sobre sua história no Estado e o que pretende fazer à frente de um dos órgãos mais complicados da administração estadual.
O senhor chegou no Acre há 25 anos para trabalhar com os índios. Agora assume o Ibama, um órgão que está ligado às populações tradicionais. Como o senhor encara isso?
Encaro, acima de tudo, como uma missão. Quando cheguei no Acre, a pedido do dom Moacir Grechi, o momento era de extrema dificuldade para as populações indígenas e extrativistas, onde os conflitos fundiários eram gravíssimos.
Recém-chegado na região, o senhor não sofreu nenhum tipo de ameaça de morte?
Recebi. Tive que me refugiar nas matas, ao longo dos rios Purus, Iaco, Caeté, Envira, Tarauacá, Jordão, Gregório, Breu e Muru. Apesar das dificuldades, essa foi uma chance que tive de conhecer todas as aldeias, rios e igarapés do Acre. Eu às vezes lamento que os próprios acreanos não conheçam seu Estado. Digo isso porque o Acre é rico e conta com um povo acolhedor e amigo.
O que o senhor pretende fazer pelas populações tradicionais?
Implementar políticas públicas, principalmente para as reservas extrativistas, trabalhar com as colônias de pescadores, dar apoio no setor de fauna, de flora e fazer treinamento de agentes florestais em áreas indígenas e ribeirinhas. Também pretendo desenvolver parceria com o governo do Estado, CNPT e com instituições financeiras como o Basa e Banco do Brasil, para que as linhas de créditos sejam disponibilizadas para as populações que defendem a floresta.
O senhor chega ao Ibama com o apoio incondicional da ministra Marina Silva, uma das seguidoras dos ideais de Chico Mendes. Como será a relação do órgão com os fazendeiros?
Tenho muito orgulho de ter recebido o convite da ministra Marina Silva e de poder defender aquilo que Chico Mendes lutou durante toda sua vida. Nunca esqueço uma vez, durante uma assembléia dos povos indígenas, quando o Chico Mendes chegou e disse: ‘Anselmo, estou impressionado. Vocês estão muito mais organizados do que nós, seringueiros. De que forma nós podemos nos organizar para atingirmos o nível alcançado por vocês?’.
Mas a relação com os fazendeiros, como fica?
A relação com os fazendeiros será muito tranqüila. Há quatro anos, quando comecei a trabalhar com a senadora Marina Silva, fizemos uma parceria com o Ministério Público Estadual, Imac, Ibama, Pesacre, CTA e trabalhadores rurais para criarmos um programa de controle e combate ao fogo. O programa tinha a finalidade de diminuir os incêndios, a destruição, aproveitar melhor as pastagens e o equilíbrio do meio ambiente. Em Xapuri, nós lotamos a Igreja de São Sebastião com fazendeiros, seringueiros e colonos, algo que parecia impossível há alguns anos.
O senhor ainda não respondeu à pergunta...
Hoje é possível trabalhar juntos índio, seringueiro, produtor rural, ribeirinho e pecuarista. Nós aprendemos que, seguindo os caminhos da destruição do meio ambiente e de um segmento contra o outro, não chegaríamos a lugar nenhum. Claro que ainda há segmentos radicais nos diversos setores. Mas posso assegurar que a maioria absoluta dos pecuaristas está alinhada com o nosso projeto.
O senhor tem alguma prova sobre isso?
Tenho. O presidente da federação que defende os interesses da categoria, Assuero Veronez, afirmou que os pecuaristas acreanos não farão feio para a ministra Marina Silva. Ele disse: ‘Nós vamos fazer de tudo para que ela possa ter um excelente desempenho no ministério’.
O senhor já tem um raio-x do órgão que irá administrar?
O Ibama é uma máquina muito complexa. Temos a sede em Rio Branco e escritórios em Cruzeiro do Sul, Tarauacá, Sena Madureira, Plácido de Castro e Brasiléia. Além disso, temos sob nossa responsabilidade a Serra do Divisor e as reservas extrativistas. Enquanto estrutura, o órgão está organizado de forma fantástica. Agora, sei que há sérios entraves no funcionamento da máquina.
Mas o Ibama é apontado como um dos órgãos onde existe muita corrupção...
Acabar com a corrupção deve ser premissa de todo e qualquer funcionário público. Quem atua no setor público deve ter como princípio a ética e a moral contra a corrupção. Isso para mim deve ser alvo de combate implacável. Se houver isso no órgão que vou dirigir, agirei com o devido rigor. Faço isso porque tenho que ser leal ao que a população, que nos paga, pensa.
O Ibama também sofre denúncia de venda de licenciamento para o desmate ilegal. Como o senhor pensa coibir isso?
Graças a Deus, o licenciamento hoje está 100% sob a responsabilidade do Imac. O Ibama não licencia mais para o desmatamento. Agora, estamos encaminhando uma ampla parceria entre Ibama, Imac e as secretarias municipais de Meio Ambiente. Acho que é perfeitamente possível coibir a venda de licenciamento. Para isso, temos fotosatélite e o Sivam para fazer todo o monitoramento.
O que está faltando, então?
Precisamos reverter o processo de fiscalização, que tem sérios problemas. Mas temos certeza de que a adoção de medidas duras pode resolver.
Como o Ibama e o Incra podem trabalhar para ajudar a trazer a florestania?
Na minha opinião, a florestania depende de cinco órgãos fundamentais. Incra, Ibama, Imac, Secretaria de Floresta e o Instituto de Terras do Acre são os nomes deles. Esses órgãos devem desenvolver ações coletivas. Trabalhando juntos, eles podem encontrar políticas públicas capazes de melhorar as condições de vidas dos seringueiros, índios, ribeirinhos, colonos e até os fazendeiros.
Como esse trabalho integrado poderia ser viabilizado?
O passo mais importante é investir na educação ambiental. Não há nada que corrija a cultura de um povo que não passe pela educação. Não adianta ficarmos apenas na repressão.
Mas a legislação é repressora...
É. Ela é repressora nos casos mais graves que merecem punição. Mas a prioridade absoluta do Ibama nos próximos anos será trabalhar com a educação ambiental, junto com produtores rurais, extrativistas, escolas e sindicatos. Enfim, trabalharemos da forma mais ampla possível para mudar o paradigma de queimar e derrubar no Acre.
A caça de animais silvestres é tipificada como crime inafiançável. Mesmo assim, as populações tradicionais dependem dela para sobreviver. Qual a sua opinião sobre o assunto?
Os seringueiros, colonos, ribeirinhos e índios têm direito à caça. Ninguém será preso por caçar um animal que servirá de alimento para a sua sobrevivência. Se isso acontecer, será abuso de autoridade por parte do fiscal do Ibama, que deverá ser denunciado e punido. Agora, a caça predatória, por prazer pessoal ou comercialização, é considerada crime inafiançável.
O senhor assume com o prestígio a toda prova. Dos 27 gerentes nomeados no país, a única posse prestigiada pela ministra Marina Silva será a sua. O próprio presidente nacional do Ibama, Marcus Barros, também virá. Isso não aumenta a sua responsabilidade?
É claro que a minha responsabilidade é bem maior. A ministra é do Acre. Mas já tivemos situações muito mais difíceis. As décadas de 70 e 80 foram mais desafiadoras. Nós tínhamos o Exército, Polícia Federal, governo e pecuaristas unidos conta nós. Hoje está sendo pactuada uma outra situação com a sociedade. Eu acredito muito mais em pactos do que na legislação.
Então o senhor defende um pacto da sociedade em favor do meio ambiente?
Sim. Eu defendo que formemos verdadeiros agentes de defesa ambiental em parceria com outros órgãos. Várias pessoas já se propuseram em ser esses agentes sem receber qualquer remuneração. A sociedade está se movimentado porque a questão no Acre, no Brasil e no mundo ganhou fôlego e as pessoas começaram a dar conta disso nos últimos 15 anos. O assunto está em pauta na agenda planetária.